Curso de serviço social vive boom com revalorização da profissão

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Mais de 8 mil recém-formados passaram a atuar na área no último ano, um aumento de 10%

Depois de ser voluntária num trabalho comunitário da região onde mora e perceber que era possível atuar de maneira mais ampla e profissional no setor, Aliciana Basílico Ramos de Oliveira decidiu prestar vestibular para Serviço Social. Aos 25 anos, no segundo semestre do curso, ela se surpreende ao encontrar outras pessoas como ela, prontas para atuar num mercado de trabalho mais amplo - seja no setor público, por meio dos programas de saúde e sociais, ou no privado, dentro do terceiro setor. No último ano, o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) registrou mais de 8 mil recém-formados que começaram a atuar na profissão. O número - um aumento de mais de 10% nos cerca de 74 mil assistentes sociais brasileiros - provocou surpresa até mesmo na presidente do conselho. "Foi uma proporção bastante significativa, que nunca tinha acontecido", explica Ivanete Boschetti, presidente do CFESS e professora da Universidade de Brasília (UnB). "É o reflexo mais concreto de uma revalorização da profissão, o que leva a um aumento da procura pelo curso por parte dos estudantes." Dados do Ministério da Educação (MEC) dão volume à análise de Ivanete. Em cinco anos, mais do que dobrou o número de vagas oferecidas nos cursos de Serviço Social, saltando de 9.757 em 2001 para 23.024, em 2006 - a maior parte delas em instituições privadas, seguindo o movimento de expansão desse setor desde o fim dos anos 1990. Como conseqüência, o número de concluintes passou de cerca de 8 mil para 16 mil alunos no mesmo período. Na origem desse fenômeno está a descentralização da área social e o aumento e a profissionalização do terceiro setor, com proliferação de organizações não-governamentais e institutos de vários tipos. "Desde a Constituição (de 1988), a sociedade tem criado mecanismos de inclusão social, abrindo novos espaços. O Sistema Único de Saúde (SUS) é um grande exemplo disso. É um dos maiores empregadores, seguido pela área judiciária e previdenciária", explica Silvia Carlone, coordenadora do curso de Serviço Social da Uninove, instituição que abriu a graduação na área há dois semestres, após fazer uma pesquisa entre os estudantes e perceber a demanda. "Com isso, há progressivamente maior espaço para a atuação do profissional na área, porque é ele quem realiza os projetos sociais; é ele quem planeja e executa essas ações", diz. Justamente por estar nessa ponta, num momento de aumento de programas sociais de todo tipo, o assistente social tem encontrado espaço em secretarias de saúde, habitação, trabalho, educação, autarquias, empresas públicas e privadas, projetos de pesquisa e programas do governo federal. O Programa Saúde da Família, por exemplo, também incorporou a figura do assistente social em suas equipes, abrindo postos em todo o País. Houve ainda a criação de centros de assistência social em todos os municípios, requisito de uma lei federal aprovada em 2005. "É visível a ampliação da demanda por profissionais qualificados", completa Eliane Ganev, coordenadora do curso na Universidade Cruzeiro do Sul. "Dezenas de concursos públicos têm sido realizados nos últimos anos para reposição dos quadros do funcionalismo ligados ao serviço social. A possível aprovação do projeto de lei que reduz a jornada de trabalho dos assistentes sociais para 30 horas semanais é mais um elemento que sinaliza a ampliação dessa demanda." Esse crescimento, no entanto, leva também a novos desafios. "Hoje não basta ter a visão assistencialista que se tinha antigamente. O perfil do profissional precisou mudar bastante para poder compreender as novas configurações sociais e as manifestações que isso gera", analisa Maria do Socorro Reis Cabral, diretora da Faculdade de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que tem um dos cursos mais antigos e tradicionais da cidade. "O estudante que recebemos geralmente já atua em algum trabalho comunitário e precisa ter uma formação capaz de entender a realidade atual, dar conta de organizar grupos, socializar informações e articular redes de serviços." No entanto, há também preocupações. "Sabemos que até o momento o mercado tem absorvido esses formandos. Percebemos isso pelo número de cadastros ativos e, pela situação atual, a tendência é que esse processo continue ainda por um tempo", explica Ivanete, do conselho federal. "Mas, como em todo fenômeno que apresenta forte crescimento em pouco tempo, é preciso ter cuidado, pois pode acontecer um retrocesso, caso isso seja acompanhado da precarização das condições de trabalho, como contratos, salários, jornadas, atribuições", ressalta Eliane, da Cruzeiro do Sul.