Correndo nas calçadas

Lola Felix - O Estado de S.Paulo

Praticar atividade física nas ruas e avenidas pode piorar problemas respiratórios

Atividade física é remédio para problemas que vão de depressão a obesidade. Não tem dinheiro para pagar academia? É só correr ou andar nas ruas, certo? Não é bem assim. A saúde do atleta amador pode ser prejudicada pelo ar poluído da Cidade. Alguém que caminha ou corre na Avenida Sumaré, por exemplo, pode se sentir mais cansado do que alguém que elege as pistas do Parque Villa-Lobos. 'Os poluentes dos automóveis, em especial o monóxido de carbono, aderem aos glóbulos vermelhos. Desta forma, o transporte de oxigênio fica comprometido e o corredor se sente cansado mais facilmente', explica o pneumologista Ciro Kirchenchtejn, da Unifesp. Quem tem sinusite, asma ou outro problema respiratório de base pode sofrer ainda mais com a combinação de frio e poluição. O nadador Nicholas dos Santos, prata nos Jogos Pan-Americanos nos 50 m livre masculino, achava que precisava se dedicar mais aos treinos quando o real problema era a asma que permanecia sem tratamento. Membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia, Iara Nely Fiks explica que atletas - profissionais ou amadores - com problemas pulmonares devem procurar o médico antes de qualquer treino. 'Em alguns casos, o uso de medicamentos poderá ajudar na performance', explica a pneumologista. Mas pulmão 100% saudável também não é sinal verde para o descuido. Segundo Iara, pessoas sem problemas respiratórios devem evitar corrida ou caminhada em horários mais gelados e ruas muito movimentadas. E devem se agasalhar bem, sempre. A analista de sistemas Bárbara Silvestre, de 25 anos, parou de correr na rua por causa da sinusite e sentiu que o fôlego melhorou. 'Tenho amigos que correm na Avenida Sumaré e sempre digo a eles que isso é suicídio', diz a atleta amadora. Pesquisador do Laboratório de Poluição da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva acha que se exercitar na rua pode oferecer riscos, mas ainda é melhor do que ficar em casa sem fazer nada. Ele mesmo é um exemplo disto. Aos 53 anos, Saldiva usa uma bicicleta para ir de casa (no Itaim) ao trabalho (no Butantã). Entre as academias, ruas e parques, o pesquisador acha a última opção a melhor, não só pelos níveis menores de poluição (pelo menos em relação às ruas), mas também pelo contato humano maior que oferece. 'Nos parques, é possível sair da solidão', acredita Saldiva.   Não corra atrás do problema     O melhor horário para se exercitar é antes de o tráfego de carros se intensificar, ou seja, até as 8h. Pode ser cedo demais, mas os pulmões agradecerão e o atleta se sentirá mais disposto. A 'hora do rush' (das 18h às 20h) é a pior do dia para se fazer atividades físicas nas ruas. A pessoa poderá sentir que o rendimento físico está menor e, se tiver algum risco coronariano, pode até enfartar. Atletas amadores com hábitos noturnos podem também se exercitar de madrugada. Em vez de correr ou caminhar nas calçadas é melhor escolher um parque ou academia para fazer seus exercícios físicos. Estes lugares, especialmente os parques, não estão a salvo da poluição, mas o os poluentes estão mais dispersos na atmosfera de um parque do que na de uma avenida movimentada, por exemplo. Nem pense em correr no estacionamento do prédio. Na garagem, os poluentes estão concentrados. Não é só o ar que pode prejudicar o desempenho do atleta amador. Também é preciso ficar atento ao piso da rua. Pavimentos muito acidentados podem prejudicar as articulações ósseas. Mais uma vez, a dica é procurar um parque ou a esteira da academia. Em dias muito frios, agasalhe-se corretamente. E, se tiver problemas respiratórios, consulte um especialista.