Corpo educado

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Vícios de postura e gestos automatizados podem enfraquecer o corpo e causar lesões. Aprenda a preveni-los

O prédio onde a Escola do Movimento está instalada diz muito sobre o seu timoneiro, o coreógrafo e terapeuta corporal Ivaldo Bertazzo, de 57 anos. De concreto e vidro, tem iluminação farta, belos quadros com motivos orientais, instrumentos indianos, amplas salas, pufes coloridos e objetos inusitados. Alguns dos acessórios são usados nas aulas, destinadas a pessoas de todas as idades, que queiram harmonizar o corpo, pelo método criado por Bertazzo. Ele também dirige a Cia. de Dança Ivaldo Bertazzo, composta por bailarinos de 15 a 22 anos, do projeto social que ele realizou em parceria com o Sesc em diversos bairros periféricos da capital paulista. Estão em cartaz até 8 de julho, no Sesc Vila Mariana, com o espetáculo Mar de Gente. Só que, para Ivaldo, que se dedicou ao estudo da anatomia e fisioterapia, antes da dança, vem o trabalho de conscientização do corpo, essencial para que o resto dê certo. Crítico dos cursos que enfatizam o relaxamento, ele conta que, na sua escola, tudo começa a partir da postura ereta, nada de se deitar no chão e se soltar. "A força contínua em você é seu potencial energético, você perde isso se mandam relaxar", comenta. Para os cidadãos urbanos, ele recomenda que estejam em atividade física, seja em natação, arte marcial ou dança. Como a maioria está no piloto automático, é preciso modificar o comportamento do corpo. Para isso, antes de entrar na atividade física em si, Ivaldo recomenda a fricção e estimulação da pele, para ativar a circulação. Para as mãos, indica a manipulação de pequenos objetos, passando-os sobretudo pelas regiões que tendem a criar fibrosidade, o que acarreta na tenebrosa lesão por esforço repetitivo (LER). A atividade das mãos ocupa um grande espaço do cérebro. Segundo Ivaldo, elas foram feitas, sim, para esforços específicos, como a digitação contínua. "As mãos são o que nós temos de melhor, o homem foi feito para manipular coisas. O problema é que as pessoas não descascam batatas o suficiente", fala, com seriedade. "Para criar mobilidade entre os espaços dos tendões e ossos, as pessoas deveriam chegar em casa e fazer todo o serviço de debulhar feijão e milho. Isso preveniria a tendinite, que é resultado de um músculo solista, trabalhando muito e sozinho." Outro trabalho importante é o de alongar a região entre o crânio e o quadril, pois a tendência natural depois dos 40 anos de vida é que esse espaço fique menor. "Esse alongamento deve ser constante, pois o encurtamento pode ocasionar problemas no nervo ciático e radicular, além de resultar numa respiração errada." Os pés são fundamentais. O ideal é que sejam bons amortecedores, prendendo-se como ventosas ao chão. "O peso deve estar bem distribuído entre os dois pés. Caso contrário, o joelho vai receber peso, e ele não foi feito para isso", fala Bertazzo. O bumbum não deve estar arrebitado, nem retraído: deve-se encontrar o equilíbrio da bacia. Com o peito ocorre o mesmo: nem posição de soldado, nem voltado para dentro. Mas o olhar é o mais importante de tudo. "Ele deve se organizar para frente, senão estraga toda a postura." Ivaldo diz que o corpo humano não foi feito para passar tanto tempo sentado. "Deveria ser uma precaução médica levantar-se a cada uma hora e meia, e caminhar 10 minutos em torno do escritório." Observa ainda que as pessoas nunca deveriam se sentar em cadeiras com encostos que "jogam para trás": a coluna deve estar alinhada. O melhor é que a cadeira não tenha braços, pois a pessoa tende a privilegiar um dos lados. E, na posição sentada, deve-se sentir os pés empurrando o chão.