Como brincam as crianças do Oiapoque ao Chuí

Rita Lisauskas - O Estado de S.Paulo

Documentaristas passaram quase dois anos registrando as brincadeiras das crianças brasileiras e lançaram “Território do Brincar”, que está disponível de graça, em plataforma da internet

Os documentaristas Renata Meirelles e David Geeks viajaram o Brasil por quase dois anos para assistir às crianças brincarem. Acompanhados de seus filhos, visitaram comunidades rurais, indígenas, quilombolas, áreas do sertão, cidades do litoral e grandes metrópoles para escutar essas crianças e registrar suas brincadeiras. O resultado dessa caravana foi o “Território do Brincar”, que também rodou o Brasil como eles e agora está liberado na plataforma Videocamp

O documentário, que é pura poesia, foi realizado graças à parceira com o Instituto Alana e já gerou mais frutos: dois livros, séries para a TV, uma exposição que rodou o Brasil e um intercâmbio com educadores de algumas escolas que puderam refletir como o brincar é visto por eles e tratado dentro das escolas. A diretora do filme e também educadora, Renata Meirelles, conta um pouco mais do projeto para o “Ser Criança”.

Os autores do Território do Brincar

Os autores do Território do Brincar Foto: Dibulgação

Por quais regiões passaram para gravar o “Território do Brincar”?

Entre abril de 2012 e dezembro de 2013, estivemos na estrada percorrendo o Brasil por comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral, revelando o país através dos olhos de nossas crianças. Foram 9 estados visitados – Pará, Maranhão, Ceará, Bahia, Espírito Santo, São Paulo. Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, 14 comunidades e 45 mil km rodados. Ficávamos em torno de um a três meses vivendo em cada um desses lugares, para conhecer de perto a realidade dessas crianças, criar um vínculo com elas, para compreendêssemos através de seus gestos mais espontâneos, aqueles não se revelam de imediato. Foram muitas as brincadeiras encontradas em cada lugar e percebemos que elas se repetem, como se existisse certos "temas" que precisam ser vividos pelas crianças, que tentam achar a melhor forma de experimentá-los. Brincar de casinha, usar armas de brinquedo, brincar com carrinhos e barcos, se esconder e ser achado, pular corda, amarelinha, jogos simbólicos representam um repertório que espelha a criança além dos regionalismos. São brincadeiras universais que representam a todos nós, independentemente da cultura em que estamos inseridos.

Foto: Divulgação

As crianças que não têm acesso ao brinquedo industrializado brincam de quê?

As crianças que não têm brinquedos industrializados brincam de coisas bem semelhantes que às crianças que podem comprar seus brinquedos. Brincam de casinha, de carrinho, de paraquedas, de barquinho, de armas, de guerreiro, de escolinha, de fazer comidinha, de se esconder, pegar, de correr. O desejo e o impulso que levam à essas brincadeiras são universais e estão além das fronteiras culturais e sociais.

Foto: Divulgação

Vocês descobriram diferenças nas brincadeiras de cada região do país?

O olhar do Território do Brincar esteve sempre focado no que une crianças de um país inteiro, mais do que descobrir um repertório diversificado em cada região. Certamente o ambiente vivido pela criança influencia suas escolhas e atividades, isso fica evidente nos registros do projeto. Porém, cada gesto que se repete de região para região, com coloridos culturais que permitem identificar sua singularidade, sempre foi a busca essencial do nosso olhar. O espontâneo, que revela o ser humano por detrás de cada expressão do brincar, é o desafio que estamos aprendendo a escutar.

Foto: Divulgação

Quantas pessoas já assistiram ao documentário? Por que acredita que o tema interessou tanta gente?

Com as exibições no Videocamp chegamos a um público de 54.821 espectadores, sendo o filme mais assistido por essa plataforma. Com uma linguagem mais poética do que didática, apresentando arquétipos do brincar que representam a criança universal,

o “Território do Brincar” toca pela sensibilidade, resgatando sentimentos e memórias, independentemente do que os espectadores tenham vivido na infância.

Por que decidiram conversar sobre os frutos do projeto com algumas escolas? O que a vivência de vocês pôde trazer de diferente para a rotina do ambiente escolar?

A parceria com seis escolas construiu um diálogo sobre o que brinca a criança dentro e fora da escola. Nós, do Território do Brincar, alimentamos educadores com esse olhar de um brincar espontâneo, sem supervisão, planejamentos e tempos e espaços delimitados. E os educadores refletindo sobre suas práticas a partir dessas relações. Muitos temas foram tratados em encontros mensais por Skype durante os 21 meses de viagem da equipe do projeto. Entre os temas mais relevantes dialogados estão: como as crianças brincam com o medo, o que buscam ao construírem seus próprios brinquedos, quais as referências que têm essas crianças sobre o que fazem os adultos, o brincar entre as diferentes faixas etárias e as questões de gênero. Essas reflexões e olhares foram para além do dia-a-dia nas escolas, retomaram para olhar o próprio eu de cada educador. Esse foi o maior passo dado nessa parceria.

Foto: Divulgação