Combinações complexas de genes levam ao câncer

Cristina Amorim - O Estado de S.Paulo

Tipo e severidade, por exemplo, variam a cada tumor

Esqueça a simplificação "um gene mutante provoca câncer". Três trabalhos científicos, publicados nas revistas Nature (www.nature.com) e Science (www.sciencemag.org) nesta semana, consolidam um entendimento muito mais amplo dos caminhos genéticos que levam ao desenvolvimento da doença. Uma análise genômica de tumores de pâncreas e cerebral (especificamente o glioblastoma, que afeta o senador americano Ted Kennedy) mostra que não apenas genes mutantes estão por trás do câncer. Inclua genes deletados, repetidos, superativos ou subativos. Pense em diversas combinações dessas peças, que geram diferentes efeitos na expressão gênica e, por fim, no tipo e na severidade do tumor. "O câncer é mais complexo do que acreditávamos", diz Bert Vogelstein, um dos cientistas que se debruçaram sobre dados do glioblastoma. "Se há cem pacientes, há cem doenças diferentes." Na Nature, um grupo do Instituto de Câncer Dana-Farber, nos Estados Unidos, analisou mais de 200 amostras de glioblastomas atrás de alterações genéticas. É parte de um projeto americano chamado Genoma do Câncer Humano, que tenta formar um atlas genético da doença. Na Science, um time da Universidade John Hopkins (também nos EUA) analisou 20.700 genes - quase todo o genoma humano -, com lupa nos trechos que codificam proteínas. Foram 22 amostras de gliobastomas e 24 de tumores de pâncreas. De forma geral, os trabalhos mostram que os genes alterados favorecem o surgimento de efeitos secundários. "Se não há, por exemplo, um sistema de reparo do DNA danificado, uma série de mutações é desencadeada", explica a pesquisadora Dirce Carraro, do Hospital A.C. Camargo, que não participou dos estudos. TERAPIAS A complexidade da equação não significa necessariamente que a terapêutica está mais distante. Uma caminho a seguir seria descobrir quais combinações de genes controlam o crescimento exacerbado e a difusão das células tumorais. O principal autor do estudo sobre o pâncreas, Kenneth Kinzler, lembra que "os genes não funcionam sozinhos". Segundo ele, é factível buscar esses conjuntos de genes para obter "uma imagem mais simples". No caso do pâncreas, em pelo menos 70% dos tumores foram observadas 12 combinações de genes que levam a funções celulares específicas, como a falha da apoptose (suicídio que a célula comete quando tem algum defeito). No caso do glioblastoma, três combinações de genes foram achadas na maioria dos tumores analisados. Além disso, as mutações variam de tumor para tumor, mas elas parecem levar sempre a uma combinação semelhante. Há uma média de 63 genes alterados em cada tumor do pâncreas e 60 no glioblastoma. COM AP E REUTERS