Cientistas criticam missão que para Aeronáutica teve sucesso parcial

Eduardo Nunomura - O Estado de S.Paulo

Agência Espacial Brasileira comemorou teste com foguete, mas pesquisadores perderam todos os experimentos

A Aeronáutica e a Agência Espacial Brasileira (AEB) chamam de "sucesso parcial" o que pesquisadores consideram um "fracasso monumental". Prejudicados pela não-recuperação de experimentos após o lançamento do foguete VSB-30, na semana passada, alguns cientistas cobram transparência dos responsáveis pela operação e uma justificativa pela falta de empenho em resgatar as pesquisas dentro da carga útil. O módulo se perdeu no mar. Uma série de incidentes percebidos por eles em Alcântara (MA) continua sem explicações. Até agora restam as seguintes dúvidas: as condições atmosféricas do dia 19 permitiam o lançamento sem riscos? Houve briga entre coordenadores militares? Por que folgas dominicais foram concedidas no ápice da missão? O pára-quedas rasgou, se enrolou ou não abriu? Lançar o veículo era mais prioritário do que recuperar os experimentos? O VSB-30 realizou o quarto vôo e pelo fato de ter subido ao espaço e alcançado a microgravidade por seis minutos obteve sua certificação como máquina confiável. O propulsor brasileiro funcionou como deveria. A janela de lançamento ficou aberta entre os dias 14 a 19. Se não fosse lançado desta vez, só em dezembro ou abril o foguete de sondagem obteria sua qualificação. No sábado, dia 14, houve a primeira tentativa. O céu estava claro, mas ventos de superfície superiores a 36 quilômetros por hora não recomendavam o vôo. No domingo, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) foi fechado para dar folga à tropa. "A gente está precisando de um domingo para que o vento descanse e possamos lançar na próxima semana", disse o tenente-coronel Olympio Achilles de Faria Mello, diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). "Fecharam a base nos domingos. Como pode, no meio de uma missão tão importante, parar com tudo?", questionou a pesquisadora Vera Maura Fernandes de Lima. Nos três dias seguintes, novos adiamentos pelos ventos fortes. As atividades começavam às 5 horas para que o vôo do VSB-30 ocorresse no máximo até as 14 horas, a tempo de recuperar a carga útil com a luz do dia. Mesmo com os adiamentos, civis e militares usavam a rotina como exercício de aprendizado. Porém, quando se percebeu o estreitamento da janela de lançamento, cogitou-se mudar a rota do veículo. DESENTENDIMENTO No dia 17, o coordenador de resgate da carga útil, tenente-coronel Fernando Cesar Ventura Pereira, colocou seu cargo à disposição do comando da missão. Foi voto vencido quanto à mudança de rota do VSB-30. Seu temor era a de que a alteração em meio grau de elevação ampliaria alguns quilômetros o raio do ponto de impacto e o módulo com os experimentos poderia se perder. Num relatório interno, o chefe da Cumã 2, Fausto Ivan Barbosa, descreveu o desentendimento: "O coordenador de resgate da carga útil (tenente-coronel Ventura) manifestou ser contrário à aplicação das mesmas (mudanças de procedimentos), deixando de atender às expectativas de prazo e qualidade requeridas para o momento, embora tivesse plena condições técnicas para isto. Ao ser questionado sobre o assunto, expôs seus argumentos, os quais não foram considerados suficientes pelo CGO (Coordenador-geral de Operação, tenente-coronel Barbosa)." Oficialmente, o tenente-coronel Ventura nega que tenha havido discordância. "Não vou declarar nada", afirmou de início ao Estado. Confrontado com a informação acima, respondeu: "Não abandonei a missão, que doideira é essa. Sou vice-diretor de Administração do IAE, estava chegando o final do mês e tenho de pagar as contas, precisei voltar. Não podia ficar lá o tempo todo." No dia 19, já com o major Anderson de Oliveira e Silva Junior substituindo o tenente-coronel Ventura, o vento de superfície estava abaixo de 36 quilômetros por hora e o vento balístico, calculado para os novos parâmetros de lançamento, era de 19,2 quilômetros por hora. O dia estava mais abafado. Dentro dos parâmetros, segundo o Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial. Às 5 horas, um pesquisador foi apanhado na casa onde se hospedava em Alcântara. No local, tinha de seguir regras militares como não ficar sem camisa ou dividir o dormitório com pessoas de mesmo sexo. O motorista encarregado de levá-lo até o CLA lhe deu a boa notícia: "O foguete vai ser lançado." Cético, ele perguntou como podia ter certeza. Ouviu: "Os salgadinhos foram entregues hoje." Pouco depois do lançamento, por volta das 12h30, começou um coquetel com coxinhas, quibes, espetinhos de queijo, salsicha e azeitona, vinho e refrigerante. Minutos antes, às 12h14, os cerca de 20 técnicos, pesquisadores e militares que estavam na casamata se abraçaram, alguns ficaram emocionados ao ver o VSB-30 voando. A partida, a divisão do foguete em dois estágios, o veículo se estabilizando e alcançando a microgravidade, os dados da telemetria sendo transmitidos, tudo indicava que a missão seria um êxito completo. Na reentrada do foguete, as imagens eram ruins. Um técnico da casamata, que as analisou quadro a quadro, confidenciou a um pesquisador que há um ponto em que o pára-quedas "charutou". Isto é, abriu, mas depois tomou a forma de um charuto. O engenheiro do IAE Flavio de Azevedo Correa Junior, coordenador dos experimentos do VSB-30, nega: "É um dado inverídico. Dava para ver o pára-quedas de arrasto, mas não o principal." A carga útil caiu a cerca de cinco quilômetros do ponto esperado. Foram feitas cinco buscas a partir de quadrados crescentes. Nenhum sinal indicava o ponto da colisão, o pára-quedas mergulhou num vôo rasante para o fundo do mar. Estima-se que esteja a 2.500 metros de profundidade. O módulo experimental foi desenvolvido pela Alemanha, parceira do Brasil no empreendimento. Se a perda da carga útil ocorreu por falha no pára-quedas, os alemães serão cobrados por isso. POUCAS BUSCAS O lançamento da semana passada repetiu o fracasso da Operação Cumã 1, de 2002, quando a carga útil também não foi localizada. Naquela ocasião, foram duas semanas de operação de resgate. Insatisfeito com o término dos trabalhos, o pesquisador Petrus Santa Cruz convenceu a Petrobrás a realizar novas buscas, por mais um mês, com um navio munido de sonar. Desta vez, na Cumã 2, a operação de resgate foi suspensa às 18 horas. No momento da reentrada do veículo, o sinal da telemetria falhou. Para Correa Junior, lançar foguetes para o espaço sempre envolve riscos. "Faz parte do negócio perder a carga útil. Temos de fazer com que os experimentos sejam mais dependentes da telemetria." O pesquisador Santa Cruz retruca: "Se não for prioridade resgatar a carga útil, a academia tem de ser avisada. O lançamento deveria ter sido interrompido."