Brasil tem emissões diferentes

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Principal fonte no País são atividades de uso da terra

O Brasil exerce papel diferenciado nas discussões internacionais sobre mudança climática. É o único país de peso na economia mundial em que a principal fonte de emissões de carbono são as atividades de uso da terra (agropecuária e desmatamento), e não a queima de combustíveis fósseis. Nesse sentido, a quantificação das emissões do setor conhecido como LULUCF (mais informações nesta página) são cruciais para se entender a contribuição do País para o aquecimento global. O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Gilberto Câmara, calcula que o desmatamento da Amazônia é responsável por 2,5% das emissões globais totais de carbono, com base nas estatísticas de 2008. O cálculo varia de acordo com o ano e os parâmetros utilizados, para mais e para menos. Mas é importante "não cair na armadilha das porcentagens", diz o pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Quando essas porcentagens são quantificadas em toneladas de carbono, as emissões ganham proporções "astronômicas" - suficientes para anular metade, ou até mais, dos ganhos que seriam obtidos com o Protocolo de Kyoto (se todos os países desenvolvidos cumprissem de fato suas obrigações). Na década de 1990, a média anual das emissões por desmatamento no Brasil foi de 200 milhões de toneladas, segundo Moutinho. Atualmente, está em torno de 160 milhões de toneladas. "Não é uma coisa desprezível. É uma contribuição muito grande", avalia o pesquisador Carlos Nobre, do Inpe. Proporcionalmente, a tendência é de que a contribuição desse setor para o aquecimento global fique cada vez menor, já que as emissões por combustíveis fósseis estão aumentando no mundo todo, enquanto que as por desmatamento estão caindo - em parte porque "há cada cada vez menos floresta para derrubar", aponta Moutinho. "É aí que as porcentagens podem passar uma impressão errada", completa. Moutinho defende a implementação do REDD como um mecanismo de mercado compensatório no próximo acordo de Copenhague. "Se não for no mercado, qual a garantia de sustentabilidade a longo prazo?", questiona ele, lembrando que já é difícil o suficiente conseguir dinheiro para ações humanitárias na África. Imagine, então, para salvar florestas no Brasil.