Bonita, eu?

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Gordinha, óculos fundo de garrafa, dentes separados, sardas mil pelo rosto. E linda. Quem viu o recente filme ´Pequena Miss Sunshine´, ainda em cartaz nos cinemas, ficou mesmo convencido de que aquela garotinha absolutamente fora dos padrões norte-americanos era mesmo uma criaturinha deslumbrante, digna de levar o tão sonhado título de beleza. Afinal, quem dá as cartas entre a moçada norte-americana é Katie Blair, a loira magra, alta e venerada que venceu o último Miss Teen USA. Tragicômica, a história da dupla de cineastas Jonathan Dayton e Valerie Faris não é tão pretensiosa a ponto de propor uma discussão em torno da chamada ditadura da beleza por meio do drama de Olive (Abigail Breslin). Até porque a menina, na verdade, não vive conflito algum: está muito confortável no corpo que lhe cabe. É a mãe dela, Sheryl (Toni Collette), que parece cutucar as famílias de verdade. ?Precisamos dar espaço para que Olive seja ela mesma, vencendo ou não?, diz a personagem. O discurso engajado da mãe da ficção poderia fazer maravilhas em lares de verdade. No Brasil, segundo pesquisa realizada pela Unilever Dove, 57% das meninas afirmam que a mãe exerce influência principal sobre elas no que se refere a sentimentos sobre a própria beleza. ?Quando a mãe é a primeira influência da adolescente, o poder da mídia e dos amigos se torna menos impactante. A adolescente irá sentir-se mais preparada para lidar com outros estímulos. É preciso deixar claro que o amor materno independe do peso da filha?, diz o psicólogo Marco Antônio Tommaso. Consultor da Dove na elaboração da Campanha pela Real Beleza, Tommaso já atendeu mais de 2 mil modelos das agências Elite e L?equipe. E foi entre elas que descobriu as distorcidas imagens que as meninas que ditam as tendências fazem de si mesmas. ?Há casos de meninas de 45 kg que procuram médicos na ânsia de operar o estômago. Elogios, trabalhos... nada satisfaz a vaidade dessas moças. Essa sensação de insatisfação permanente é uma patologia cultural?, diz. O termo patologia para designar a supervalorização das imperfeições corporais não é mero exagero, nem figura de linguagem. Nos manuais de psiquiatria há uma patologia designada como transtorno dismórfico corporal e muscular, algo que se caracteriza justamente por uma percepção delirante dos próprios contornos. E nem adianta dizer que o nariz da garota não é tão proeminente quanto ela imagina ou criticar idas tão freqüentes para diante do espelho. Para casos extremos, o melhor é procurar ajuda profissional. ?O transtorno dismórfico é diagnosticado a partir do momento em que existem prejuízos para o jovem, quando ele deixa, por exemplo, de realizar atividades por ter medo que caçoem da aparência que julga esquisita?, analisa a psicóloga Karem Camargo. ?É bom ressaltar, porém, que deixar de ir a uma só festa não chega a caracterizar o fenômeno. Isso se dá se esse tipo de comportamento é recorrente. Pais devem ficar atentos?, completa a profissional. Não há dúvida de que os pais, sobretudo as mães, são fundamentais para equilibrar a relação da filha com o espelho. Como, então, poderiam aplicar isso ao dia-a-dia da família? ?Apenas um discurso adequado não resolve, é preciso mudar posturas. As atitudes rotineiras dos pais podem auxiliar no bom desenvolvimento da auto-estima da adolescente: estimular alimentação saudável e atividades físicas em família são medidas simples que todas as mães podem adotar?, recomenda Tommaso. Para Karem, é importante estimular o desenvolvimento da identidade da filha, exatamente como fez a mãe de Olive em ´Miss Sunshine´. ?Se a filha quer ser hippie, não adianta a mãe querer levá-la para fazer compras em uma loja de luxo. É a mãe quem precisa rever seus padrões e deixar de projetar-se na menina. O principal é encontrar um equilíbrio saudável. Também não se deixa a filha andar descalça só porque quer ser hippie?, opina. Talvez assim, as meninas passem a olhar mais para si e menos para as revistas. Autor do livro ´A Ditadura da Beleza´, o psiquiatra Augusto Cury descobriu que a principal referência estética no Brasil é Vera Fisher, seguida por Xuxa. Isso, vale lembrar, em um País onde menos de 7% do povo têm origem alemã.