Bairros parecidos, grávidas diferentes

- O Estado de S.Paulo

Em M´Boi Mirim, a maioria das mães tem menos de 18 anos. Já Socorro é o campeão de gestantes com mais de 35. Os dois são na Zona Sul

A condição socioeconômica e a falta de acesso à infra-estrutura são os fatores que aproximam os dois extremos da maternidade em São Paulo. Um levantamento do Programa Mãe Paulistana, realizado pela Prefeitura, mostra que os bairros de M´Boi Mirim e Socorro, distantes 20 quilômetros na mesma Zona Sul, concentram, respectivamente, o maior número de grávidas adolescentes e o de gestantes com idade acima de 30 anos. ´As meninas que crescem em ambientes desfavorecidos socialmente pensam na gravidez como forma de conseguir alguma coisa na vida, de ganhar status, de constituir família´, diz Celso Terra, coordenador do Mãe Paulistana, programa municipal de saúde criado para dar assistência às grávidas de São Paulo. ´Por outro lado, quando ficam mais velhas e melhoram de condições financeiras, acreditam que a ligeira ascensão é uma porta para os outros filhos´, afirma o especialista. Os dados colhidos pelo programa em 30 bairros durante o ano de 2005 e divulgados agora mostram que, das 26.289 meninas que engravidaram antes dos 18 anos, 1.800 moram em M´Boi Mirim. Já das 23.861 futuras mães que passaram dos 35, 1.300 residem em Socorro, o campeão de gestação tardia. O estudo revela ainda que o atendimento de gestantes em outros distritos afastados das zonas nobres confirma a tese de Terra. Assim como M´Boi Mirim e Socorro, Campo Limpo (na Zona Sul) e Itaquera (na Zona Leste) dividem espaço tanto na lista de mães adolescentes como no ranking de maternidade acima dos 35 anos. Por abrigarem os opostos das idades das grávidas, as regiões da periferia paulistana acabam como maior alvo dos programas de saúde da mulher. Segundo o anúncio do governo federal feito no final do mês passado, a prioridade é atacar a mortalidade materna e infantil, além de incentivar o planejamento familiar. E os desafios para colocar as ações em prática estão concentrados nas mães mais novinhas e nas mulheres mais experientes. ´As duas faixa etárias configuram o maior risco para o bebê e as grávidas, exigem cuidados especiais. As idades antes dos 18 e acima dos 30 serão o foco do incentivo de uso de métodos contraceptivos´, afirma o coordenador. Unidos no alvo dos programas de saúde feminina, os dois extremos de idade exigem cuidados diferenciados. As duas décadas que separam o nascimento de Vera Lúcia Soares, 36 anos, e Eliana, 16, representam bem todas estas diferenças. Vera experimenta a gravidez pela terceira vez, planejou o bebê e ´colocou na ponta do lápis os gastos que teria com a criança.´ Já Eliana, que por ser menor não pode ter a identidade revelada, é mãe de primeira viagem e, apesar de ter ficado ´muito feliz´, está de 7 meses e ainda não pensou bem sobre as obrigações que a esperam. O médico Carlos Eduardo Miranda, que cuida da barriga de 8 meses de Vera na Unidade Básica de Saúde (UBS) Três Corações, em Socorro (o bairro líder em grávidas mais velhas), fala que a maioria das futuras mães com mais de 35 anos está na terceira ou quarta gestação.´Por acreditarem ter experiência, rejeitam um pouco o pré-natal, nossa maior dificuldade nesta faixa etária´, diz. ´São mulheres que aumentam a idade do ciclo reprodutivo. A maior parte casou pela segunda vez, quase sempre com um homem mais novo, e, por isso, planeja um outro filho´, diz (Vera Lúcia interrompe a entrevista só para reforçar que o pai dos seus três filhos é o mesmo homem). A menina Eliana é acompanhada na UBS Alto do Riviera, em M´Boi Mirim (campeão de adolescentes grávidas). A ginecologista que atende a menor, Eliziete Gorski, confirma que a maioria das jovens não engravida de forma acidental. ´Elas fazem o pré-natal direitinho. Mas, como encaram a gravidez como ascensão social, resistem em evitar novas gestações.´ As duas futuras mães ouvidas pela reportagem aprenderam a lição. A garota prometeu usar camisinha ou pílula depois do bebê. Vera não falta a uma consulta do médico. Outras ´Elianas´ e ´Veras´ são os desafios do Mãe Paulistana, que dá direito ao pré-natal e enxoval do bebê. Para participar é só fazer inscrição na UBS. Como funciona o programa municipal - Passo a passo » Qualquer mulher que engravidar pode participar do Programa Mãe Paulistana. É só procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima da sua residência » Chegando ao local, fale com o médico responsável pela UBS - Cadastro » Na própria unidade, a mulher faz o cartão do Mãe Paulistana e já pode marcar todas as consultas do pré-natal » Segundo a Prefeitura, por mês, são realizados 10 mil atendimentos pelo programa - Enxoval e passe » Além das consultas, a gestante ganha vale-transporte para visitar o médico até o bebê completar um ano » O enxoval da criança também é oferecido