Atual matriz de produção pode levar a colapso

- O Estado de S.Paulo

Pensamento econômico voltado só para crescimento está consumindo mais do que o planeta oferece

A discussão de sustentabilidade ainda está muito focada no valor econômico. Muitas empresas agem nesse sentido apenas porque é bom para a imagem, porque atrai mais investimento, mas falta mudar a estratégia de fazer negócio, o modelo corrente de produção. Essa é a percepção dos especialistas ouvidos pelo Estado para as dificuldades que tornam o desenvolvimento sustentável um sonho ainda distante. "Ao querer somente um resultado melhor, muitos esquecem que é necessária uma mudança mental", comenta Roberta Simonetti, coordenadora do Programa de Sustentabilidade Empresarial do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas. Segundo ela, um erro comum dos mais diversos setores é encarar suas ações como coisas isoladas, sem adotar um "olhar sistêmico para todas as suas relações". "Não existe sustentabilidade empresarial ou dos negócios, o que existe é a contribuição para o desenvolvimento sustentável como um todo." O economista Hugo Penteado, do Banco Real, pondera que isso só será alcançado quando o pensamento econômico mudar. "Vivemos em um modelo que ignora os limites do planeta, em um mito de crescimento perpétuo, mas estamos caminhando para o colapso, como já ocorreu em outros episódios da história da humanidade", diz. Autor do livro Ecoeconomia, uma Nova Abordagem, ele compara o momento atual com o que resultou no desaparecimento dos habitantes da Ilha de Páscoa, no século 13. As teorias mais recentes falam que eles entraram em colapso após esgotarem seus recursos naturais. "Eles fizeram isso em uma ilha. Estamos fazendo globalmente." MAIS TRÊS TERRAS Levantamento da ONG WWF divulgado em junho mostrou que, se toda a humanidade adotasse padrão de consumo semelhante ao do cidadão médio americano, seriam necessários cinco planetas para atender a demanda por recursos naturais. A elite brasileira não fica muito atrás. Se o mundo consumisse como as nossas classes A e B, seriam necessários três planetas. Por outro lado, se todos adotassem o padrão da Somália (África), precisaríamos de 0,22 planeta. "O ser humano é vulnerável, ele depende do planeta. Não é a Terra que está ameaçada, são as pessoas. Temos de negociar com a Terra a nossa sobrevivência aqui", alerta Penteado. "A gente não cuida do outro, mas depende dele. Meu pulmão só se enche de oxigênio porque existe um ser vivo produzindo o gás." O economista explica que a grande dicotomia que tem de ser resolvida é a do nosso modelo de produção versus processos naturais. "O sistema econômico é linear: extrai, produz, consome e descarta. A natureza é circular. Nossa economia é degenerativa, a natureza é regenerativa. Acreditamos em um crescimento exponencial, infinito, mas o planeta é finito. Enquanto essas características não forem incorporadas, continuaremos caminhando para o precipício. A humanidade só será sustentável quando mimetizar a natureza." O quadro ao lado exemplifica o tamanho do problema. Ele foi elaborado com base no filme The Story of Stuff (A História das Coisas - www.storyofstuff.com), iniciativa da ambientalista americana Annie Leonard, que investiga há 20 anos sistemas de produção e despejo pelo mundo. Lançado no fim do ano passado, o filme já virou hit dos defensores da sustentabilidade por relatar os problemas de uma cadeia de produção linear, que extrapola os limites do planeta em todas as etapas. No cerne da questão está o consumo exagerado. E nesse patamar, até a reciclagem se torna pouco impactante. "Ela é uma tentativa de imitar a natureza, portanto, bem-vinda, mas também demanda mais energia. A primeira postura é reduzir o consumo. Reutilizar e só reciclar quando necessário."