Atrizes do perigo

- O Estado de S.Paulo

As dublês trocam de lugar com atores em momentos críticos das gravações

A cantada que elas mais escutam é a de pneu. Aventuras? Só quando o diretor de uma cena bate a claquete e grita "ação". Manchas roxas são inevitáveis, mas não são lembranças de uma noite de amor, mas, sim, das pancadas que levam em alguma cena de velocidade. Essas emoções movem as corajosas mulheres que trabalham como dublês.

 

Elas jogam-se de carro na ribanceira, rolam por extensas escadarias, voam de parapente, saltam de morro, protagonizam cenas de atropelamento e até de incêndio. "Existe técnica. Tem o ponto para cair sem se quebrar. Afinal, risco sempre vai ter, por isso, precisamos nos aperfeiçoar sempre", explica a experiente dublê Denise Só, da Só Ação Double.

 

Quem é noveleiro deve se lembrar da cena de Vale Tudo (1988), da TV Globo, em que Denise se jogou pela escadaria do Theatro Municipal no lugar da atriz Glória Pires. Na mesma emissora, ela também participou de Senhora do Destino (2004), aparecendo na cena em que Renata Sorrah se suicidou, jogando-se de uma ponte de 90 metros, no último capítulo da novela.

 

O problema maior é quando a cena foge do script. Denise ainda fica com a voz embargada quando se lembra de uma gravação em que substituiu a atriz Maitê Proença, que cairia de um penhasco. Ela não estava com nenhuma disposição de viajar naquele dia - a cena seria gravada em Búzios, e Denise mora no Rio. Mas, como precisavam de alguém experiente, a dublê não teve opção.

 

Então, quando estava deitada sobre uma pedra à beira-mar, uma onda gigante a arremessou para uma outra pedra. Ela foi caindo, caindo, até chegar ao mar. "Era para eu ter morrido. Fiquei mais de uma hora em alto mar esperando o resgate. A produção entrou em pânico. Não morri na pedra, mas poderia ter morrido afogada." O que a deixou chateada, também, foi o fato de ter tido seu trabalho divulgado em toda a imprensa, mas só por causa dessa tragédia.

 

Porém, o acidente não a fez desistir dessa paixão, que começou numa época em que não havia escola de dublês. Ela ainda era praticante de esportes radicais quando conheceu o diretor de cinema Giancarlo Bastianoni, com quem trabalhou, fazendo filmes e comerciais por cerca de quatro anos. "Sempre atuo nas cenas como se fosse a primeira vez, porque a autoconfiança atrapalha", enfatiza. E quando a cena vai ao ar, a dublê faz questão de conferir, só para procurar defeito. "Sou muito exigente e crítica", admite.

 

Denise conta que sabe atuar, lutar e tem um preparo físico de causar inveja. Aos 46 anos, orgulha-se dos 1,70 metro de altura, 52 quilos e apenas 10% de gordura corporal. Só assim é possível aguentar as pancadas e quedas. Se pudesse escolher, não faria as cenas que envolvem altura. Queda acha sem graça, porque cai e, puft!, acabou. Mas adora trabalhar com animais, mesmo que seja para cair do cavalo.

 

Lado B. Sandra Camillo, de 37 anos, teve a sorte (e competência) de fazer muitos trabalhos interessantes em sua fase dublê. Como não tem papas na língua, alerta para o lado negativo da profissão. Entre os quais está a falta de um seguro que dê cobertura para possíveis acidentes, de um órgão que defenda a classe, e a falta de reconhecimento por parte dos atores, para quem já emprestou sua experiência nos momentos mais críticos das cenas.

 

"Encerrei a carreira depois de uma filmagem em que quebrei duas costelas e ganhei uma pneumonia. Passei seis meses de cama, sem direito a indenização", brada. Apesar do trauma, reconhece as oportunidades que teve, graças à profissão. Foi dublê da atriz inglesa Gabrielle Anwar, do filme norte-americano Perfume de Mulher (1992). Diz que deixou a carreira porque sua intenção era trabalhar um tempo como dublê por pura curiosidade. "Fiz tudo o que poderia, mas depois parei para voltar a estudar", justifica.

 

Aprendiz. Embora sempre tenha gostado de aulas de dança, Gabriela Maria de Jesus Moreira, de 31 anos, foi convidada para fazer um curso de dublê, na escola Águias de Fogo, quando participou de uma gincana em um programa no SBT. Passado um ano, ela continua firme no curso, onde passa cerca de sete horas semanais, sendo três dedicadas ao condicionamento físico. "A disposição aumenta e o sacrifício compensa", diz.

 

A escadaria do metrô Anhangabaú, no centro de São Paulo, serviu de cenário para uma das aulas de rolamento de escada. Mas o que gosta mesmo é de participar de cenas de impacto entre carro e moto, já que é motociclista há mais de 10 anos. "É muito legal. Quem está de fora pensa que o dublê se arrebentou", diverte-se.

 

Hoje, ela sente-se segura para fazer cenas de atropelamento. Claro que o risco é grande, pois depende da sintonia entre o dublê e o motorista. "O dublê tem de pular no momento exato em que o motorista freia o carro. Do contrário, pode sair com as pernas quebradas", explica. E lembra que, quando entrou no curso, ficou cheia de marcas roxas no corpo, mas hoje não se machuca tanto porque já aprendeu os macetes. Seu sonho é se formar e conseguir uma ponta em um filme.

 

 

TIPOS DE CENA

 

Altura: de escalada em rocha a qualquer situação de alto risco, a cena é estudada para se planejar a estrutura de segurança com colchões, cabos e cordas. É reduzida, mas não eliminado, a chance de acidente grave.

 

Atravessar vidraças: aparentemente simples, essas cenas são complicadas, porque dificilmente poderão ser feitas duas vezes e o risco de se cortar é grande, mesmo com o vidro cenográfico.

 

Capotagem: o carro é preparado e equipado com estrutura de aço para proteger o piloto. O veículo entra na rampa com uma velocidade considerável e depois capota.

 

Perseguições: os carros passam por rampas, derrubam barracas e fazem manobras específicas de derrapagem, em um ângulo de 180 graus, além de passarem muito perto de pessoas (outros dublês).

 

Tiroteios: cenas simples, que dependem da expressão corporal e de algumas técnicas. Explosivos detonam os sacos de sangue e o festim pode projetar fragmentos.

 

 

SEM DUBLÊS

 

KEANU REEVES

Foi um dos muitos atores que se feriram em Matrix (1999). Enquanto Hugo Weaving torceu o pulso e Carrie-Anne Moss quebrou o tornozelo, ele sofreu luxação no pescoço.

 

NICOLE KIDMAN

A atriz caiu de um trapézio em uma das cenas de Moulin Rouge (2001). Fraturou duas costelas e torceu o tornozelo.

 

BRAD PITT

Ele interpretou o herói Aquiles no filme Troia (2004). Para conquistar o papel, precisou intensificar os treinos de musculação para ganhar o físico necessário. Mesmo assim, foi preciso contratar um dublê de coxas para o galã. Além disso, machucou justamente o tendão de Aquiles durante as gravações de uma cena de ação.