As muitas Maitês

- O Estado de S.Paulo

Maitê Proença visita o Haiti, divulga trabalho de ONG, grava nova novela e anda feliz com o sucesso da peça As Meninas

Fortes emoções pedem tempo para serem digeridas. A atriz e escritora Maitê Proença sabe disso. Durante uma semana, de 5 a 12 de março, acompanhou os Expedicionários da Saúde (EDS), no trabalho de ajuda ao povo do Haiti, que sofre as consequências de uma das piores tragédias naturais da história da humanidade: o terremoto que atingiu o país, em janeiro deste ano, deixando mais de 200 mil mortos. "Os Expedicionários são um grupo de médicos voluntários, que tratam pessoas de comunidades remotas do Brasil, sobretudo fazendo cirurgias. Eles decidiram levar sua expertise para o Haiti e estão lá salvando muitas vidas."

 

Maitê, que apoia a ONG desde a sua criação, em 2003, não viajou sozinha. A tiracolo, levou sua filha Maria, de 19 anos, e o cinegrafista Otávio Cury. "Minha filha pediu para ir, se ofereceu para trabalhar, fazendo o que fosse necessário. Resolvemos que seria a fotógrafa, elaborando uma espécie de making of. Viu o que não teria visto no seu dia a dia confortável e protegido. Mas não conseguiu muitas fotos, por conta da perplexidade e espanto diante do que presenciou", revela.

 

Maitê conheceu de perto histórias particulares, de pessoas com nomes e memória, e não a generalidade, a massificação de seres, como ocorre quando se narra as grandes tragédias. "Conheci uma garota que, de toda a família, somente ela e o pai sobreviveram. E ele, após cinco dias da destruição, resolveu pôr fogo na casa, por causa do cheiro dos mortos. Foi quando ouviu o choro da filha, que estava viva sob escombros. Conseguiu salvá-la, com parte do corpo queimada."

 

Ajuda vital. Maitê e seus acompanhantes ficaram no alojamento do Exército Brasileiro quando visitaram a capital Porto Príncipe, e no hospital dos Expedicionários da Saúde quando se estabeleceram em Les Cayes, a 200 quilômetros da capital. Os médicos fazem cerca de vinte cirurgias diárias, amputando membros, colocando próteses e salvando vidas.

 

Maitê visitou acampamentos e hospitais, acompanhou a "rotina" dos haitianos que estão vivendo nas ruas e dos que estão em melhor situação, morando em tendas, mas sem comida, água, eletricidade, e com esgoto a céu aberto. "Vi pessoas comendo biscoitos feitos com lama de rua - repleta de fezes e urina -, sal e açúcar", conta. Sentiu o cheiro "nauseabundo de morte, de centenas de milhares de cadáveres apodrecendo sob os escombros, por toda Porto Príncipe."

 

Maravilhou-se com o trabalho do Exército Brasileiro, presente no Haiti desde 2004. "Eu não sei como vai ser feita a reconstrução do país. Não sobrou cabeça pensante. O terremoto atingiu os três poderes, a cúpula da igreja, as quatro faculdades de Medicina, matando professores e alunos. Além disso, 500 soldados morreram."

 

 

Ela e a filha Maria conheceram as crianças do orfanato Consolation Center, em Les Cayes, cidade a 200 km da capital Porto Príncipe

As experiências registradas em seis horas de filmagem, provavelmente, serão transformadas em documentário, projeto ainda embrionário. "Pretendia mostrar no Saia Justa (programa do qual participa, no GNT), mas não houve tempo para o material ser editado ou talvez não tenha sido considerado relevante para o programa."

 

Diz que gostaria de contar histórias como a da Instituição Rest-Avecs, que recebe crianças enviadas pelos próprios pais para trabalho escravo. E também expor a sina de 80% das mulheres, que apanham diariamente dos maridos, repassando, muitas vezes, esse tratamento para os filhos. "Penso ainda em mostrar a história de um canadense, abusado na infância, que se tornou marginal e foi preso. Mas depois resolveu ser um homem bom e hoje sustenta 900 crianças órfãs, as quais salvou de suas histórias tristes, fornecendo-lhes comida, roupa, cama limpa e afeto."

 

Junto com seu cinegrafista, fez um copião das gravações, com edição ainda tosca, mas que vai guiá-los no destino que será dado a esse material.

 

De volta ao Brasil. Quando desembarcaram no País, o cinegrafista Otávio teve febre de 40 graus por diversos dias. "Era estafa. E a Maria sentiu forte dor de garganta e seu corpo todo doía", conta Maitê, que não teve tempo de descansar.

 

Vem divulgando o trabalho dos EDS em programas de TV e rádio, além de jornais e revistas. Convida todos a visitarem seu site (www.maite.com.br), para obterem informações de como ajudar a EDS e o povo do Haiti. Assim, vai contribuindo para manter viva a atenção àquele país.

 

Em meio a essa experiência indescritível, encontra forças para divulgar a peça As Meninas, em cartaz em São Paulo, após temporada de sucesso no Rio. E participa das gravações do Saia Justa, que vai ao ar toda semana no GNT. Ainda reserva um tempo para gravar a nova novela da Rede Globo, Passione, de Silvio de Abreu, na qual fará o papel da infiel Stela. A propósito, para visitar o Haiti, teve de pedir afastamento das gravações por uma semana.

 

Com tantos afazeres e a ponte aérea Rio-São Paulo na rotina, tem muitos planos para o futuro, o que inclui um monólogo em gestação, a reforma na sua casa, no Rio, e uma viagem ao país asiático Butão, "onde a felicidade dos cidadãos é questão de Estado."

 

E, vale lembrar, Maitê continua linda. Sua receita: "Sempre me alimentei muito bem. Nunca usei hormônios, nem mesmo pílula. Tomo pouco remédio. Durmo bastante. Como na medida da fome. Bebo muita água e chá ao longo do dia. E álcool para relaxar. Faço exercícios quase todos os dias, e mantenho o contato com a natureza."