Artistas e arteiros

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Modelos idosos dão um show de profissionalismo e disposição nos sets de filmagem dos comerciais de TV

Nem só de mulheres seminuas vivem os comerciais de TV. Com idades entre 60 e 80 anos, atores grisalhos dão um show de interpretação e cativam o telespectador, seja por um bordão certeiro ou pelas caras e bocas. Com diferentes histórias de vida, se divertem trabalhando. Misteriosos, não revelam quanto ganham de cachê, mas garantem que o dinheiro extra é muito bem-vindo para complementar a aposentadoria. Mimados pelos diretores, recebem tratamento VIP e viajam pelo Brasil afora interpretando personagens inesquecíveis. Dona Elvira, uma senhora delicada, usando óculos e casaquinho de tricô, entra na padaria para comprar presunto Sadia. O vendedor lhe oferece outra marca, a velhinha pergunta o nome dele e, brava, fala o bordão que virou mania: "nem a pau, Juvenal !" Yolanda Jacintho, 77 anos, também está na campanha das Havaianas, onde contracena com os atores Gilberto Marmosch e Juliana Paes (criação da agência AlmapBBDO, com produção da Cine ). Pois a vovó em questão não para em casa e tem uma agenda apertada. Segundo o marido, seu Avelino, o estrelato aconteceu por acaso. "Ela acompanhou uma amiga que levou o filho para um teste, e acabou sendo escolhida." E lá se vão 26 anos de set... Para Yolanda, o trabalho é uma distração. "Viajo pelo Brasil inteiro para fazer comerciais." O primeiro, recorda-se, foi para promover um eletrodoméstico da Walita. Diz que se sente à vontade com a câmera e que decora os textos com facilidade. A melhor recompensa, segundo ela, é o reconhecimento pelo trabalho. "Outro dia estava numa padaria quando ouvi uma mocinha pedir o presunto para o vendedor, imitando, igualzinha, a minha fala no comercial. Achei muito engraçado, porque ela falou de forma espontânea." Para Fernando Rodrigues, diretor de criação da DPZ, agência que assina o comercial da Sadia, muitas vezes a propaganda cai nos estereótipos, mostrando os idosos como babacas ou como pessoas sábias e ponderadas. "Por que não brincar com o lado moleque que toda pessoa tem, independentemente da idade? A graça desse comercial, que caiu no gosto do público, está na reação inesperada e divertida da velhinha, que usa uma gíria antiga para repreender o vendedor." Ela chuta o balde Para divulgar o limpador para piso com brilho Optimum, produto que já vem pronto para uso, a agência Giovanni+Draftfcb uniu o conceito de praticidade com um toque de humor, explorando a cena em que uma senhora acima de qualquer suspeita chuta o balde para longe, libertando as donas de casa da limpeza pesada. Mas, chutar balde, só mesmo na telinha. Gentil e boa de papo, Hermelinda Andrade Ennes, de 87 anos, ficou um tempo fora do ar por conta do contrato de exclusividade que tinha com o fabricante do produto. "Agora estou voltando à ativa", fala, empolgada com a filmagem de um novo comercial para a Oi. Timidez, nervosismo, tremedeira? Nada disso, afinal ela é atriz, o que dá uma certa vantagem na hora de compor o personagem. "Em 1978 trabalhei com Ruth Escobar e com o diretor Ademar Guerra, na Revista do Henfil. A peça, com adaptações das historietas criadas por Henfil, fez muito sucesso por todo o Brasil." Filho traste Na vida real, os filhos estão saindo da casa dos pais cada vez mais tarde. De carona no comportamento dessa geração, o comercial "Filho", criado pela Eugenio Marketing Imobiliário para a Tecnisa, mostra cenas do dia-a-dia de dona Maria Helena e do seu filho roqueiro Alfredo, ora largadão no sofá, ora dando aulas de guitarra para crianças, sem arredar o pé de casa. A mãe então escolhe um apartamento pelo computador, pega as malas e entrega a chave do apê antigo para o filhão. "Ao invés de apelar para a idéia batida do apartamento decorado, mostramos uma senhora superdescolada, afinada com o grupo importante de compradores da terceira idade, que consome e leva uma vida ativa", comenta Carlos Valladão, diretor de criação da agência. Quem faz a personagem - que, no filme, aparenta ter bem mais idade - é Lilian Blanc, de 58 anos. "Na verdade comecei a realizar meu sonho de ser atriz aos 40. Matriculei-me no teatro escola Célia Helena, ao ler numa revista que Lélia Abramo havia começado a carreira aos 40. Naquele mesmo dia, o penúltimo do mês de julho de 1990, liguei pra lá e fiz minha inscrição, sem falar nada pra ninguém. Fui aprovada. Aí contei. Foi a primeira vez que meu marido ficou uma semana sem falar comigo, com mais de 17 anos de casados. No final do primeiro semestre, ele já era meu maior fã!" Lilian trabalhou por dez anos com o Grupo Tapa e agora integra o Núcleo ACP - Arte Ciência no Palco. Alegria de viver No celular, do outro lado da linha, o garoto-propaganda Youry Branoff, idade não revelada, pede para voltar a ligar daqui a quinze minutos. Ele, como os outros entrevistados, não para em casa. "Trabalho como voluntário numa biblioteca, entre outras atividades", conta. Apaixonado por música sacra, até já interpretou o papel de padre. "Mas não tive muita sorte. Esqueci de levantar a batina e quase caí de um degrau", brinca. Engenheiro, conta que começou na área artística há 15 anos, num concurso de modelos da terceira idade. "Os comerciais, para mim, representam a alegria de viver." O trabalho mais recente foi o filme do HSBC, onde estão também Joana e Élcio. "Sou aquele velhinho da janela, que apronta, estourando bexigas cheias de água, travessura que lembra a minha infância." Segundo o ator, nesse métier, é preciso ter paciência, bom humor e boa vontade.