Arcebispo diz que pedofilia deve ter tolerância zero

Angela Lacerda, RECIFE - O Estado de S.Paulo

O novo arcebispo de Olinda e Recife, dom Antonio Fernando Saburido, de 62 anos, disse ontem, em sua primeira entrevista após assumir a nova posição,que a Igreja deve ter "tolerância zero" com a pedofilia, que deixa "chagas profundíssimas" nas crianças e não pode ser aceita. Dom Fernando condenou também o que chamou de "teologia da retribuição", adotada por igrejas que partem da premissa de que "se você dá, Deus devolve". E destacou que a religião deve pregar a prosperidade espiritual, e não a econômica. "Deus é desprendido, é amor, Ele faz as coisas gratuitamente", destacou o arcebispo, ao falar pela manhã no Mosteiro de São Bento, em Olinda. Em seguida, à tarde, foi realizada a cerimônia oficial, em que dom Antonio assumiu a Arquidiocese em substituição ao conservador dom José Cardoso Sobrinho, na Igreja da Madre de Deus, no Recife. No cortejo entre a igreja e a Praça do Marco Zero, faixas dos fiéis agradeciam a chegada do novo arcebispo e comemoravam a saída de dom José Cardoso Sobrinho, que anunciou a excomunhão de médicos que fizeram o aborto de uma menina de 9 anos, grávida de gêmeos após ser vítima de abuso do padrasto. Havia ainda um boneco de dom Hélder Câmara, que já foi arcebispo de Recife e Olinda. A Praça do Marco Zero estava lotada para receber a primeira missa realizada por dom Antonio Fernando. Ordenado pelo progressista dom Hélder Câmara, que foi sucedido por dom José Cardoso - responsável pelo desmonte da estrutura instalada por seu antecessor - dom Antonio Fernando disse que vai imprimir o seu estilo próprio na Arquidiocese, aproveitando as experiências positivas dos dois religiosos. Em um claro discurso de conciliação, em que pretende unir a Arquidiocese de Olinda e de Recife - que engloba nove dioceses, com 101 paróquias distribuídas em 19 municípios -, o arcebispo deixou claro que nenhum segmento da Igreja Católica ou da sociedade será excluído do trabalho a ser realizado e que visará principalmente os mais pobres. "Precisamos somar forças, todos temos o mesmo objetivo, o de ter uma igreja comprometida com o povo, especialmente os mais carentes e assim darmos passos significativos na evangelização." E completou: "A opção pelos pobres não pode ser uma teoria, tem que ser uma realidade, a Igreja tem que dar oportunidade a todos."