Aprendizado constante

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Homens aprendem muito, e até modificam o jeito de ser, quando tornam-se pais. É o que garantem eles próprios

A filósofa e educadora Tania Zagury não se esquece do momento em que seu marido segurou o filho minutos após seu nascimento: o "recém-empossado" pai chorou e riu o tempo inteiro. "Hoje, essa criança tem 27 anos, mas a cena foi tão linda que sempre vai permanecer na minha memória."

 

O pai do século 21 está livre para expressar afetividade. "O homem não podia chorar, nem mostrar seus sentimentos, mas, nesses novos tempos, não é preciso mais negá-los. Por mais que ainda exista uma certa resistência masculina, eles deixam suas emoções aflorarem com a chegada de um filho", assinala a filósofa e educadora. Para Tania, autora de diversos livros – entre os quais, Limites sem Trauma (Editora Record), que já está na 80ª edição –, a emotividade é o primeiro grande aprendizado de um homem quando torna-se pai.

 

O pediatra Leonardo Posternak, fundador do Instituto da Família, em São Paulo, confirma essa transformação cultural da figura paterna, que passou por mudanças históricas. "Tornar-se pai significava basicamente assumir a função de provedor", diz. "Essa imagem até existe ainda, mas houve uma evolução. Muitos dos cuidados que eram considerados uma obrigação feminina estão sendo assumidos também pelos homens."

 

Se era raro ver um pai passeando só com seu filho no carrinho, hoje essa cena está cada vez mais comum. Assim como vê-los trocar fraldas, dar mamadeira e por aí vai. Outro sinal dos tempos é a frequência deles nos atuais cursos de maternidade. Muitos maridos participam das aulas, para aprender também a cuidar do rebento, e acompanham com interesse as fases da gestação da esposa.

 

Posternak lembra que o homem só se torna pai de fato no dia em que seu filho nasce, o que é diferente da relação simbiótica da mulher com sua cria, que surge já na gestação. Ainda, por mais participativo que seja o homem , a função paterna só é fortalecida a partir do convívio com a criança, quando é formado o triângulo familiar, constituído por mãe, pai e filho.

 

E aí voltamos às emoções, verdadeiro vínculo dessa cadeia. "Aqueles que resgatam sua amorosidade vão se sentir muito mais felizes", avisa o pediatra, autor do premiado livro O Direito à Verdade, Carta para uma Criança (Editora Globo). "Por isso digo que o nascimento de um filho é o verdadeiro estímulo para aprender."

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"A paternidade tem fases distintas. Por estarem mais independentes, as minhas sensações hoje são diferentes. Quando eram menores, eu que os levava para os lugares. Hoje, eles dirigem seus próprios carros e me levam. Estou no início daquela fase em que deixamos de conduzir os filhos, para então eles assumirem essa postura. É o começo da inversão de papéis, um aprendizado para o pai. Quando o Nicolas fez 11 anos, ensinei para ele como deveria ir sozinho de ônibus para a escola. Para me certificar de que ele desceria no ponto certo, fui de moto atrás do ônibus. Hoje não preciso fazer mais isso. O Max está na França, mas fico tranquilo, pois sei que ele sabe se virar. O mesmo aconteceu com a Nina e o Nicholas, quando viajaram sozinhos pela Europa."

 

Steven Beggs, 48 anos, dono de escola de idiomas, pai de Nicholas, 20, Max, 22 (que está na Europa e aparece no computador), e Nina, 25

 

 

"Quando me casei, a Louise tinha 6 anos e tornou-se minha filha postiça. Com ela, aprimorei minha paciência e meu lado criança. Aí veio meu filho. Agora, vivi o processo completo: acompanhar o parto, trocar fraldas, etc. Com filhos, mudamos a percepção de mundo. Deixei de ser imediatista e passei a pensar mais no futuro. E meu filho fez com que meu ouvido ficasse mais potente para escutar qualquer barulhinho dele, onde quer que esteja."

 

Gelson Armando, 35 anos, gráfico, pai de Gelson Duarte, de 3 meses, e de Louise, de 11, sua enteada

 

 

 

"Quando meu filho nasceu, tinha 18 anos e demorou quase um ano para ‘cair a ficha’, pois ele morava com a mãe, e eu, com meus pais. A mudança radical de atitude aconteceu quando foi morar comigo definitivamente. Ele me ajudou muito a entender o que é amor de pai e, hoje, qualquer programação que faça, ele precisa estar junto. Aprendi a ser mais responsável. Faço tudo para ele: me descobri um pai carinhoso e muito presente. Também me dedico mais ao trabalho para proporcionar o melhor para o meu filho."

 

Bruno Guerrero, 24 anos, publicitário, pai de Bruno, 5

 

 

 

"Uma das mudanças mais fortes é passar a pensar primeiro nos filhos e só depois em você, sempre. Quando nasceram, era diretor de Finanças e de Recursos Humanos numa grande empresa de moda. Por causa da convivência com a Sofia e a Pietra, mudei minha visão corporativa. Comecei a entender os problemas dos funcionários, afinal, como eu, eles também tinham uma família. Investi em programas sociais na empresa, para pais e filhos."

 

André Duek, 36 anos, administrador de empresas, pai de Sofia, 1, e Pietra, 6

 

 

 

"Durante oito anos, eu e minha esposa tentamos ter um filho. Até que sugeri adotarmos uma criança. Quando conheci Marina em um abrigo, ela tinha pouco mais de 2 anos e foi amor à primeira vista. Foi um presente de Deus. Ela me tornou um ser humano melhor, tanto que amadureci de modo geral. De tanto aprender a escutar minha filha, passei a ouvir mais as pessoas com quem trabalho, e minhas decisões pessoais e profissionais são mais equilibradas hoje."

 

Carlos Pimenta, 42 anos, diretor de marketing, pai de Marina, de 7

 

 

 

"Nunca imaginei que pudesse ter jeito para dar mamadeira, trocar fralda, dar banho, preparar a papinha... Tinha ciúmes quando minha esposa pedia para ela trocar fralda e dar mamadeira. Essa transformação foi muito forte, pois, de uma hora para outra, me vi assim, um paizão. Outra mudança foi o golfe. Eles que me ensinaram a gostar desse esporte. O Guilherme me pediu de presente um taco de brinquedo. Como pegaram gosto, acabei me inscrevendo também na aula."

 

Jairo Grinberg, 33 anos, empresário, pai de Guilherme, de 6, e Lauren, de 9