Aluno tem de ser preparado para a vida

Lígia Formenti - O Estado de S.Paulo

Nélio Vincenzo Bizzo: professor titular da USP; docente da Faculdade [br]de Educação da USP diz que nenhum tipo de exame deveria [br]influenciar o ensino

Nélio Vincenzo Bizzo, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), entende que as escolas "devem preparar os alunos para a vida, e não para exames". Para ele, o Enem está se adaptando à realidade da educação no País. A seguir, a entrevista. As escolas devem mudar as grades e se adaptar ao novo Enem? Não creio nisso. Ao contrário, o Enem está mudando para se adaptar à realidade educacional. A educação básica deve formar o cidadão e o exame, dar a ele oportunidade de mostrar o que aprendeu. A grande inovação, que muitos vestibulares, como o da Fuvest, já faziam, foi a de assumir que não seriam exigidos conteúdos meramente memorizados. Os resultados do Enem por escola são usados por alguns pais para pressionar a direção do colégio. Qual a opinião do sr. sobre isso? Acho muito bom, mas os pais não podem perder de vista que o ranking tem componentes artificiais, que podem colocar escolas à frente do que deveriam estar ou o contrário. Quais são as consequências, para o ensino, de a escola preparar o aluno para o Enem? As escolas devem preparar os alunos para a vida, e não para exames. Deve haver debate público sobre as normas dos sistemas de ensino, que todos precisam conhecer. Uma lei federal diz que as instituições de ensino superior têm de observar, em seus procedimentos de seleção, o que se pratica na educação básica. Estamos no momento para praticar isso. Os exames, em geral, devem influenciar o ensino nas escolas? Não. Deveria ser o contrário. Isso, aliás, é determinado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas as diretrizes curriculares nacionais levaram alguns a pensar que os conteúdos disciplinares não seriam mais necessários. A preocupação dos alunos com os vestibulares, estimulada pelos professores, pode acabar desviando o foco do aprendizado? O professor que diz que certo conteúdo é importante porque cai no vestibular demonstra não entender o real significado do conhecimento. Mas sempre existirá algum "ritual de passagem" na adolescência. Na Itália, o exame chamava-se "de maturidade" (hoje chama-se "exame de estado") e ocorre há mais de cem anos.