''A USP está à beira do colapso''

Renata Cafardo - O Estado de S.Paulo

Entrevista - Wanderley Messias: coordenador da Comunicação Social e candidato a reitor da USP; para ele, incapacidade em lidar com conflitos causa problemas à instituição, que também não tem uma administração eficiente

O geógrafo Wanderley Messias acredita que a Universidade de São Paulo (USP) esteja à beira de um colapso por causa da incapacidade de lidar com conflitos internos. "Toda grande organização com 20 mil empregados tem um departamento de recursos humanos organizado e sofisticado. Não só para lidar com carreira, benefícios, mas para lidar com sindicato. Uma universidade que tem campanha salarial todo ano deveria estar preparada para atuar preventivamente numa negociação", diz o candidato a reitor. Para ele, há um "clima de insegurança" na instituição por causa das sucessivas greves, que culminaram com invasões e presença policial no câmpus. "As pessoas sabem que daqui a pouco chega maio e volta tudo de novo. É função do novo reitor pacificar a USP." Messias acredita que isso mostra um grande anacronismo da universidade. "Há um deslocamento entre a excelência acadêmica e a qualidade da gestão administrativa e da política interna. Não conseguimos transpor para a gestão essa excelência." O professor, de 58 anos, foi prefeito do câmpus e coordenou a implantação da unidade da USP na zona leste. Mas é mais conhecido como um dos grandes articuladores políticos da universidade. Ajudou a eleger sucessivos reitores nos últimos anos, inclusive a atual, Suely Vilela, com quem acabou se desentendendo. Foi seu chefe de gabinete durante os nove primeiros meses do mandato. Depois, "por diferenças de estilo", acabou sendo deslocado para a Coordenadoria de Comunicação Social, um cargo de pouca influência. De sua sala do prédio mais alto da Cidade Universitária, com vista privilegiada, ele concedeu a seguinte entrevista. No seu programa como candidato o senhor diz que a USP é macrocéfala. O que quer dizer com isso? Eu quero dizer que na USP há um deslocamento entre a excelência acadêmica e a qualidade da gestão administrativa e da política interna. Isso apesar de ser uma universidade de padrão internacional e ter obtido muitas vitórias nas últimas décadas. Há uma diferença de nível. Nós não conseguimos transpor para a gestão essa excelência porque não investimos nisso. Somos uma autarquia clássica, convencional, com estrutura administrativa e métodos convencionais. É um anacronismo. E digo que a USP é macrocéfala porque é como se tivesse uma cabeça grande demais. Uma das deformações dessa má qualidade da gestão está expressa no fato de que a reitoria é muito grande em número de pessoas, em quantidade de órgãos e no custo que representa, de 20% do orçamento da USP. O que fazer para mudar isso? A questão não é só descentralizar, é desconcentrar. Porque você descentraliza, mas não manda pessoas para os outros lugares e sim contrata mais gente para fazer aquilo que fazia aqui. Precisa requalificar e redistribuir essas pessoas. Informatizamos a área de finanças e de pessoal, mas a quantidade de funcionários públicos em torno desses departamentos continua a mesma. Só houve modernização em algumas tramitações, mas o modo de gerir ainda é antigo. Isso tem um efeito nefasto para a USP. Esse anacronismo se expressa também nos conflitos como os que ocorreram na última greve? Sim, é parte do anacronismo. Considero que a universidade está próxima de um quadro de colapso. A área mais crítica é a de recursos humanos. Apesar de termos uma enorme capacidade de produzir cursos sobre gestão para fora, temos a dificuldade de fazer o mesmo dentro da universidade. Principalmente na prevenção e solução de conflitos. Toda grande organização com 20 mil empregados tem um departamento de recursos humanos organizado e sofisticado. Não só para lidar com carreira, benefícios, mas para lidar com sindicato. Uma universidade que tem campanha salarial todo ano deveria estar preparada para atuar preventivamente numa negociação. Não pode ser às vésperas da campanha salarial. Tem de ser o tempo todo, com gente especializada. Não temos isso. Aí vem o dilema: usa ou não usa a força policial. Mas até para chamar a polícia é preciso competência. Não é para entregar a Cidade Universitária ao comandante da PM. O senhor se considera um candidato de oposição? Não, sou um candidato independente. Sempre participei das campanhas apoiando alguém, desde Goldenberg (José Goldenberg, ex-reitor). Mas agora sou professor titular, tenho uma trajetória, conheço muito a universidade. Achei que me candidatando ganharia uma tribuna para expor minhas ideias. O senhor foi chefe de gabinete da reitora e depois brigaram. Não brigamos, temos diferenças. Nos conhecemos na campanha, éramos colegas da gestão Melfi (Adolpho José Melfi, ex-reitor). Depois que tomou posse, ela me convidou para a chefia de gabinete, mas logo na primeira semana percebemos que tínhamos diferenças de estilo e de concepção. Entendo que o papel de um chefe de gabinete é o de fazer articulação política, de ouvir, de conversar com diferentes atores, de dialogar com os professores. Fui chefe de gabinete no MEC e tratei com prefeitos, deputados. Achei que pudesse usar esse estilo aqui. Mas o estilo dela é diferente, é mais meticulosa, voltada para a administração dos detalhes. E tem uma certa dificuldade de lidar com a complexidade da política universitária, discutir com sindicatos, movimento estudantil, tratar de crise. Não tem jogo de cintura. Eu tenho. O senhor fez campanha para ela. Acreditava que a gestão dela seria diferente? Eu acho que a gestão dela tem qualidades, como o Inclusp. Ela é uma pessoa corajosa, determinada. Também, raras vezes na história da universidade se fez a reposição quase automática dos aposentados. Mas eu acho que a gestão dela deixou a desejar justamente nessa incapacidade para prevenir e solucionar conflitos e crises. Há um ambiente de baixa autoestima, apesar de todas as conquistas. Uma certa irritabilidade diante do domínio do que eu chamo de jurídico burocracia na USP. E há um clima de insegurança na universidade, porque as pessoas sabem que daqui a pouco chega maio e volta tudo de novo. É função do novo reitor pacificar a USP. Como resolver isso? A questão é que eu acho que a reitora sucumbiu. Ela foi dominada por essa estrutura jurídico burocrática que hoje domina a reitoria e não soube se aconselhar com quem conhece profundamente essa questão. Talvez ela tenha se aconselhado com as pessoas erradas no momentos de crise. Com quem? A USP está cheia de pessoas que pensam os conflitos por um viés jurídico burocrático. Dizem: "vamos aplicar a lei para estabelecer a ordem". Que lei? Que ordem? É um discurso tradicional que não se ajusta à universidade, que é esse caleidoscópio de culturas. O senhor diz no seu programa que tem de haver um avanço sem hesitação na educação a distância. Essa experiência tem décadas em alguns países e até na USP, com programas de formação de professores. Em nome de manter essa questão burocrática, deixou-se de fazer uma parceria importante, não com esse governo, mas com a sociedade (o convênio com a Univesp para curso de graduação a distância não foi assinado). A USP não poderia ter perdido essa oportunidade. Lamento muito. Fica sempre a impressão que a USP tem má vontade em participar de políticas públicas para o desenvolvimento paulista. Como o senhor avalia a USP Leste, já que participou da implantação? A USP Leste é um exemplo típico desse tipo de interação. O governo do Estado na época fez um desafio para as universidades, estava disposto a dar recurso extra para expansão. A sociedade civil na zona leste abraçou o projeto. A USP aprendeu muito com aquela experiência. Quando há oportunidade, a sociedade adora a USP, venera a USP. O que a sociedade não gosta de ver é a universidade em página policial, com cena de violência. A USP deveria aderir ao Enade e ao Enem? Aceitar o Enem como substituto do nosso vestibular, eu sou contra. Ainda é uma experiência, nem todas as federais aceitaram. Como a USP é pioneira em fazer o vestibular bem feito, tem de agir com prudência. Já o Enade foi criado para avaliar os cursos de instituições que se expandiram. Mas acho que falhou, não fechou cursos ruins. Não acho que é um mecanismo eficiente para avaliar a graduação da USP. Eu mobilizaria a universidade para desenvolver um sistema próprio de avaliação. Os alunos se queixam muito dos cursos, do currículo, da qualidade, do tipo de aula, que é entediante, das salas de aula lotadas. Os professores têm de falar berrando porque não têm microfone. Temos de introduzir tecnologia, mudar a metodologia e avaliar a qualidade do aluno que estamos formando. O senhor mudaria as regras das eleições para reitor? Eu tenderia a seguir um pouco o que fala a Lei de Diretrizes e Bases e o que fazem a Unesp e a Unicamp. Todos votam com pesos diferentes: 70% para corpo docente, 15% para alunos e 15% para funcionários. Já é mais democrático. O Conselho Universitário também tem de aumentar as representações de alunos e funcionários. Não tem, por exemplo, representante de funcionários nos conselhos de departamentos.