''A quantidade dá; tem remédio contra a gripe para todo mundo''

Fabiane Leite e Luciana Constantino - O Estado de S.Paulo

Um dos responsáveis pela decisão de adiar a volta às aulas da rede pública de São Paulo para o próximo dia 17, o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, diz que só alertar os pais para não enviar filhos gripados à escola, como recomendava o governo federal, não seria suficiente para conter surtos da gripe suína. No cargo há seis anos, ele defende a medida, que foi seguida por outros cinco Estados e vários municípios, dizendo que a restrição pode reduzir em pelo menos 15% a transmissão do vírus A(H1N1). Isso porque uma criança pode transmitir o vírus por até cinco dias a mais do que um adulto. Em entrevista ao Estado na última quinta-feira, o sanitarista diz que não faltará medicamento nem leitos para internação dos pacientes, caso seja necessário. Também anunciou que, após a epidemia, o Instituto Adolfo Lutz vai investigar amostras dos casos graves para verificar possíveis mutações do vírus. Em uma epidemia, quais dificuldade do Sistema Único de Saúde ficam mais relevantes? Acho que a epidemia para o sistema é como o paciente que não tem uma saúde muito boa e de repente pega uma gripe muito forte. Aquele que é cardíaco, pneumopata, tem até de ser internado. O jovem tira de letra. O sistema de saúde é igual. E o que essa gripe revelou? Gripe é como a guerra. Nós temos de mudar a estratégia das tropas porque o vírus está a todo momento mudando estratégias de ação. A gripe chegou no fim de abril, demorou 30 dias, estava na Argentina e no Chile. Mas demorou 80 dias para chegar ao Brasil. Seguramos por 80 dias a gripe. Foram as ações adotadas ou as barreiras naturais que seguraram? Nós seguramos. Se fossem as barreiras naturais, a Argentina também teria segurado por 80 dias. Essas medidas que o Brasil tomou, e tomou porque tem um sistema de vigilância bom, impediram que a gripe entrasse rápido. Mas um dia iria entrar. E esse dia chegou, no fim de julho, quando identificamos os primeiros casos e óbitos. Aí tomamos outra medida polêmica, suspender as aulas.Há trabalhos científicos sobre efeitos da suspensão de aulas em diversos países desde 1918. Eles mostram que a eficácia chega 40% com outras medidas. Em alguns locais ocorreu isso. E só com restrição de escolas? Há 15% de redução da transmissão. Nós não temos muitos casos de gripe entre jovens, em creches, óbitos de crianças. E o que iria acontecer? As crianças iriam voltar às aulas e teríamos aumento de casos de crianças gripadas e mortes. Então qual foi a medida que tomei? Vamos estender mais 15 dias (as férias). Claro, vai ser um transtorno. Mas um transtorno maior é ter muita criança gripada e morrendo. Só recomendar que criança gripada não vá à escola é insuficiente? É insuficiente porque a criança, antes de estar com os sintomas, transmite o vírus. Enquanto o adulto transmite por 7 a 10 dias, a criança o faz por 10 a 15 dias. Trabalhos japoneses mostram que, na gripe comum, a criança é o principal veículo de disseminação da doença na comunidade. Por quê? Os adultos japoneses, por sua etiqueta, não cumprimentam dando as mãos. Mas as crianças, assim como as brasileiras, lutam, se abraçam. Então quando a criança vai à escola é mais fácil a transmissão. Hoje me perguntaram porque não proíbo ir ao shopping. A criança não abraça a outra no shopping, porque não conhece o outro que está lá. Mas na escola não é assim. E os trabalhos mostram que quando ela volta para casa e o avo e avó a abraçam, ela leva a gripe para lá. É por isso que estamos fazendo o projeto de vacinar 3 mil escolares contra a gripe comum. O Brasil não vacina. Estamos fazendo o estudo e vamos comparar se há aumento ou não de gripe na família. Se comprovarmos que a criança pode transmitir mais, vamos propor ao ministério vacinar os escolares também para proteger idosos e adultos jovens. Qual será o critério para manter ou suspender as aulas após o dia 17? Não temos isso. Só teremos depois. Estamos tomando a medida porque ajuda. Resolve? Não resolve. Por que parar tudo como foi no México?Primeiro porque é impossível parar um Estado como São Paulo e isso não faz sentido. Como vocês vão decidir o que fazer após o dia 17? Tomamos a medida em um momento em que acreditávamos que em duas semanas estaríamos em situação declinante da gripe. Uma epidemia de gripe dura em média oito semanas. Como tinha começado no fim de junho, imaginamos que iríamos estar na declinante após as duas primeiras semanas de agosto. Vamos estar mesmo? Só vai dar para saber depois da partida jogada. Aprendemos algo na epidemia? Ela não é exatamente igual à gripe comum. Tem os mesmos sintomas, mas não dá na mesma faixa etária. Quase não há óbitos entre idosos. Isso não é comum em gripe. Será que a imunidade não é em razão da gripe de 1957, que foi o mesmo vírus, não a mesma cepa? Será que pessoas que tiveram esta gripe não trazem na memória do sistema imunológico uma proteção? A gripe suína tem algumas coisas que a gente não sabe. Por exemplo, por que dá de forma tão intensa nas grávidas? Não é habitual na gripe. Existem várias hipóteses. Uma é a de que o vírus H1N1 comprometeria o pulmão em uma intensidade maior e, como a grávida tem o diafragma elevado pelo crescimento do útero, parece que o problema está no fato de que ela tem menos pulmão para respirar, como os obesos. O principal problema de uma pessoa com gripe é manter a oxigenação. O que o SUS precisa melhorar para enfrentar essa epidemia? Por exemplo, leitos. Temos pacientes crônicos internados, e hospitais têm dificuldades para liberar leitos para casos graves da gripe. Esta é outra coisa que fica evidente. É mais ou menos como aquele cara que é pneumopata e você põe ele para dar uma corrida. Ele chega colocando os pulmões pela boca. O SUS está colocando os pulmões pela boca? O SUS como um todo não. Nós estamos dando conta. Não estamos tendo notícia aqui em SP de que alguém morreu porque não conseguiu atendimento. Evidente que está havendo uma sobrecarga no sistema. Se você for hoje na porta do Einstein, do Sírio, demora duas a três horas para consultar. Aumentou muito o número de pacientes, mesmo nos serviços privados. A mesma coisa aconteceu no SUS. A Prefeitura de SP abriu todas as AMAs para atender, o Emílio Ribas dobrou o número de pessoas atendendo, mas mesmo assim temos demora de atendimento. Porque o sistema sobrecarregado de uma hora para a outra não consegue. Nenhum sistema do mundo consegue. E os exames? Temos capacidade de fazer mil exames por dia. No começo vimos que iria aumentar. O que fizemos? Chamamos os hospitais e dissemos que poderiam fazer o exame. E mais: quando internarem o paciente e o caso for grave, mandem ao Adolfo Lutz. Após a epidemia,o instituto vai fazer estudo de engenharia molecular para verificar se o vírus não mudou. Nós vamos precisar para fazer a vacina no ano que vem. Qual o número de internados? Temos 250 pessoas internadas todos os dias, mas não quer dizer que interne 250 a cada dia. Tem uns que ficam uma semana, um mês. A gripe tem mostrado que o sistema de saúde tem dado conta, pelo menos em São Paulo. Temos complicação, demora, sim. Mas estamos conseguindo internar e tratar todos que precisam. Por que o Tamiflu não pode ser vendido na farmácia? Há estoque? Tem. São 9 milhões de tratamento no País. Aqui, até agora, tratamos mil. E se precisarmos de 20 milhões? Os maiores catastrofistas dizem que 30% vão ficar gripados, com sintomas - 30% dos 180 milhões de brasileiros, são quase 60 milhões. Desses, terão a forma grave 5%. Aí estaríamos falando de 3 milhões de pessoas, se fosse tratar todos que têm sintomas graves. Se há 9 milhões de tratamentos, a quantidade dá. Tem remédio para todo mundo. Mas só 18 hospitais tinham o remédio. Antes o paciente saía (do médico particular) com a receita, vinha para o Emílio Ribas, esperava duas horas, o médico conferia, receitava e a nova receita valia para pegar o remédio. São Paulo conversou com o Ministério da Saúde porque estávamos gastando duas consultas para o mesmo paciente. O ministério concordou, fez uma ficha que está na internet, qualquer médico pode imprimir. Ele tem de dar a receita e a ficha e pode procurar um dos postos de distribuição. A gente desburocratizou muito. Serão 61 pontos de distribuição... É o que o está sendo colocado. Na Inglaterra, o sistema de distribuição do remédio é diferente. Na Inglaterra fizeram um sistema em que o paciente põe os sintomas na internet, imprime a ficha e recebe, sem sair de casa. Na periferia de São Paulo, quantas casas têm computador? Não dá para comparar. E por que não se põe em todas as farmácias no País? Quem decidiu recolher foi o fabricante. Mas sob orientação do ministério. Quem retirou foi o fabricante. E deu licença para o ministério produzir o genérico do Tamiflu. Se a gente fizesse toda farmácia ter Tamiflu, vários médicos, pessoas, hipocondríacos iriam prescrever. A preocupação é usar sem prescrição e criar uma resistência do vírus ao medicamento. Os intervalos entre as pandemias serão cada vez menores. Há um plano? E a vacina para a gripe? Tem gente estudando pandemias no ministério. Mas o mundo mudou muito. A velocidade da comunicação e do transporte é muito mais rápida. Antigamente, para saber em Birigui que tinha epidemia em Hong Kong demorava duas semanas. Hoje você vê na internet. Dá para dizer que vai ter uma segunda onda e quando? Não dá. O problema da vacina é que ainda não temos produzida. O Butantã pode produzir cerca de 5 milhões de doses ao mês, e a expectativa é de que o instituto receba a cepa do vírus em outubro ou novembro. O atraso da fábrica da vacina sazonal pode prejudicar? O ministério tem de dizer até dezembro para o Butantã "quero que produza 20 milhões de vacina". Tendo a cepa, produz no fim de abril.