72% dos bebês com menos de 1 ano já comeram salgadinhos

Lígia Formenti e Lais Cattassini - O Estado de S.Paulo

Estudo do governo aponta que 8,7% tomaram café e 11,6%, refrigerante

A recomendação de alimentar bebês apenas com leite materno até os 6 meses está longe de ser cumprida pelos pais brasileiros. Pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostra que, nessa idade, 60,4% das crianças já tomam água; 48,8% outros tipos de leite e 8,9% comem até mesmo salgadinhos e biscoitos. Com o passar do tempo, os hábitos pioram ainda mais. O estudo indica que, entre 9 e 12 meses, 71,7% das crianças comem salgadinhos e biscoitos; 8,7% tomam café e 11,6%, refrigerante. "O risco de crianças com essa alimentação apresentarem problemas como alergia, diarreia e, no futuro, obesidade é grande", afirma a coordenadora da área técnica da Saúde da Criança e Aleitamento Materno do Ministério da Saúde, Elsa Giugliani. Em alguns locais do País, a introdução de água e chás na alimentação antes dos 6 meses pode até dobrar o risco de a criança ter diarreia. "Essa medida só prejudica o bebê. Para dar outros alimentos, pais usam geralmente mamadeira, que é de difícil esterilização. A probabilidade da contaminação nesse momento é grande." Além do maior risco de infecção e alergias, hábitos incorretos podem levar a criança a se transformar num adulto obeso. Isso porque é nessa faixa etária que os hábitos se formam. "É muito mais fácil educar a criança a ter uma alimentação saudável do que, no futuro, tentar fazer uma readaptação." O descompasso com as recomendações não se dá apenas na oferta de alimentos no momento em que o melhor é manter o aleitamento materno exclusivo. O estudo mostra que 27% das crianças entre 6 e 9 meses não recebiam comida salgada. Nesse período, é esperado que outros tipos de alimentos passem a ser incorporados na dieta. O trabalho, porém, também traz alguns números considerados positivos. Entre eles, o consumo de frutas entre crianças de 9 a 12 meses. A pesquisa demonstra que 79% dos bebês nessa fase consumiam diariamente algum tipo de fruta. Para Elsa, o trabalho demonstra a necessidade de reforçar entre os pais campanhas de esclarecimento sobre a importância do aleitamento materno. O trabalho apontou variações regionais. O consumo de refrigerantes entre crianças de 9 a 12 meses, por exemplo, é de 6,2% no Nordeste. No Norte, esse índice salta para 17,4%. No Sul, o consumo de salgadinhos chega a 79,5% e no Norte, 61,4%. DIFERENÇAS Pietro, hoje com 2 anos, teve a alimentação ideal. Até os 7 meses só mamava no peito. A amamentação durou até os 13 meses, quando o peito foi substituído por outros alimentos. Hoje ele come tudo. "Só comecei a oferecer alimentos industrializados, sucos principalmente, depois de ter completado 1 ano", diz a mãe Raquel Batalha, de 29 anos. Com Pedro, hoje com 2 meses, foi diferente. A mãe, Márcia Paes, de 36 anos, não pode amamentar e passou dar leite de vaca para o filho. Os alimentos também serão introduzidos precocemente. Segundo a pediatra Anna Júlia Sapienza, do Hospital Infantil Sabará, produtos com cafeína provocam refluxo. "Chás, café e refrigerantes relaxam o esôfago e a criança fica muito mais suscetível a refluxos, o que pode ser confundido com cólica."