Jennifer Lawrence sobre desigualdade salarial no cinema: 'Foi considerado normal por muito tempo'

Redação - O Estado de S.Paulo

'O problema é a normalização disso, essa é a razão pela qual seus agentes não pensam duas vezes em te pagar um terço do que os outros protagonistas homens ganham', opinou a atriz

Jennifer Lawrence falou sobre assédio e machismo na indústria do cinema em Hollywood.

Jennifer Lawrence falou sobre assédio e machismo na indústria do cinema em Hollywood. Foto: Markian Lozowchuk/The New York Times

Os últimos meses têm sido conturbados para Hollywood após uma série de denúncias de assédios e abusos sexuais contra produtores, diretores e atores. Entretanto, a discussão sobre desigualdade salarial e machismo na indústria do entretenimento é muito mais antiga e muitas mulheres têm falado sobre isso há alguns anos – lembra da campanha Ask Her More?

Neste contexto, o jornal Hollywood Reporter uniu grandes atrizes em uma mesa-redonda sobre o machismo, abuso sexual e desigualdade salarial no cinema e na televisão. Jennifer Lawrence, Emma Stone, Jessica Chastain, Allison Janney, Saoirse Ronan e Mary J. Blige debateram sobre o assunto.

"Há uma ideia errada de que isso só acontece na indústria do entretenimento. Claro, a indústria de entretenimento tem um destaque, na qual você pode ver os problemas de trabalho internos virarem problemas do mundo inteiro. Se uma comissária de bordo denuncia um piloto, isso não vira notícia porque ninguém sabe disso, mas não significa que haja menos abuso acontecendo em qualquer lugar do mundo ou em outros ambientes de trabalho. De qualquer forma, felizmente, nós estamos começando a falar sobre isso agora", opina Jennifer Lawrence.

Além de atriz, Jessica Chastain é dona de uma produtora e, por isso, diz que muitos problemas começam logo na agência e que o machismo está naturalizado na indústria do cinema.

"Muitos problemas em termos de igualdade salarial, mas também em termos de roteiristas mulheres e diretoras, começam ainda na agência. Eu tenho uma produtora e peço para os meus agentes: 'Vocês podem me enviar uma lista de roteiristas?', e são todos homens. Eu percebo que eles vão atrás de roteiristas que cobram mais, porque eles tiram uma porcentagem do valor. Então isso nos leva ao problema de que não há muitas roteiristas mulheres, certo? Mas, com atores, eu não entendo. Se você é uma agência de sucesso e sabe o que cada ator vai fazer em um filme, como um agente acha que está tudo bem você fazer o filme ganhando um terço do que o outro protagonista ganha? Depois de A Hora Mais Escura, eu recebi muitos scripts em que havia uma protagonista mulher, e eles não fechavam um acordo até que eles soubessem quem era o protagonista homem, porque eles precisavam fechar o acordo dele primeiro e depois ver o que sobrou", conta Jessica.

Jennifer acredita que a desigualdade salarial é algo considerado natural em Hollywood. "O problema é a normalização disso, porque essa é a razão pela qual seus agentes não pensam duas vezes em te pagar um terço do que os outros protagonistas homens ganha. Simplesmente foi considerado normal por muito tempo", falou, e disse que, hoje, por conta do patamar em que está, é mais fácil ser paga de forma justa.

Quando questionadas se as mulheres do cinema, sejam atrizes, roteiristas ou quaisquer funcionárias deveriam falar mais abertamente sobre os abusos, assédios e desigualdades salariais, Emma Stone respondeu que não é saudável pressioná-las.

"Eu, por exemplo, sou alguém que me segura muito e fica muito nervosa para falar em público. Nós temos de reconhecer que há muitas mulheres que não contaram suas histórias ainda porque não se sentem confortáveis em dividi-las. Eu sinto muita empatia por aquelas que ainda levantam todos os dias e vão para o trabalho com seus abusadores lá, ou que foram abusadas no passado e ainda não estão prontas para dizer nada. Colocar pressão nas mulheres para que elas contem as coisas, algo como 'se você não está falando agora, então você é cúmplica no que aconteceu', não é justo", opinou Emma.

A atriz, ganhadora do Oscar 2017 por seu papel em La La Land: Cantando Estações, ainda disse que a desigualdade salarial é um dos motivos para que ainda haja tantos abusos em Hollywood, porque as mulheres "têm de se encaixar nessas condições só para conseguirem trabalhar".

Durante a conversa, as atrizes ainda falaram sobre seus filmes mais recentes e contaram histórias sobre o início de suas carreiras. A entrevista completa pode ser lida, em inglês, no site do Hollywood Reporter.