Chelsea Handler: impulsiva, provocante e agora disponível na Netflix

Dave Itzkoff - The New York Times

'Não penso em mim como mulher, mas sim como uma pessoa. Você acha que é nisso em que penso o dia todo? Que nada, só tento entreter e ser interessante'

Foto: Brinson+Banks/The New York Times

"Não quero que o público sente para assistir e veja a mesma coisa: monólogo; primeiro convidado; banda; blá blá blá. Não consigo trabalhar assim", explicou Chelsea Handler há pouco tempo.

Nessa tarde de abril, a comediante cáustica, escritora e ex-apresentadora do "Chelsea Lately", no canal E!, estava sentada em uma das mesas externas do Rosti Tuscan Kitchen, restaurante onde, anos atrás, trabalhava servindo mesas.

Ela estava ali para dar alguns conselhos sábios ao sobrinho Charley, um garoto esperto de onze anos que quer ficar famoso como a tia. Enquanto um cinegrafista do programa registrava Charley recebendo pedidos e recebendo uma lição sobre as durezas da vida, a apresentadora ministrava outro tipo de ensinamento. O tema? A aparente atemporalidade do formato da comédia de tópicos e como ela pretende evitá-lo quando seu programa, "Chelsea", estrear.

"Todas essas atrações começam tentando vender um lance diferente, mas, no fim, são absolutamente iguais, só muda o apresentador. Tenho que fazer tudo o que estiver ao meu alcance para evitar que isso aconteça", enfatiza a loira de 41 anos.

Isso porque ela sabe que uma coisa é prometer inovação e outra, bem diferente, é conseguir oferecê-la em um campo em que há pelo menos uma dezena de concorrentes, na maioria homens.

E garante que o fato de ser uma das poucas mulheres a ter comandado um talk show tarde da noite é irrelevante. "Não penso em mim como mulher, mas sim como uma pessoa. Você acha que é nisso em que penso o dia todo? Que nada, só tento entreter e ser interessante."

Chelsea com seu cachorro do lado de fora do escritório dos estúdios Sony

Chelsea com seu cachorro do lado de fora do escritório dos estúdios Sony Foto: Credit Brinson+Banks /The New York Times

Mesmo assim, é uma proposta, no mínimo, pouco comum que ela tenha criado "Chelsea" para um serviço de streaming de vídeo que não tem nem programação, nem sequer horários diários regulares.

O Netflix joga com sua capacidade de atrair e manipular o espectador graças à opção de consumo de seu conteúdo em doses cavalares, mas a verdade é que ninguém sabe como se sai com programas de atualidades. O certo é que aposta que Chelsea faça um programa que, se não seguir o formato e horário tradicionais, então pelo menos demonstre o espírito independente do talk show de fim de noite.

Mais curioso ainda é o fato de ter contratado Chelsea em um momento que a comediante quer ser (re)conhecida por interesses mais abrangentes sobre o mundo e não apenas como a engraçada que fica fazendo piadas sobre porres homéricos e o fato de não querer filhos.

Ela é também uma artista provocadora - hoje, por exemplo, está usando um colar com uma expressão obscena bem popular - que não disfarça sua inquietude e, quem sabe, talvez a considere sua maior qualidade.

"Sou totalmente impulsiva. Foi por causa disso que assinei com a E! e, no fim, a coisa durou oito anos. Escrevi meu livro por impulso e, no fim, assinei cinco. Jamais pensei em agir de outra maneira", afirma, orgulhosa.

Já faz quase dois anos que ela acabou "Chelsea Lately", seu palco para comentários ásperos sobre a cultura popular, mesa redonda para comediantes stand-up e convidados famosos.

Embora o programa tenha tido mais de mil episódios, Chelsea confessa que, no fim, já se irritava nos bastidores, cansada de ser restringida pelo que considera falta de visão e limitação do canal à fofoca e aos astros de reality show.

Equipe cuidando do cabelo e maquiagem de Chelsea na casa dela

Equipe cuidando do cabelo e maquiagem de Chelsea na casa dela Foto: Brinson+Banks/The New York Times

"A gente entrava ou antes, ou depois das Kardashians. Vivia cercada de gente totalmente sem sentido. Ninguém sintoniza esse canal em busca de notícia, política, história de interesse humano ou questões mundiais. Não fala nada sobre as coisas que me interessam."

Quando começou a perder o interesse, decidiu que era hora de parar. "Era tudo muito raso, muito superficial e eu estava me sentindo da mesma forma." (O E! se recusou a comentar este artigo.)

Chelsea prossegue, dizendo que tinha a intenção de tirar um ano sabático para descansar a imagem e recusou vários convites (sem especificar nomes) por acreditar que nunca lhe dariam a liberdade que queria.

Depois de algumas conversas com o Netflix, entretanto, ela percebeu que a falta de experiência do canal no segmento - e a liberdade de experimentação resultante - eram vantajosas. "Estou na minha ilha particular. Não tenho que me preocupar com concorrência. Era exatamente o que eu queria."

Para Ted Sarandos, diretor de conteúdo do Netflix, a disposição de Chelsea em se colocar em situações pouco familiares e o humor ácido que essas incursões geram sugeriam que tinha condições de fazer um programa mais abrangente que "Chelsea Lately".

"Não tem nada mais chato que uma entrevista na qual o entrevistador é o especialista funcional. O que você quer é uma pessoa supercuriosa e, no caso da Chelsea, extremamente engraçada. Afinal de contas, o programa gira em torno dela e de seu humor, certo?", comenta Sarandos.

Em relação à natureza tempestuosa da loira, ele afirma: "É a parte mais legal. Não vale a pena tentar conter essa espontaneidade porque muita coisa interessante resulta dela."

Mesmo como um rosto cada vez mais conhecido por um serviço de conteúdo cada vez mais importante, Chelsea não tem pudor em postar fotos em que aparece seminua nas redes sociais - e nem se justifica por fazê-lo.

"Se não quiser ver meus peitos, basta não me seguir mais no Instagram, ué", diz.

E foi com esse mesmo tipo de franqueza que acabou com a homogenia da TV de fim de noite, segmento onde, segundo ela, uma nova geração de apresentadores representa pouca inovação ao gênero. "Tem uns dez, onze caras fazendo o que antes faziam dois. Perdeu a graça."

Chelsea em reunião com executivos da Netflix

Chelsea em reunião com executivos da Netflix Foto: Brinson+Banks/The New York Times

Agora a responsabilidade é de Chelsea, que estaria supostamente recebendo um salário de 10 milhões de dólares(valor que seu representante se recusou a confirmar) para mostrar que pode fazer algo diferente. À sua disposição terá um espaço livre de comerciais e sem tempo de duração definido, embora já se saiba que cada episódio terá por volta de trinta minutos.

Ela já deu uma prévia de como realizará essa tarefa, com os quatro documentários lançados pelo canal em janeiro, nos quais explora temas amplos como racismo, casamento e drogas, além de ter viajado para o Peru para beber ayahuasca, uma mistura de plantas psicoativa. ("Fiquei muito mais paciente com a minha irmã", brincou ela.)

De uns meses para cá, Chelsea e seus produtores andam ocupados criando quadros nos lugares mais diferentes, tentando encontrar tópicos atuais e abordagens atemporais para segmentos que interessem não só o público dos Estados Unidos, mas dos quase 200 outros países onde o serviço se encontra disponível.

Bill Wolff, produtor executivo de "Chelsea", diz: "A essa altura, minha função é ajudá-la a identificar material interessante que tenha a ver com sua veia cômica."

Chelsea gravando em Santa Monica, Califórnia

Chelsea gravando em Santa Monica, Califórnia Foto: Netflix

E prossegue: "Tem muita coisa para se aprender sobre os subsídios agrícolas chineses e como eles afetam o trabalhador norte-americano; o que faria a Chelsea falar sobre o tema? É um assunto que a interessa?".

"Nossa intenção não é colocá-la numa sala, conversando com uma pessoa. Queremos engajá-la, de cara no mundo, fazendo coisas."

Netflix garante ter a capacidade de levar os episódios ao ar horas depois de terem sido gravados e editados. Apesar disso, Sarandos afirma: "A maioria vai assistir um dia, dois depois; quem sabe, uma semana ou duas, um mês ou dois. E o programa foi pensado assim, tipo, é temático, mas não perde a validade de um dia para outro."

E reconhece: "Fazer com que nosso público se comprometa a ver um programa de atualidades com regularidade é certamente uma quebra no modelo padrão - se bem que não estamos tentando mudar seus hábitos, da mesma forma que o espectador não vai fazer nada muito diferente do que já faz sintonizando conosco."