Caitlyn Jenner vai à escola

NICHOLAS KRISTOF - THE NEW YORK TIMES

"A grande preocupação é com as crianças transexuais que enfrentam bullying e ostracismo", diz Caitlyn

Caitlyn Jenner arrives at a dinner party for the KUWTK show in NYC. Kendall Jenner and Kourtney Kardashian attended the dinner along with their mother Kris and her boyfriend Corey.

Caitlyn Jenner arrives at a dinner party for the KUWTK show in NYC. Kendall Jenner and Kourtney Kardashian attended the dinner along with their mother Kris and her boyfriend Corey. Foto: Bang Showbiz

Quando Caitlyn Jenner surgiu pela primeira vez após a transformação do medalhista de ouro Bruce Jenner, os americanos ficaram fascinados, curiosos, e surpreendentemente aceitaram o fato.

Muita coisa mudou desde então. A aceitação hesitante dos transexuais se converteu em furor nacional com a "lei do banheiro". E entre os liberais, o entusiasmo inicial por Caitlyn Jenner desapareceu com a descoberta de que ela era uma republicana que admirava Ted Cruz.

Acompanhei Jenner em sua visita a uma escola no Brooklyn, a Academia para Jovens Escritores, situada em um bairro operário, instituição que foi líder em fazer com que alunos de comunidades LGBT sejam bem acolhidos. A reunião se transformou numa espécie de choque: uma celebridade transexual rica se encontrando com um grupo de adolescentes LGBT de baixa renda e de cor, vindos de mundos diferentes, mas compartilhando as mesmas inquietações e desconforto.

Os alunos desafiaram Caitlyn e antes alguns já haviam arrancado uma foto dela da parede, achando que ela não estava fazendo o suficiente em favor dos gays. Caitlyn conversou com os alunos durante horas e os conquistou ao se expressar publicamente sobre as diferenças (e tirando selfies com eles) e debatendo preocupações comuns, como a lei do banheiro da Carolina do Norte.

"É uma total incompreensão do assunto", disse ela, afirmando que já existem leis que tratam de predadores e que não houve nenhum caso informado de um transexual entrar em um banheiro feminino e abusar de alguém.

"Três republicanos foram presos em banheiros masculinos por comportamento obsceno. Portanto, veja, também precisamos de uma lei proibindo republicanos de entrarem nesses banheiros", disse ela.

A grande preocupação, segundo Caitlyn, é com as crianças transexuais que enfrentam bullying e ostracismo. De acordo com um estudo que abrangeu todo o país, 41% dos transexuais questionados tentaram o suicídio, 57% foram rejeitados pela família e quase um quinto não tinha lar.

"E agora o Estado adere ao bullying e ao abuso. E vidas dentro da nossa comunidade serão perdidas por causa disto", declarou.

Alguns dos alunos na sala enfrentam exatamente esses problemas. Spencer Washington, um jovem negro de 17 anos, uma vez tentou se suicidar (felizmente não conseguiu acertar o nó de forca e chorou até conseguir dormir).

"Deixem as pessoas em paz", ele implorou.

Caitlyn disse que vem trabalhando "nos bastidores" para a lei da Carolina do Norte ser revogada e criticou os republicanos. Mas não se desculpou por ser republicana, dizendo que é uma conservadora no tocante a assuntos econômicos.

Menos de 1% da população - uma estimativa mais aproximada talvez seja um terço de 1% - é transexual, um número bem menor do que o de gays. Caitlyn reconhece que está em uma categoria de pessoas condenada a ser caluniada, um grupo que está entre os mais marginalizados nos Estados Unidos.

"Talvez esta seja a razão pela qual Deus me colocou neste mundo, para contar minha história, tentar mudar as coisas. Porque esta história e estas questões - transexualidade, identidade de gênero, rebeldia, seja o que for - são mais importantes do que o que fiz em 1976, e ganhar a medalha de ouro na Olimpíada. É mais importante do que quebrar recordes ou outra coisa do gênero. Tem a ver com a vida. É uma questão de vida e morte".

Caitlyn Jenner diz que o pior de ter se transformado em mulher foram as críticas da comunidade transexual e ela reconhece que tinha muito a aprender: até um ano atrás ela nunca havia se encontrado com uma pessoa transexual. Mas hoje finalmente sente-se uma mulher autêntica.

"Por muitos anos, a pequena Caitlyn viveu dentro de mim. Bruce conquistou o mundo e fez isto. Chegou o momento de colocá-lo dentro e deixá-la viver".

Interessei-me por este assunto depois que cruzei com crianças vivendo nas ruas com problemas escolares, com drogas, a polícia, abuso sexual e suicídio - e desproporcionalmente eram crianças transexuais rejeitadas pela família e a sociedade.

 

É algo que, na minha opinião, a sociedade não entende: claro que existem assuntos complicados, sobre em que time a criança deve jogar, ou que chuveiro usar, mas são secundários. A preocupação primordial deve ser manter as crianças protegidas e vivas, e não em crise cada vez que sua bexiga está cheia.

 

Portanto, lembrem, não se trata de Caitlyn, que pode se cuidar. Mas das milhares de crianças no país

que, além de todas as loucuras de adolescência, também estão percebendo, muitas vezes horrorizadas, que seu corpo e alma não se alinham e o resultado é que elas podem passar sua vida inteira como párias. Podemos ajudar mais.

Ouçamos o apelo de Spencer: "só quero ser amado pelo que sou".

 

Tradução de Terezinha Martino