Uma experiência em Saúde Mental na Inglaterra: psicoterapia de graça

Benedict Carey - The New York Times

Especialistas dizem que o programa inglês é o primeiro amplo teste no mundo real de tratamentos conduzidos em sua maior parte em condições cuidadosamente controladas de laboratórios

Escritório para saúde mental de High Wycombe, Inglaterra
 

Escritório para saúde mental de High Wycombe, Inglaterra   Foto: Andrew Testa / The New York Times

A Inglaterra está em meio a um experimento nacional único, o mais ambicioso esforço no mundo para tratar casos de depressão, ansiedade e outras doenças mentais comuns.

A iniciativa, em fase de rápida expansão, que recebeu pouca publicidade fora da Inglaterra, oferece virtualmente terapia gratuita sem limites estabelecidos, em clínicas de todo o país; em remotos povoados rurais, subúrbios industriais, comunidades isoladas de imigrantes e ricos enclaves. A meta é, com o tempo, criar um sistema de cuidados primários para saúde mental, não só na Inglaterra, mas em toda a Grã Bretanha.

Numa época em que os países discutem reformas de larga escala nos cuidados com saúde mental, pesquisadores e planejadores acompanham atentamente a experiência da Inglaterra, avaliando tanto sua popularidade quanto limitações. Os sistemas de assistência médica variam bastante em todo o mundo ocidental, mas nenhum deles chegou sequer perto de fornecer acesso ilimitado a psicoterapias tendo como base dados concretos. Especialistas dizem que o programa inglês é o primeiro amplo teste no mundo real de tratamentos conduzidos em sua maior parte em condições cuidadosamente controladas de laboratórios.

A demanda nos primeiros anos tem sido tão forte que exerceu pressão sobre os recursos do programa. Segundo os dados mais recentes, o programa agora seleciona quase um milhão de pessoas por ano, e o número de adultos na Inglaterra que receberam nos últimos tempos algum tipo de tratamento mental saltou para 1 em 3, de 1 em 4 e deve continuar a aumentar. Profissionais do setor de saúde mental também dizem que o programa avançou muito na redução do estigma sobre a psicoterapia em um país culturalmente imerso no estoicismo.

"A bem da verdade, agora ouvimos jovens dizerem, 'Preciso buscar uma terapia para isso'", diz Tim Kendall, diretor clínico para saúde metal no Serviço Nacional de Saúde (NHS, sigla em inglês). "Você jamais ouviria pessoas neste país dizerem isso em público antes".

Outro sinal da abertura cada vez maior do país, no que se refere a tratamento, é o vídeo amplamente divulgado, mostrando três membros populares da família real - o príncipe William, o príncipe Harry e Kate, duquesa de Cambridge - discutindo a importância de cuidados com a saúde mental e as dificuldades enfrentadas pelos príncipes depois da morte da mãe.

A enorme quantidade de dados coletados por meio do programa revela a importância de uma rápida resposta depois de uma procura inicial feita por uma pessoa e um sistema de seleção semelhante a uma triagem na decisão sobre o curso do tratamento. Isso irá possivelmente ajudar os pesquisadores e encarregados dos planos de ação em todo mundo a determinar quais reformas podem funcionar - e quais as que dificilmente ajudarão.

"Não se trata apenas de melhorar o acesso aos cuidados, mas mostrar que há responsabilidade com o cuidado fornecido," disse Karen Cohen, principal executiva da Associação Psicológica Canadense, que tem defendido a adoção de sistema semelhante no Canadá. "É isso que torna o esforço tão inovador e extraordinário".

Oliver é exatamente o tipo de pessoa que os dois criadores do programa tinham em mente quando propuseram ao governo que o financiasse, há uma década.

Gemma Szuc, de Woodstock, Inglaterra, beneficiada pela terapia
 

Gemma Szuc, de Woodstock, Inglaterra, beneficiada pela terapia   Foto: Andrew Testa / The New York Times

Aos 30 anos, ele tinha problemas para lidar com o trabalho e uma jovem família - e estava desmoronando rapidamente. Depois de noitadas com amigos, ele acordava na manhã seguinte com a sensação visceral de que havia feito algo horrível.

"Eu sabia que não havia feito nada de errado, sabia, mas não conseguia passar a pensar, 'Ok, é melhor conferir para ter certeza,'" disse Oliver, agora com 32 anos, designer gráfico de fora de Londres, que pediu a omissão de seu nome para proteger sua privacidade. Na primavera de 2015, depois do nascimento do segundo filho de Oliver a ansiedade estava tão enfronhada em sua vida que ele tinha dificuldade em sair de casa. "Eu estava acabado" ele diz.

Em 2005 David Clark, professor de psicologia na universidade Oxford, e o economista Richard Layard, membro da Câmara dos Lordes, chegaram à conclusão de que fornecer terapia a pessoas como Oliver fazia sentido, do ponto de vista econômico.

"Nós argumentamos que, apenas contando o tempo perdido, o programa se pagaria sozinho", disse Layard em uma entrevista no seu escritório na London School of Economics.

Clark, em seu escritório na universidade, disse: "se alguém quebra a perna, ele ou ela recebe tratamento imediato. Se a pessoa está com a alma fraturada, em geral não".

O programa começou três anos mais tarde, em 2008, com 40 milhões de dólares do governo trabalhista de Gordon Brown. Foram instaladas 35 clínicas cobrindo cerca de um quinto do território inglês e foram treinados mil trabalhadores, entre terapeutas, assistentes sociais, graduados em psicologia e outros.

O programa continuou a se expandir durante três governos, tanto de tendência de esquerda como direita, com um orçamento atual de cerca de 500 milhões de dólares, que deverá duplicar nos próximos anos.

Sob o sistema antigo, Oliver poderia ter recebido um medicamento e possivelmente, alguma orientação psicológica e apoio. Mas ele jamais buscara receber um tratamento de saúde mental antes, e provavelmente se passariam anos antes de receber qualquer psicoterapia porque não imaginava que isso estivesse disponível. A área onde ele vive teve dezenas de terapeutas, mas nenhum sistema centralizado garantindo que as pessoas recebessem abordagens com apoio científico personalizadas para seu problema específico.

Oliver ficou sabendo pelo seu médico da Healthy Minds (Mentes Saudáveis), o programa do centro local, e de imediato o procurou. Teve um retorno no dia seguinte.

A agilidade daquela resposta inicial parece ser de crucial importância, dão a entender os dados coletados pelo programa. Caso os pacientes não tenham um retorno logo nos primeiros dias, muitos podem ser perdidos para sempre, porque a coragem tomada na hora de dar o telefonema pode dissipar-se rapidamente.

Andrew Prinsloo, de 43 anos, designer gráfico que mora em Feltham e teve ansiedades semelhantes às de Oliver, disse ter recebido um telefonema em resposta minutos depois de mandar um e-mail para a Healthy Minds no final de 2015. "Eu estava com terríveis pensamentos sobre o que deveria fazer e, honestamente, muito relutante em falar com alguém por acreditar que seria internado", disse em uma entrevista.

Os pacientes também realizam experimentos simples, na vida real, para ver se as temidas consequências se materializam. Gemma Szucs, de 41 anos, aderiu às seções on-line em terapia de comportamento cognitivo durante 14 semanas por meio do programa em Oxford, ao apresentar uma ansiedade social tão severa que não podia suportar nem a ideia de embarcar em um ônibus porque isso significaria atrair a atenção momentânea de outros passageiros. Foi encaminhada ao programa pelo seu clínico geral.  

Um dos testes de comportamento tentado por ela foi uma conversa imaginária pelo celular, em tom de voz elevado, no supermercado, dizendo coisas como, "acabo de receber um telefonema do David Cameron, e ele quer falar com você!", referindo-se ao então primeiro-ministro. "Precisei realmente preparar-me para fazer isso," ela falou. "Mas quando finalmente consegui, ninguém deu a menor piscada. Nada. Senti-me ridícula por me preocupar com tudo aquilo".

O desafio de Oliver foi de completar uma lista de prévia de atividades de rotina que se tornaram apavorantes, como dirigir (a última da lista) e praticar jogging em uma área remota no bosque (a primeira)."Foi difícil, mas consegui", ele diz. "A terapia funcionou - sai de dentro da caixa na qual estava vivendo".

Veja também: 5 dicas para proteger sua saúde mental

 

Uma lista de espera de saúde mental

Os maiores desafios podem ser os criados pela procura descontrolada. Os terapeutas estão com seus horários preenchidos; alguns conciliando 25 clientes ao mesmo tempo e a fila para conseguir consulta é longa, gerando as mesmas queixas a respeito das listas de espera que o Serviço Nacional de Saúde tem para muitos serviços médicos e procedimentos. A média de espera é de 31 dias para um programa de terapia, em geral mais curta para a variedade on-line e mais demorada para um tratamento face a face.

Diretores dos centros locais lidaram com tal quantidade de casos comas ferramentas que possuem, em parte cuidando de que os futuros clientes recebessem rapidamente material educacional ou recursos on-line, para dar a eles material de estudo enquanto aguardavam pela consulta.

Sarah Norman, de 45 anos, enfermeira pediátrica que buscou ajuda para depressão no centro em Oxford no ano passado disse ter sido encaminhada a uma terapia de grupo porque a lista de espera para terapia individual era longa demais. Quando a terapia de grupo terminou depois de quatro sessões, ela lembra, "fiquei um tanto quanto frustrada. Acho que poderia ter tido mais algumas sessões".

Com o passar do tempo, ela melhorou e é muita grata pelo tratamento. O mesmo não pode ser dito com a mesma certeza a respeito de 40 pessoas, que segundo mostram os dados, foram perdidas para o programa, depois do telefonema de avaliação inicial. Cerca de dois terços deles não estavam deprimidos ou ansiosos o suficiente para serem incluídos na terapia, ou decidiram que aquilo não era para eles, mostram os dados de Clark.

Isso representa em torno de 125 mil homens e mulheres que poderiam ter precisado de ajuda, mas não a conseguiram. "São essas as pessoas que queremos atrair e estamos nos esforçando muito com os serviços para conseguir isso," disse Clark.