Um brinde aos velhos amigos

Barton Goldsmith - O Estado de S.Paulo

Lembrar o passado pode ser maravilhoso, do mesmo modo que planejar o futuro

As pessoas costumam falar que não se deve confiar em pessoas que não gostam de animais ou que não têm velhos amigos. Deve ser verdade.

Há alguns dias almocei no Hutington Gardens, em San Marino, Califórnia, com quatro pessoas que não via há uma década. À época em que nos reuníamos e trabalhávamos juntos, nos dávamos muito bem, e foi o que ocorreu no almoço, como sempre. 

Talvez o outono tenha alguma coisa que nos torna mais abertos e com mais vontade de sentar em torno da lareira e bebericar uma sidra. Contamos velhas histórias e criamos novas aventuras que planejamos desfrutar juntos. Veremos, mas mesmo que isto não ocorra, de alguma maneira vamos nos reunir novamente, porque todos sentimos amor e apoio incondicionais um pelo outro.

Vamos nos reunir novamente, porque sentimos amor e apoio incondicionais um pelo outro

Vamos nos reunir novamente, porque sentimos amor e apoio incondicionais um pelo outro Foto: Pixabay

Também tive notícias sobre um dos nossos amigos, meu velho camarada Bruce, que faleceu em consequência de um câncer, e no meio daquele almoço, choramos. Bruce era uma boa pessoa. Nossas carreiras nos levaram para caminhos diferentes e perdemos contato com o passar dos anos, mas no final todos os caminhos acabam levando à casa.

A verdade é que detesto dirigir e eu tinha um longo caminho à frente. Noventa minutos em uma rodovia de Los Angeles é suficiente para levar uma pessoa a uma terapia. Mas quando consegui arrastar meu corpo para o carro para finalmente pegar a estrada sentia-me bem ao saber para onde estava indo. Conduzir era uma tranquilidade porque, desculpe-me Lao Tsé, o destino era mais importante do que a viagem. 

Lembrar o passado pode ser maravilhoso, do mesmo modo que planejar o futuro. Nós nos divertimos muito e ainda estamos desfrutando daqueles momentos. Mas algumas coisas nunca mudam. Minha antiga assistente, que era uma das convidadas e colaborou para reunir o pessoal, ainda me assessorava dez anos depois.

Quando cheguei ao meu carro após o almoço, percebi que ele não dava a partida e por alguma razão não trouxe meu cartão da AAA (Associação Automobilística Americana) e tampouco o do seguro do carro. Então pedi ajuda a Chrissy, que telefonou para a AAA; ela ficou comigo enquanto esperava que o seguro chegasse. Nesse ínterim, um sujeito entrou no estacionamento com seu Ford Verlaine ano 50 e me perguntei se ele não teria cabos para dar uma carga na bateria. Pedi sua ajuda, mas infelizmente os cabos não eram muito longos, o que foi mais um problema. Esperamos um pouco mais pelo socorrista, que chegou logo depois e instalou uma nova bateria no carro e segui o meu caminho.

A viagem para casa pareceu-me mais curta do que a vinda (e o tráfego era pior), provavelmente porque com o coração aquecido você não se envolve com muitos problemas que não pode resolver, como o tráfego.

Reunir-me com as garotas (sim, eu era o único homem do grupo) sempre é um prazer especial porque os homens não fazem esse tipo de coisa com a mesma frequência que as mulheres. Foi uma tarde maravilhosa que ficará na minha memória por muitos anos.

Uma última reflexão: conversamos e desfrutamos tanto daquele almoço que nenhum de nós tirou uma foto, apesar de todos estarem com seus celulares com câmera. A lembrança está nos nossos corações e mentes e acho que essas imagens mentais são mais importantes do que as reais. É o que ocorre quando você está ao lado de pessoas que ama.

Tradução de Terezinha Martino