'Trans é o rótulo que a sociedade nos coloca, eu sou uma mulher', diz ativista

Anita Efraim e Luiza Pollo - O Estado de S. Paulo

Alicia Krüger, Fabianna Mello Oliveira e a atriz Maria Clara Spinelli falam sobre representatividade e preconceito

Brasil é o país que mais mata trans no mundo

Brasil é o país que mais mata trans no mundo Foto: Pixabay

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. De acordo com um estudo feito pela Transgender Europe, de outubro de 2015 a setembro de 2016, foram 123 assassinatos em território brasileiro. Um dos exemplos mais recentes no País foi o caso de Dandara, que foi brutalmente espancada até a morte no dia 15 de fevereiro.

Alicia Krüger, ativista do movimento trans, aponta a violência como principal motivo para que todas as mulheres se unam. "Por mais que uma mulher não reconheça mulheres trans, eu prefiro o barulho dessa mulher do que o silenciamento que um homem provoca", diz, sobre a questão de parte do movimento feminista não aceitar mulheres trans.

"Todas as mulheres têm de se unir cada vez mais, e não cabe a mim criticar esse movimento. Muito mais do que criticarmos o feminismo radical, temos que atacar o patriarcado", opina. Para ela, o inimigo das mulheres está fora, não dentro.

Para a atriz Maria Clara Spinelli, que teve papéis em Salve Jorge, Supermax, entre outros, e estará na novela A Força do Querer, o mais importante é educar meninos e meninas sem diferenças, desde cedo. "Nós, mulheres, somos metade da sociedade e precisamos educar nossas crianças para não reproduzirem um padrão machista", opina. Além disso, ela defende que é preciso que as mulheres não ouçam caladas as 'piadas' sexistas e respondam, sempre que possível, o assédio.

De acordo com Fabianna Mello Oliveira, assessora parlamentar e membro da Comissão de Cidadania de Pernambuco, o dia 8 de março também não é de comemoração, mas de luta. "Para mim, estar inserida neste dia é uma representação, é dizer para a sociedade que nós somos mulheres".

Na opinião dela, o dia sempre fez parte da agenda das mulheres trans, no entanto, "elas não eram tidas como mulheres". "Nós lutamos também contra o machismo, o assédio, o sexismo, toda forma de misoginia que existe também no ambiente das mulheres trans", diz Fabianna. Maria Clara vai pela mesma linha, mas defende que a 'celebração' é importante. "Como mulher que nasceu transexual, é muito importante, para mim, celebrar este dia. Ser mulher é algo legítimo. Eu ainda tenho que provar o tempo todo que sou mulher, sou atriz e não sou profissional do sexo. Nada contra, mas tive a chance de não ser", relata.

Alicia explica que o Dia da Mulher é bastante emblemático para todas as mulheres, independente de questões biológicas. "Todas somos mulheres e passamos por situações bastante vulneráveis", afirma. Ela acredita que não é uma data para felicitações, "temos muito pouco a comemorar, o Brasil é o país que mais mata transexuais e transgêneros no mundo". 

Farmacêutica, ela trabalha no Ministério da Saúde desde 2015 e, por causa dos privilégios que teve durante a vida, reconhece a importância da militância. Em sua vida, Alicia se dedicou muito para que os trans fossem incluídos na sociedade. A Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde estudou, por iniciativa dela, foi a primeira no Brasil a aceitar o nome social em vestibulares e concursos.

No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, Alicia e colegas do Ministério aderiram à greve como forma de militar. À tarde, foram a uma passeata de mulheres no Museu da República com discussões sobre o aborto. "Esse dia traz uma reflexão para todas as pessoas que desempenham o papel feminino, seja cisgênero ou trans", opina. Fabianna também participa de eventos em Pernambuco durante todo o dia.