Trajes de cogumelos, urnas biodegradáveis e a fronteira ecológica da morte

Katie Rogers - The New York Times

Por que simplesmente não aceitar que vamos morrer e causar menos danos ao meio ambiente no processo?

Foto: Edmund D. Fountain/ The New York Times

Jae Rhim Lee quer que sejamos menos sensíveis em relação à morte e acha que um terno cheio de cogumelos carnívoros pode ser o caminho.

Espere, não vá embora. Jae, 40 anos, é uma artista e empresária que há muito tempo se sente intrigada com o modo com que as pessoas se relacionam com o ambiente. Então, para iniciar o processo, ela criou o que chama de Terno de Enterro Infinito. É um traje de US$1.500 que incorpora cogumelos que ajudam a decompor o cadáver humano, purificando-o de toxinas e distribuindo os nutrientes para o solo. Ninguém ainda foi enterrado nele, mas ela disse que um homem que sofre de uma doença crônica concordou em ser o primeiro.

"Quero propor uma forma diferente de pensar a morte, algo que nos faça aceitá-la. Acho que essa aceitação é um aspecto crítico da proteção ambiental", disse ela.

Jae está entre um grupo cada vez maior de empresários que tenta mudar nossas ideias sobre a morte. Ela concebeu o terno de cogumelo como uma alternativa para o que chama de práticas de "negação da morte" da indústria funerária - que ainda embalsama corpos e os coloca em caixões cercados de concreto - e o campo da criogenia, que tenta preservar os mortos para uma ressuscitação posterior.

A sua ideia é: por que simplesmente não aceitar que vamos morrer e causar menos danos ao meio ambiente no processo?

Enterros ecológicos começaram a ser considerados uma alternativa de nicho há coisa de uma década, mas consumidores e profissionais funerários passaram a aceitar a ideia de enterrar os mortos sem o uso de embalsamamento, produtos químicos, formaldeído ou cremações que liberam metais e gases no ambiente. De acordo com uma pesquisa de 2015 feita pelo Conselho de Informações de Memorial e Funeral, 64 por cento dos entrevistados manifestaram interesse em funerais ecológicos, número que chegava a apenas 43 por cento em 2010.

Na Universidade Western Carolina, pesquisadores do Projeto da Morte Urbana aprendem como melhor transformar cadáveres em adubo. Em Los Angeles, a Undertaking LA oferece workshops "prepare-sua-própria-morte", para dar às pessoas as ferramentas necessárias para planejar funerais em casa.

Edward Bixby, que oferece o enterro ecológico no Cemitério Steelmantown em Woodbine, Nova Jersey, disse que a motivação do cliente que busca esse tipo de enterro veio mudando ao longo da última década. Ele diz que agora a clientela está bem dividida entre os que se interessam estritamente nos benefícios ambientais e aqueles que simplesmente não aceitam as convenções e os custos associados aos funerais tradicionais. Em 2014, a média nacional era de aproximadamente US$8.500 para o enterro tradicional e US$6 mil para a cremação, de acordo com estatísticas da Associação Nacional de Diretores Funerários. Enterros ecológicos não são necessariamente mais baratos, mas os consumidores podem poupar em caixões, forros, e taxas de funeral.

"A oportunidade de personalizar o enterro é frequentemente mais importante do que a preocupação ambiental. É catártico", disse Bixby.

As novas startups da morte encontram clientes através do boca a boca. Jae criou um grupo on-line de pessoas (a maioria delas ainda saudável) para discutir suas personalidades, medos e planos para a morte. O publicitário David Weaver, que vive no interior de Vermont, entrou para o grupo depois de se inspirar com uma palestra de Jae no TED Talk de 2011, quando ela apresentou seu traje. (A apresentação, em que ela usa a roupa de cogumelos e conta como os "ensina" a comer unhas, pele e cabelo, foi vista por mais de 1,3 milhão de pessoas.)

Foto: Edmund D. Fountain/ The New York Times

Weaver comprou um terno para si e uma cápsula de algodão para seu terrier de 2 anos, Beaker. Ele planeja com antecedência, pois tanto ele como seu cãozinho são saudáveis.

"É difícil para a sociedade superar essa imagem de que você é colocado no chão, em um cemitério, ou em uma urna. É pouco tradicional, mas é a única coisa que fui capaz de ver onde os valores da minha vida podem ser usados quando eu morrer", disse Weaver, 50 anos, em uma entrevista.

Formada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Jae sempre foi obcecada pelo modo com que os seres humanos se relacionam com seu ambiente. Ela já usou o corpo para teste antes, aderindo a uma dieta estritamente vegana para ver se a urina poderia nutrir as plantas - acabou cultivando repolho, que usou para fazer kimchee.

"Comecei a questionar por que temos tanto nojo de nossos corpos. Quero desafiar esses tabus, que nos fazem achar que não somos animais", disse ela.

No TED Talk de Jae, seu traje lhe dá a aparência de um ninja, mas, pessoalmente, não é ameaçador. Quando o experimentei, o terno de algodão, criado pelo estilista Daniel Silverstein, parecia um pijama pesado. A blusa tem botões de madeira e retalhos que cobrem o rosto e as mãos. Há várias fileiras de dois tipos diferentes de cogumelos que ajudam a decompor o tecido humano, devolvendo os nutrientes à terra por alguns meses. Do lado de fora, a costura imita padrões de dendritos com o micélio do cogumelo.

Design e tecnologia inovadora parecem ser um componente importante desses novos produtos da morte. Roger Moliné, 24 anos, cofundador da Bios Urn, começou uma campanha no Kickstarter depois que clientes pediram formas mais eficientes de monitorar a saúde das árvores que crescem de urnas biodegradáveis. A empresa levantou mais de US$83 mil para projetar uma incubadora que, através de um sensor instalado no solo, envia atualizações para um aplicativo personalizado. Cerca de 60 mil urnas foram encomendadas, além de 200 incubadoras.

Moliné, que opera a empresa em Barcelona, na Espanha, estima que 90 por cento dos pedidos são de clientes americanos.

"Os sensores agradaram aos consumidores que querem uma abordagem mais prática. Achamos que seria bom discutir o processo de morrer e a morte, ajustando-a às necessidades e exigências do século 21", escreveu ele em um e-mail.

O traje de cogumelo e a Bios Urn estão entre os poucos produtos que as pessoas podem de fato encomendar. Outros, que já chamaram muita atenção, não estão sendo produzidos. O projeto Capsula Mundi, criado por dois artistas italianos e apresentado em 2003, reuniu inúmeros seguidores on-line, interessados em ser enterrados em cápsulas com formato de ovo. As ideias e os projetos geraram inúmeras manchetes, mas ninguém foi enterrado dessa forma, segundo confirmação dos artistas, Anna Citelli e Raoul Bretzel. "O primeiro passo seria projetar uma urna em forma de ovo", disseram eles por e-mail.

Na verdade, há uma organização, o Conselho de Enterro Ecológico, que certifica se produtos como esses são ecológicos de fato. Kate Kalanick, a diretora-executiva, disse que o terno de Jae e a Bios Urn ainda não foram aprovados pelo conselho, que lista cerca de 30 produtos e fornecedores certificados.

Os projetos podem atrair curiosos sobre a morte, mas nem todos estão prontos para aceitar os trajes, urnas com árvores ou cápsulas em forma de ovo. Jae chegou até a receber algumas mensagens agressivas. "Espero que os cogumelos a comam mais rápido", um crítico escreveu em um e-mail.

Tendo em vista seus objetivos, ela viu isso como um elogio.

 

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