Time só de gays luta para quebrar estereótipos no futebol

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

É comum homossexuais não gostarem do esporte por traumas causados pelo preconceito

No início, 12 amigos se reuniam para jogar. Hoje são mais de 40

No início, 12 amigos se reuniam para jogar. Hoje são mais de 40 Foto: Henry Gherson

Toda quarta-feira, às 22h, no bairro do Ipiranga em São Paulo, alguns amigos se reúnem para jogar futebol. A diferença entre esse e outros grupos que se juntam para praticar o esporte mais popular no Brasil é que todos são homossexuais.

Bruno Host explica que, inicialmente, a ideia dele e de seu amigo, Filipe Marquezin, era só jogar futebol. "Só que, quando a gente começou a procurar pessoas para formar o time, escutamos muito dos gays 'mas jogar futebol? Futebol não é coisa de gay, vamos jogar vôlei'", lembra. Os dois perceberam que os motivos para essa resistência eram traumas vividos na infância.

"Muitos falaram que era porque sofriam homofobia na escola, ou porque eram ruins e aí, na escola, o xingamento não era só que era ruim, mas que era viadinho, que era frouxo, que não jogava igual homem", relata Bruno. Assim, eles decidiram criar um espaço para que os amigos percebessem que gays também jogam futebol e todos são bem-vindos.

Assim nasceu o Unicorns FC. No início eram 12 amigos e, agora, com maior visibilidade, são mais de 40 homens semanalmente reunidos para jogar futebol. Não há nenhum tipo de seleção para entrar na equipe, só um número máximo por causa da quadra. No entanto, com o aumento da procura, Bruno e Filipe pensam em reservar mais um espaço para que todos possam jogar sem esperar muito tempo.

Alvaro Souza da Silva é um dos jogadores do Unicorns. Quando se mudou de Porto Alegre para São Paulo conheceu a equipe por amigos e começou a frequentar os jogos. "Sempre gostei muito de jogar futebol, sempre joguei com pessoal da escola, joguei com time hétero, com pessoal do trabalho, sempre gostei muito de ir ao estádio, de acompanhar futebol", explica.

Para ele, o mais diferente deste ambiente para os times em que já jogou antes é a diversão. "Aqui a gente dá risada, a gente ajuda um ao outro a se organizar melhor no jogo, a gente ajuda na parte técnica e tática e a gente não se cobra, a gente não briga, a gente não critica a falta de habilidade do outro jogador", afirma. Alvaro diz que se sentia bastante cobrado quando estava em outras equipes. "Eu estou aqui para me divertir, para fazer amizade, conversar com o pessoal, não para ser o craque do jogo."

Bruno Host, 29 anos, foi quem teve a iniciativa de criar o time

Bruno Host, 29 anos, foi quem teve a iniciativa de criar o time Foto: Henry Gherson

Machismo e homofobia no futebol. Bruno aponta para a diferença de salários entre homens e mulheres que praticam o esporte profissionalmente para falar sobre o machismo no futebol.

Além disso, relembra o caso de Richarlyson, atualmente jogador do Guarani e ex-São Paulo, que teve problemas na carreira por ser julgado homossexual por torcedores. "De repente ele pode até ser, mas acho muito constrangedor como isso marca as pessoas de um jeito negativo."

"Acho que está começando a dar os passos [para melhorar], mas ainda é um ambiente muito machista. O pai quer que o menino jogue futebol porque é esporte de homem, o menino que joga mal, quando é xingado, os xingamentos são desprezando a masculinidade", opina.

Tanto Bruno quanto Alvaro rechassam os gritos homofóbicos nos estádios de futebol, como, por exemplo, quando o goleiro do time adversário bate um tiro de meta e toda a torcida grita 'bicha'. "Como se você ser gay fizesse você inferior a outra pessoa. É como você chamar o jogador negro de macaco, isso no futebol tem que acabar", pondera Alvaro.

Representatividade. Bruno sente falta de um jogador que bata no peito de assuma que é gay. "Acho que falta essa representatividade, porque quanto mais gente sai do armário, mostra que o gay é tão rico, quanto é pobre, quanto é jogador de futebol, bancário", para ele, dessa forma, a sociedade deixa de estranhar a homossexualidade.

"Você vai quebrando os estereótipos de que o gay é o cabeleireiro, o que faz arte e essas coisas. Você começa a mostrar que qualquer pessoas pode ser gay, que é uma questão de orientação, não tem nada a ver com caráter, com situação financeira, com nada, é uma característica da pessoa", opina. Questionado, Bruno diz não conhecer nenhum jogador brasileiro que seja assumidamente homossexual.

Na opinião de Alvaro, há dois tipos de representatividade que devem ser desenvolvidas: dos gays no futebol e também de homossexuais gostarem de futebol. "Geralmente, o pessoal gay no colégio gosta de vôlei, joga handebol e acaba não vendo o futebol como eu vejo, como uma paixão. Porque aquela homofobia, aquela opressão que tinha na escola acaba fazendo ele não se permitir ver o que o futebol é."