Shopping de São Paulo é acusado de racismo: 'Confundiram meu filho com mendigo por ele ser negro'

Marcel Hartmann e Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

O pai conta que passeava com seu filho no Shopping Pátio Higienópolis quando foi abordado por uma segurança, que perguntou: 'Este menino está te incomodando?'

Pai acusa que segurança do Shopping Pátio Higienópolis confundiu seu filho com um mendigo por ser negro.

Pai acusa que segurança do Shopping Pátio Higienópolis confundiu seu filho com um mendigo por ser negro. Foto: Marcio Fernandes/ESTADÃO

Na última sexta-feira, 2, o artista plástico Enio Squeff passeava com seu filho no Shopping Pátio Higienópolis, no centro de São Paulo, quando passou por uma situação desagradável: seu filho foi confundido com um mendigo. A história foi relatada no Facebook e já conta com centenas de compartilhamentos.

"Nós dois estávamos tomando chá num restaurante, conversando, e meu filho estava com o uniforme do Sion [colégio que fica próximo ao shopping], portanto não estava mal vestido. Chegou uma segurança, uma senhora, dizendo: 'Senhor, este menino está te incomodando?'. Respondi que não, e perguntei o motivo. 'É porque temos ordens de não deixar mendigos importunarem os clientes', ela respondeu. Então eu disse: 'Você está chamando meu filho de mendigo por ser negro?'. Ela disse 'não', eu repeti, e ela falou 'desculpa, essa são as ordens da casa, sou negra e tenho orgulho de ser negra'. Então eu falei: 'Se você tem orgulho de ser negra, não deve desculpas a mim, mas a sua família e a você, porque você está assumindo um racismo dos seus patrões, não sei em nome de quê", relatou o pai ao E+.

Squeff disse, porém, que coloca a culpa no shopping. "Ela ficou pedindo desculpas, eu disse que não tinha desculpa e ela que se desculpasse a ela mesmo. Se fosse homem, iria à auditoria. Mas como ela era mulher, ela deveria ser arrimo de família. E pensei que o shopping iria mandá-la embora, como se não fosse o próprio a dar essa ordem, afinal, não é a primeira vez que o shopping Higienópolis age assim. Uma vez, um casal de amigos negros ingleses da minha mulher foi seguido o tempo todo por seguranças lá. Aí você tem uma dimensão da coisa. Num bairro judeu, formado por uma comunidade que sofreu todas as consequências do racismo", disse o pai.

Na hora, a atitude do filho foi se afastar. Depois, o menino perguntou o que havia acontecido, e o pai apenas falou que a segurança havia dito algo que ele não tinha gostado. Posteriormente, Squeff contou o caso para a mãe do filho, que resolveu transformar isso num caso público. "Ela queria uma retratação pública", disse.

Na segunda-feira, 5, o shopping entrou em contato com a mãe para pedir desculpas. "Uma moça disse que o shopping não dava esse tipo de orientação e pediu desculpas. Mas a mãe do meu filho respondeu que não aceitava essas desculpas por telefone, que queria desculpas formais", relembra.

 Durante a conversa com a reportagem, Squeff reiterou diversas vezes que não quer que a funcionária seja demitida: "De jeito nenhum, tanto que não fui à auditoria, porque senti pena dela. Eu sabia que, cinicamente, a direção do shopping a mandaria embora, como eu acho que já devem ter feito. Eu não vou engrossar a fila de desempregados. Eu vi que ela estava cumprindo ordens".

Procurada, a assessoria de imprensa do centro de compras enviou uma nota por e-mail em que diz “que o Shopping Pátio Higienópolis  reforça que todos os frequentadores são sempre bem-vindos, sem qualquer distinção". A assessoria não quis informar, porém, se a segurança permanece no quadro de funcionários.