Ser mulher e viajar sozinha: independência e autoconhecimento apesar do assédio

Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

‘Viajar sozinha me deu uma coragem muito grande’, diz viajante que já visitou diversos países sem companhia

Mulheres relatam que, infelizmente, ainda é preciso pesquisar bastante sobre os países de destino antes de decidir se aventurar sozinha.

Mulheres relatam que, infelizmente, ainda é preciso pesquisar bastante sobre os países de destino antes de decidir se aventurar sozinha. Foto: Pixabay

Uma viagem independente é uma experiência de autoconhecimento e desafiadora - principalmente para mulheres, que são mais propensas a situações de assédio e violência. De acordo com o Airbnb, as brasileiras são a segunda nacionalidade de mulheres que mais viajam sozinhas - atrás apenas do Japão; em seguida, vem a Rússia. 

A escritora e empresária Jana Rosa é uma dessas mulheres. Seu primeiro destino sozinha foi a Espanha, para um intercâmbio e, desde então, já visitou diversos países. Ela relata ter vivenciado situações de perigo em alguns destinos por ser mulher. 

"Me perseguiram no México algumas vezes por estar sozinha. Um homem me acordou no ônibus no meio da noite para me falar que eu era muito bonita e eu dei um grito que acordou o ônibus inteiro. Na Bolívia, um cara passou a mão na minha bunda e eu dei um soco nele, depois chorei de medo dele se vingar. Na França, um cara me seguiu a noite e tive que pedir ajuda para um casal me levar em casa, essa coisas que acontecem todo dia na nossa vida no Brasil, infelizmente", contou.  

Já Cecília Gomes, estudante e criadora do site Vai Viver, viajou pela primeira vez sozinha em 2013, quando foi para a Bélgica, onde morou por seis meses. "Ouvi várias vezes que era perigoso! Mesmo quando eu dizia que ia com mais uma ou duas amigas, algumas pessoas me diziam que não importava, que continuava sendo perigoso porque eram só mulheres", disse.

"Me senti insegura algumas vezes, mas a pior de todas foi quando eu estava andando por uma rua bem comercial de Leuven (Bélgica) e um homem se aproximou de mim, parecendo que ia pedir informção, falando uma língua que eu não conhecia. Ele foi se aproximando tanto e cada vez mais rápido que eu me senti constrangida e recuei. Quando eu desviei meu caminho na direção oposta a ele, ele começou a me olhar de uma maneira muito estranha, mandar beijos e fazer gestos obcenos. Tentou me seguir por alguns metros, até que desisitiu. Um detalhe é que, nesse assédio que sofri, eu estava vestida dos pés à cabeça, era o auge do inverno europeu... Impossível colocar a 'culpa' nas minhas roupas", relembra Cecília. 

Vídeo da Campanha #ITravelAlone (EuViajoSozinha)

Mas os desafios não são capazes de desencorajar as viajantes, e grupos de apoio foram criados em prol de ajudar mulheres que querem viajar sozinhas. O site WorldPackers, uma plataforma de relacionamento para viajantes, criou o movimento #ITravelAlone. Nas redes sociais, mulheres usam a hashtag para dar dicas e depoimentos sobre viagens. A campanha virou um guia em livro, que pode ser baixado online em português inglês, espanhol. No guia, há dicas sobre o que fazer antes, durante e depois da viagem. Segundo o site, a plataforma conta com mais de 251 mulheres cadastradas, de 93 países diferentes. Alguma das dicas que o guia dá são: tentar ficar em locais públicos e abertos, observar muito o local em que se anda e ter cuidados redobrados com transportes públicos e táxis. 

Ao viajar sozinha, qualquer pessoa deve ter muito cuidado, mas, no caso das mulheres, alguns cuidados específicos são essenciais. "A dica que dou é conhecer a cultura do local para o qual você está indo. Conhecer os costumes e hábitos das pessoas é fundamental para evitar ou amenizar alguns ataques de assédio, pois nós, mulheres, saberemos nos 'adequar' aos padrões destes lugares. Por mais que isso não seja o ideal, ainda é um jeito de proteger nossa integridade física e emocional", diz Cecília.

Jana concorda, e diz que a pesquisa pré-viagem é essencial: "Primeiro, pesquisar o local que vai e saber se ele é conhecido por não ser seguro. Eu já desisti muitas vezes nessa hora. Mas em todas vale o mesmo, os cuidados são parecidos com viver em São Paulo, no geral: evitar andar em lugares muito desertos, jamais andar em ruas escuras, não dar conversa para qualquer um que se aproxima na rua, ficar bêbada só perto de pessoas com quem já conversou antes na viagem e que podem te ajudar caso precise, não entrar em carros com estranhos indo para uma festa que não sabe onde é", indica. 

Tomando cuidados básicos, viajar sem companhia pode trazer grandes descobertas sobre si e sobre o mundo - e ainda render novas amizades com maior facilidade. “Viajar sozinha me deu uma independência e coragem muito grandes em tudo na vida e aprendi muito sobre quem eu sou, do que realmente gosto, quais são os meus valores. Perdi também medos de fazer as coisas sozinha no dia a dia, como jantar sozinha, ir a um show sozinha, a baladas. Em São Paulo não faço mais tanto essas coisas porque tenho muitos amigos perto, mas uma vez por ano viajo sozinha para me reconectar comigo. É importante porque a experiência da viagem é só sua, você não comenta com ninguém o tempo todo, então sente as coisas de um jeito mais verdadeiro. Também amo conhecer pessoas em viagens assim, que podem ficar na minha vida algumas horas ou continuar nela depois. Fiz amigos de verdade viajando, com os quais falo até hoje”, finaliza Jana.