Quando a responsabilidade encontra a tristeza

Barton Goldsmith - Tribune News Service

É um milagre que hoje existam esses excelentes métodos de diagnóstico para nossos cães (para nós também), mas às vezes você não quer ouvir o resultado

Foto: Pixabay

Minha cachorrinha Mercy ficou cega e uma operação de catarata era complicada por causa da idade dela, pois já é velhinha e me preocupava com os possíveis efeitos colaterais. Mas ela estava tão deprimida por não enxergar que achei que tinha de fazer alguma coisa. Depois de uma cirurgia bem sucedida demorou algum tempo para ela se curar, por causa de complicações, mas estava muito mais feliz por conseguir ver de novo. Cheirar o piso da cozinha é seu hobby predileto, o que ela deixara de fazer quando ficou cega. 

Na semana passada ela parou de comer pela manhã e já não ficava cheirando pela cozinha. Então levei-a ao veterinário, que realizou alguns testes e por medida de segurança, receitou um antibiótico. Sabia que Mercy era sensível a remédio, mas o veterinário me assegurou que o medicamento tinha poucas implicações. Infelizmente não foi o que ocorreu com ela e depois de um dia apenas tivemos de suspender a medicação. Nessa ocasião, Mercy estava mais debilitada, por isso decidimos fazer um exame de sangue.

É um milagre que hoje existam esses excelentes métodos de diagnóstico para nossos cães (para nós também), mas às vezes você não quer ouvir o resultado. Depois do exame de sangue tive de esperar e em seguida a veterinária nos chamou na outra sala. 

Com lágrimas nos olhos, ela nos informou que Mercy estava com uma deficiência real provocada por um câncer e que esse era o começo do fim. A veterinária estava ciente do que passamos durante o ano e o quanto eu amava minha cachorrinha, e me abraçou. 

Agora começamos a aplicar injeções em Mercy: já fiz isto antes e não é nada agradável, mas pelo menos nós a mantemos tranquila enquanto quiser continuar neste mundo. Não sei quando ela morrerá, mas certamente sentirei muito.

Em uma visita recente a veterinária disse-me que em sete anos havia visto somente três pessoas tratarem assim seu animal. As demais simplesmente as colocavam para dormir, mas eu não consigo fazer isto com esta criatura que não está com dor e ainda quer ficar por aqui. Quando isto mudar, daremos o próximo passo. 

Uma parte de mim questiona se ela estaria bem se não tivesse feito a cirurgia de catarata ou se fiz alguma coisa errada. Mesmo que ela esteja de fato muito mais feliz por conseguir enxergar, sinto que cometi algum erro em determinado momento. E no fundo, sei também que Mercy teve o melhor dos cuidados desde o dia em que a socorri. Quando decidimos melhorar a qualidade das nossas vidas, assumimos o risco. Isto ensinou-me que, depois de anos de dor, alguns meses de felicidade fazem uma grande diferença. É o que sempre me lembrarei no futuro.

Se um cliente me procura com este problema, digo que depois de amar um animal por mais de uma década, você não pode fazer nada senão lhe dar uma vida ótima que nunca ele teria sem você. É o que digo para mim também.

Agora meu foco é tentar que Mercy coma alguma coisa e quando ela come fico aliviado. Você deveria ver a variedade de alimentos que coloco à sua frente na hora da sua refeição. Nunca sei o que vai interessá-la. Abandonei seu café da manhã costumeiro pelo qual há algumas semanas apenas ela ficava ansiosa. Agora ofereço um leve brunch de qualquer coisa que ela irá aceitar e depois tentamos o juntar. Ela fica mais animada a comer quando estamos cozinhando, de modo que agora aprendi uma nova profissão - chef gourmet de cachorrinhos.

Há uma tristeza geral em toda a casa, mas sei que temos de seguir em frente na vida. Na verdade gostaria que o mundo parasse e eu pudesse ajudá-la na sua transição para o próximo plano. Nunca acreditei em paraíso ou inferno, mas saber que poderia um dia ver meu cãozinho novamente permite-me ter algo a que me apegar e observá-la passando por isto é um inferno, portanto espero que paraíso e inferno existam. Quando encaramos a morte com frequência nos tornamos mais espiritualistas e isso só pode trazer mais paz quando chegar o momento. Mas não importa, você não consegue fugir dos sentimentos que isto implicará.

Tudo o que podemos fazer é desfrutar os momentos preciosos que passamos com alguém quando está pronto para sua última jornada. Ela ainda está por aqui e não sofre, portanto acho que estamos fazendo a coisa certa. 

Tradução de Terezinha Martino