Pesquisadora explica como o Tinder e outros apps ajudam a empoderar mulheres

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Lígia Baruch estudou em seu doutorado o uso dos aplicativos, principalmente entre as mulheres mais velhas

   

    Foto: REUTERS/Mike Blake/Illustration

A possibilidade de fazer um pré-seleção nos ‘contatinhos’ do conforto de casa, sóbria e sem nem pensar em ter que se arrumar para a balada tem atraído mulheres - inclusive mais velhas - para os aplicativos no estilo do Tinder e do Happn, explica a psicóloga Lígia Baruch, que estudou o tema em seu doutorado na PUC-SP.

“As buscas amorosas sempre existiram, mas com os aplicativos isso fica mais visível. Há uma comercialização dos acessos, as pessoas são quase como ‘mercadorias’ - não em um sentido negativo, mas é como a entrada do capitalismo na esfera afetiva”, defende. 

Não entendeu como o capitalismo se aplica ao amor? Lígia explica que, além de os aplicativos literalmente ganharem dinheiro, “há também uma necessidade de negociação, que é melhor para os relacionamentos do que o amor romântico. É preciso negociar diferenças, espaços. A relação é tratada como construção, como parceria.” 

Dessa forma, o amor ‘romântico’ pode dar lugar a um relacionamento mais prático, que não reproduz os papéis antigos de homem e mulher. “Quando a gente falava em um ‘complementar’ o outro, e se esquecia de falar da diferença de poder. [...] Na visão mais racionalista e pós-moderna do indivíduo, cada um só fica no relacionamento enquanto estiver bom”, explica a psicóloga. 

Lígia pondera que experiências ruins sempre vão surgir. Nesses casos, é só dar um ‘X’ e seguir em frente. Quando o app começa a causar ‘dependência’, ou seja, se você já não consegue mais se ver sem ele, melhor apagar. Afinal, as pessoas já se relacionavam antes dos aplicativos. “É só mais uma forma de encontrar alguém. Não é a única, nem necessariamente a melhor”, diz Lígia. E, para quem ainda olha torto para os relacionamentos que começam virtualmente, ela tem um pedido. “A sociedade tem que olhar de uma forma menos preconceituosa. Em vez de ficar repetindo o que a massa repete, se dispor a aprender sobre isso.”

Não é só ‘pegação’. Os aplicativos podem ser usados com diversos fins, defende Lígia. Ela identificou que há mulheres mais curiosas, que entram no app para entender como ele funciona e agem quase de forma antropológica, compreendendo esse novo ambiente. Há também as românticas, que estão procurando relacionamentos duradouros e já sabem o que querem, portanto, vão direto ao ponto e buscam homens que têm os mesmos objetivos. Um terceiro tipo de uso seria o recreativo, comum entre as mulheres que já estão satisfeitas com as outras áreas de suas vidas e abertas a novas experiências.

Saúde. Lígia defende que uma vivência mais diversa é algo muito positivo para as mulheres, desde que isso seja feito com responsabilidade. Dirceu Adriano de Castilho, ginecologista da Clínica Fares, ressalta que não é possível fazer uma relação direta do aumento do uso dos apps com um aumento no número de casos de sífilis e HPV no Brasil, mas que é seguro dizer que há influência. 

“Há uma parte da população que nos procura por ter uma preocupação com isso. A gente percebe que há uma busca muito grande por informação”, avalia o médico. “As pessoas estão optando por permanecer solteiras e com a vida sexual mais livre. O importante é realmente se preocupar. Não relaxar na prevenção e fazer os exames ginecológicos anualmente. Se houver alterações nos resultados, pode ser reduzido para seis meses.”

A psicóloga Lígia Baruch esteve aqui no Estadão para conversar conosco sobre sua pesquisa. Assista à entrevista completa:

O livro Tinderellas: o amor na era digital será lançado nesta sexta-feira, 24,às 18h. Haverá um bate-papo e sessão de autógrafos no Teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O livro é um desdobramento da tese de doutorado de Lígia e tem coautoria de sua orientadora, Rosane Mantilla de Souza.