Os rabinos vieram inspecionar a maconha (legalizada)

Rachel Abrams - The New York Times

Agora que a legalização da maconha medicinal se espalha pelos Estados Unidos, os empresários estão muito imaginativos

Na plantação Vireo Health of New York, em Johnstown, Nova York, Emily Errico, técnica de cultivação, explica o processo de secagem da droga

Na plantação Vireo Health of New York, em Johnstown, Nova York, Emily Errico, técnica de cultivação, explica o processo de secagem da droga Foto: JR Delia/ The New York Times

Os rabinos nunca haviam inspecionado uma produção de maconha medicinal antes.

Chegaram aqui na fábrica da Vireo Health, em Nova York, cerca de uma hora a noroeste de Albany, procurando por evidências de que os produtos da empresa mereciam certificação kosher. Acabariam dando sua aprovação, mas não antes de fazer perguntas difíceis, a começar pela sala onde fileiras e mais fileiras de plantas estavam penduradas de cabeça para baixo para secar.

"Foi aqui que eles começam a ficar preocupados", recordou Ari Hoffnung, executivo-chefe da empresa, porque as regras nas quais eles estão mais focados são aplicadas depois que a planta está seca.

Agora que a legalização da maconha medicinal se espalha pelos Estados Unidos, os empresários estão muito imaginativos: loções, alimentos sem glúten e muitos outros produtos de nicho chegaram ao mercado. As empresas também encontraram maneiras criativas para lidar com a colcha de retalhos do comércio interestadual, da tributação e da movimentação bancária.

Portanto, poucas coisas sobre essa indústria incipiente são uma surpresa, mas maconha kosher?

Bom, negócio é negócio, quer sejam os widgets ou a cannabis, e qualquer vantagem competitiva é bem-vinda.

"Estamos vendo empresas que procuram um modo criativo para se destacar, mas também maneiras interessantes de apelar a diferentes tipos de consumidores", disse Taylor West, diretor-adjunto da Associação Nacional da Indústria de Cannabis.

A Vireo, subsidiária da Vireo Health, é uma das pelo menos duas empresas com o objetivo de vender produtos de maconha medicinal kosher, como tinturas ou óleo de cannabis. A União Ortodoxa, um dos grupos judaicos mais proeminentes dos Estados Unidos, lhe deu sua primeira certificação de maconha medicinal, em janeiro. Outra empresa, a Cresco Labs em Illinois, está em fase final para obter sua certificação de uma organização local de rabinos.

A fábrica da Vireo daqui parece uma prisão e tem cheiro de dormitório estudantil. O local já foi o Centro Residencial Tryon, um prédio do governo para jovens problemáticos que fechou há vários anos. A ironia não passa despercebida para Hoffnung ou seus funcionários.

Quando verificavam as antigas salas de aula onde centenas de plantas de maconha agora crescem, Hoffnung explicou que os rabinos basicamente se preocupavam com o que acontece no final do processo de fabricação e foi por esse motivo que a secagem das plantas os deixou desconfiados. Eles precisavam saber quais produtos químicos a Vireo usava para extrair o óleo de cannabis. Que tipo de cápsula era utilizado?

Fumar maconha por si só não é um problema, pelo menos não do ponto de vista da dieta kosher, porque as regras se aplicam a alimentos e bebidas. Os produtos ingeridos de alguma forma, por outro lado, são outra história.

Os ingredientes não devem entrar em contacto com alimentos proibidos, como carne de porco ou insetos, e as restrições se estendem até o fim da cadeia de distribuição.

Todos os ingredientes de um brownie de maconha, por exemplo, precisam ser kosher. As folhas, quando ingeridas, precisam vir de uma planta livre de pragas. As cápsulas gelatinosas de maconha não podem ser feitas de gelatina de porco. Também existem regras para o equipamento que processa os alimentos kosher. Os produtos da Vireo que foram certificados pela União Ortodoxa podem receber o selo "OU" em suas embalagens e devem ser submetidos à inspeção periódica pelos rabinos do grupo.

"Nós literalmente os levamos a cada centímetro quadrado da instalação", disse David Ellis, vice-presidente executivo de operações da Cresco Labs. O Conselho Rabínico de Chicago visitou a Cresco em março e disse que estava na fase final da emissão de uma certificação kosher que irá abranger tudo, desde as barras de chocolate até os concentrados.

O tratamento médico que pode salvar vidas é uma exceção às regras kosher. Um medicamento contra o câncer feito de grilos enrolado em bacon, por exemplo, não teria problemas. Porém, mesmo que muitos pacientes usem maconha medicinal para tratar sintomas de doenças graves, os produtos de cannabis muitas vezes não são considerados curativos.

Eles certamente terão um nicho de mercado, como parte de uma indústria em expansão. Espera-se que as vendas legais de maconha subam para US$ 5,7 bilhões este ano, valor que foi de US$ 4,4 bilhões em 2015, de acordo com um relatório do banco de investimento Ackrell Capital. O uso recreativo da maconha é legal em quatro estados e no Distrito de Columbia, enquanto a maconha medicinal é permitida em outros 19.

Emily Errico checando a plantação

Emily Errico checando a plantação Foto: JR Delia/ The New York Times

A indústria ainda enfrenta uma série de desafios porque o governo federal considera a maconha uma droga ilegal. Muitos bancos se recusam a trabalhar com empresas desse ramo, o que leva a histórias de porta-malas cheios de dinheiro e transferências monetárias disfarçadas. E essas companhias não podem aproveitar alguns dos incentivos fiscais destinados a pequenas empresas.

A Vireo gastou milhares de dólares na sua certificação kosher - Hoffnung se recusou a dizer quanto, pois vê o processo como um pequeno passo na marcha da maconha medicinal em direção à aceitação popular. Ele espera que o endosso de uma organização de rabinos contribua para uma receptividade por uma faixa mais ampla de consumidores.

"Não há dúvida de que o número de pacientes que desejam produtos kosher, juntamente com a luta contra o estigma associado à maconha medicinal, fez disso um sábio investimento econômico."

Representantes da União Ortodoxa e do Conselho Rabínico de Chicago, que inspecionaram a Cresco, disseram que a ideia da maconha medicinal kosher gerou muitos debates internos e que somente ela seria certificada, não produtos para o mercado de lazer.

"Decidir pela certificação do processo não foi fácil", disse o rabino Moshe Elefant, diretor de operações da divisão kosher na União Ortodoxa.

Mas o rabino Sholem Fishbane, administrador das leis kosher do Conselho Rabínico de Chicago, disse que agora espera receber mais pedidos.

"O que eu achei que seria, sei lá, talvez uma tarde divertida, acabou sendo um monte de lições sobre o que é kosher", disse ele sobre a inspeção.