Oficina de desprincesamento chega a São Paulo e questiona padrões de gênero

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Inspirado em iniciativa chilena, curso quer mostrar que as meninas podem ser quem quiserem

Oficina defende que as meninas possam escolher o que querem ser

Oficina defende que as meninas possam escolher o que querem ser Foto: Léo Souza/Estadão

O que é ser menina? Um dos primeiros questionamentos da oficina de desprincesamento coloca em discussão diversos estereótipos que as garotas enfrentam. Com o objetivo de apresentar alternativas ao modelo de 'princesa' imposto sobre as garotas, o curso chegou a São Paulo nesta semana.

"Nossa ideia é mostrar que a mulher tem muito mais a oferecer do que só ser bonita e cuidar bem da casa. Se ela quer fazer isso, não tem problema nenhum. O que queremos é que ela tenha escolhas, para que, quando optar por uma coisa, seja de forma bem pensada", explica Mariana Desimone, jornalista e uma das criadoras da oficina de desprincesamento no Brasil. 

A ideia surgiu em reação à 'Escola de Princesas' que ensina, entre outras coisas, etiqueta, culinária e 'como se guardar para um homem'. "Elas precisam receber outros modelos para poderem de fato escolher livremente. Se eu só apresento uma opção, não estou dando liberdade para as meninas", diz Larissa Gandolfo, pedagoga, mestre em Filosofia da Educação e também criadora da oficina no Brasil.

Dinâmica. Sentadas no chão, com roupas confortáveis e sem sapatos, as garotas discutem o que é ser menina, o que é ser princesa, falam sobre autoimagem, violência contra a mulher e outros temas. "A gente sempre ouve que tem que ter cabelo longo, tem que usar roupas discretas e ser discreta. (...) As pessoas falam bastante, dão muito pitaco na vida dos outros, e no fundo você sente. Você vai ficar com aquilo (na cabeça)", diz Julia Magalhães Freitas de Oliveira, de 12 anos, uma das participantes da oficina.

A primeira conversa serve exatamente para discutir o que sociedade espera e impõe sobre as garotas, segundo Larissa. "Quando elas descrevem a ideia do que é ser menina, isso coincide muito com a ideia do que é ser princesa", relata. 

Cartazes com as percepções das garotas sobre o que a sociedade espera das meninas, o que é ser princesa e o que elas realmente querem

Cartazes com as percepções das garotas sobre o que a sociedade espera das meninas, o que é ser princesa e o que elas realmente querem Foto: Estadão

A iniciativa é nova no Brasil, mas surgiu na cidade de Iquique, no norte do Chile, como uma ramificação de um curso criado pelo Escritório de Proteção de Direitos da Infância. Inicialmente, escolas recebiam instrutores para discutir assuntos como discriminação e tolerância com os alunos. "As meninas mostravam interesse por temas que não eram tratados nos grupos mistos, mais relacionados aos seus corpos, à prevenção em situações de abuso sexual", relata Jendery Jaldin, uma das psicólogas encarregadas da oficina.

A partir dessa percepção, Jenderey se uniu a dois colegas - Lorena Elizabeth Cataldo Muñoz, também psicóloga, e Yuri Bustamante, sociólogo - para criar a primeira oficina de desprincesamento. "Como a oficina ganhou muita cobertura da imprensa, até internacional, solicitou-se como política pública que ela seja praticada em todos os lugares que tenham oficinas de proteção dos direitos da infância no Chile", afirma Lorena. "Foi colocado como meta que se realize pelo menos uma vez por comuna (346 subdivsões administrativas do País, agrupadas em 54 províncias)", completa. Larissa e Mariana entraram em contato com o grupo chileno e receberam treinamento para replicar a ideia aqui no Brasil. 

Uma das atividades propõe que as garotas examinem seu rosto no espelho e depois recriem a imagem em argila. A professora pede que elas reflitam: 'O que é ser bonita?', 'Eu sou bonita?', 'Isso que eu acho que é ser bonita é uma ideia que eu criei - veio de mim - ou eu aprendi com alguém?'.

Uma das atividades propõe que as garotas examinem seu rosto no espelho e depois recriem a imagem em argila. A professora pede que elas reflitam: 'O que é ser bonita?', 'Eu sou bonita?', 'Isso que eu acho que é ser bonita é uma ideia que eu criei - veio de mim - ou eu aprendi com alguém?'. Foto: Léo Souza/Estadão

Joyce de Chiara explica que inscreveu a filha Gabriela na oficina porque acha importante que a garota tenha contato com diferentes visões. "Não é porque eu acredito em alguma coisa que eu quero que ela siga aquilo. Eu acho que ela tem que ter uma noção de tudo e ver o que mais a agrada, formar uma opinião diferente", diz. 

Temas. Apesar da grande procura, Mariana explica que apenas 15 vagas foram abertas. Assim, as meninas tendem a ficar mais à vontade para tratar de temas delicados, como violência contra a mulher. 

"Lidar com essa questão é um desafio em qualquer ambiente. Se nós tivéssemos apenas mulheres adultas aqui já seria um desafio. A mulher ainda é culpabilizada pelas situações de violência pelas quais ela passa", diz Larissa. Segundo uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgada este ano, um em cada três brasileiros acredita que "mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada". 

Gabriela de Chiara, filha de Joyce, tem apenas 13 anos e apresenta argumentos sólidos para rebater. "Se está calor eu vou usar short. Eu não vou ficar me prendendo, sabe? Eu vou usar short porque eu sei que vai acontecer (assédio) mesmo assim. Usando calça, ou short ou um vestido. Vai acontecer".  

A garota tem propriedade para falar sobre o assunto. Segundo o levantamento da ONG Think Olga, com base nos depoimentos de mulheres a partir da hashtag #PrimeiroAssedio, as meninas começam a lidar com esse tipo de agressão entre 9 e 10 anos de idade no Brasil. 

Por isso, uma das sessões da oficina é de defesa pessoal. As garotas aprendem a conhecer seus corpos e se defender de possíveis situações de violência. Alguns dos outros temas tratados no curso são o amor romântico e o machismo na música. Grandes personalidades como Malala, Frida Kahlo, Pagu, Clarice Lispector e Violeta Parra também são apresentadas às meninas.

Segundo o material apresentado pela oficina chilena, 'desprincesar' seria, portanto, colocar as garotas em papel ativo na desconstrução de uma ideia que as 'limita' e reforça a desigualdade de gênero. 

Gabriela, por exemplo, já faz parte da luta. "Uma princesa não tem seu jeito. Ela não agrada a si mesma. Eu, sendo do jeito que eu sou, do jeito que eu quero ser, eu me agrado. Para mim é melhor assim". 

 

Veja os depoimentos das meninas sobre o primeiro dia de curso:

 

Serviço

A primeira oficina acontece nos dias 4, 10 e 11 de dezembro, em São Caetano do Sul. Quem não conseguiu participar pode ficar atento à página do Desprincesamento no Facebook para mais informações e novas edições. 

Está programada para 28 de janeiro do próximo ano uma palestra sobre desprincesamento no Coletivo Bombo (Rua Dr. Elísio de Castro, 77, Ipiranga). Novas informações também serão publicadas na página do Desprincesamento no Facebook.