Oficina culinária ajuda desenvolvimento de crianças com deficiência

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

Pacientes são orientados por uma equipe com psicóloga, terapeuta ocupacional, fonoaudióloga e nutricionista

Na oficina, as crianças têm aulas sobre os alimentos e, depois, cozinham 

Na oficina, as crianças têm aulas sobre os alimentos e, depois, cozinham  Foto: Divulgação/ Cejam

Luiz Fernando Santos Lima tem oito anos e sua mãe, Sandra, ainda não tem o diagnóstico correto do filho. Os médicos acreditam que ele tenha encefalopatias e espectros de autismo interrogados. Segundo sua mãe, o menino tinha dificuldades de lidar com suas emoções e de ficar em grupo.

"Ele sempre teve dificuldade de ficar com mais de uma criança, ele era muito focado. Na escola ele fazia uma amizade e, se a criança ficasse doente, ele não queria ir para escola. Agora não, ele consegue ficar num grupo maior, fazer novas amizades", relata a mãe.

E como Luiz Fernando conseguiu progredir? Em um curso de culinária. Sandra assume que, no início, não colocava muita fé no tratamento alternativo, mas, depois de seis meses, vê resultados expressivos.

"Logo quando ele começou já fazia outro tipo de tratamento, um mais convencional, com os mesmos profissionais, exceto a nutricionista. Mudaram ele de grupo e foi para esse grupo de culinária", explica. A equipe do Centro de Reabilitação é formada por  psicóloga, nutricionista, fonoaudióloga e terapeuta ocupacional. "Achei estranho no começo, confesso que achei que não ia ajudá-lo, mas vi que tem ajudado muito. Ajudou muito em questões como iniciativa, ele não tinha iniciativa para nada."

Luiz Fernando, de oito anos.

Luiz Fernando, de oito anos. Foto: Acervo Pessoal/ Sandra Santos

Por incrível que pareça, a oficina de culinária terapêutica desenvolvida com crianças com deficiência física e intelectual é um serviço público, do Sistema Único de Saúde (SUS), gerido pela instituição social e de saúde Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (Cejam).

Ana Paula Ribeiro Irakawa, psicóloga responsável pelo grupo diz que, até agora, duas turmas já participaram do curso, que tem duração de seis meses. Eles se encontram uma vez por semana e passam uma hora juntos e são, aproximadamente, seis participantes.

"Ela [a oficina] surgiu porque a gente vê que as crianças tinham dificuldade de fazer terapia convencional e a gente pensou em fazer com crianças que tinham também dificuldade com alimentação", explica.

Segundo Karla Dias Tomazella, nutricionista que acompanha o grupo, crianças autistas podem ter problemas de seletividade alimentar. Ao conhecerem melhor a comida, eles passam a se interessar e se dispõem e provar alimentos novos e diferentes.

Para além da alimentação, as crianças que participam têm a oportunidade de desenvolver as questões motora e emocional. "A gente trabalha a autoestima, a autonomia e a comunicação", esclarece a psicóloga. "Muita crianças com deficiência ficam mais isoladas, não falam muito. Na cozinha, eles precisam pedir coisas um para o outro."

A cada semana os alunos da oficina desenvolvem um prato diferente e cada criança é responsável por levar um ingrediente, com o objetivo de ensiná-los sobre responsabilidade. Antes de colocarem a mão na massa, eles têm uma aula sobre os alimentos que serão usados e a importância deles para o organismo de forma lúdica, como explica Karla.

As necessidades alimentares de cada uma das crianças também é atendida na oficina. Alguns precisam engordar, outros emagrecer, enquanto certas crianças têm seletividade alimentar. A impressão da nutricionista é que o trabalho tem funcionado. "Dá para observar pelo relato dos pais, a gente sempre tem um feedback no final do atendimento", opina.

Na opinião da nutricionista, a oportunidade de as crianças higienizarem os alimentos, colocarem a mesa e cozinharem torna atividade bastante diferente do que eles estão acostumados, "porque eles não têm esse estímulo em casa".

O Centro de Reabilitação atende moradores da região do M'Boi Mirim e a faixa etária das crianças atendidas é de cinco a 12 anos. A equipe trabalha com pacientes com deficiências física, auditiva, intelectual e visual.