Música na infância melhora o desempenho escolar e a autoestima

João Paulo Carvalho - O Estado de S.Paulo

"A inserção da criança ao mundo da música faz com que ela lide melhor com as impressões mais difíceis de cada ciclo da vida"

Os irmãos Hassan Saad ( baixista) e Zein Saad ( na bateria) se ajudam durante as aulas de música

Os irmãos Hassan Saad ( baixista) e Zein Saad ( na bateria) se ajudam durante as aulas de música Foto: JF Diõrio/Estadão

Estudos científicos recentes mostram que o aprendizado de um instrumento musical ainda na infância pode ajudar na assimilação de conteúdos de diversas disciplinas escolares. Além disso, a musicalização infantil melhora a concentração, a autoestima e a capacidade de raciocínio lógico. "Quando a criança tem um contato precoce com a música, ela, automaticamente, desenvolve melhor suas relações socioemocionais. Isso inclui a diminuição da ansiedade, déficit de atenção e a prevenção de transtornos mais graves", afirma o neurologista e neuropediatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Mauro Muszkat.

De acordo com o médico, a relação estimula regiões específicas do cérebro, que são ativadas especialmente no estudo de matérias como língua portuguesa e matemática. Esses conteúdos, portanto, também atuam no processamento e na produção de sentido e emoção da música. "A música tem potencial para facilitar o neurodesenvolvimento, tanto na funções cognitivas quanto nas modulações relacionadas à questão emocional. A inserção da criança ao mundo da música faz com que ela lide melhor com as impressões mais difíceis de cada ciclo da vida", complementa o médico.

Hassan Saad, 10, toca baixo há quatro meses. Fã de Beatles, Kiss e AC/DC, o garoto, que antes tinha problemas de concentração e muitas vezes não conseguia terminar o dever de casa, hoje é um estudante muito mais focado nas aulas. "Ele não conseguia prestar atenção nos professores. Quando chegava do colégio, na parte da tarde, não terminava a lição. Hassan apresentava dificuldades para ler o problema e resolvê-lo. A música deu disciplina a ele", diz a mãe Carolle Saad. 

O interesse de Hassan pela música começou em janeiro, quando o menino foi matriculado no curso de música de curta duração em uma escola na zona sul da capital paulista. "São apenas quatro meses, mas o avanço é notório. Hoje ele consegue se socializar de maneira mais saudável com as outras crianças. Hassan também desenvolveu um senso de cooperação muito grande. Ele é mais prestativo e solidário com os colegas de turma", afirma a mãe, que também matriculou o irmão mais novo, Zein Saad, 8, na aula de bateria. "A melhora é perceptível quando os dois decidem tocar juntos. Um ajuda o outro com o ritmo de cada música", complementa.

Música na escola. A importância da música na grade de educação básica já foi formalizada pelo governo em 2008, com a sanção da Lei n° 11.769, que torna obrigatório, mas não exclusivo, o ensino da disciplina na educação básica. A música, portanto, pode ser integrada a outras matérias sem a obrigatoriedade de ser específica. 

Segundo a pedagoga e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Neide de Aquino Noffs, questões como conteúdo e a falta de profissionais capacitados para o ensino da disciplina nas escolas ainda devem ser pontualmente debatidas. "Há uma discussão sobre quem deve lecionar música nos colégios. Estão habituados a relacionar musicalidade à cantigas infantis, o chamar cantar alegremente na escola. Essa visão precisa ser modificada. Portanto, eu entendo música apenas como alguém que canta na escola? A musicalidade é essencial para o desenvolvimento da pessoa e vai muito além deste conceito", ressalta a educadora.

Ainda de acordo com a profissional da educação, o Brasil tem um modelo musical arcaico. Para ela, o País precisa rever seus conceitos e implantar um novo método educacional destinado à música. "A música em nosso País ainda não possui um modelo muito sério e claro. Nós não temos a educação do ouvir, como acontece nos Estados Unidos ou em outros países da Europa. E isso, certamente, altera toda a base", conclui a professora.