Jovens não são tão inconsequentes com dinheiro quanto você pode pensar

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Especialistas explicam que hábitos de consumo mudaram por diversas questões comportamentais

Milionário disse em programa de TV australiano que jovens precisam parar de gastar tanto com cafés caros e torradas de abacate, se quiserem comprar um imóvel.

Milionário disse em programa de TV australiano que jovens precisam parar de gastar tanto com cafés caros e torradas de abacate, se quiserem comprar um imóvel. Foto: Pixabay

“Nós estamos em um momento em que as expectativas das pessoas mais jovens são muito, muito altas. Elas querem comer fora todos os dias, elas querem viajar para a Europa todos os anos”, opinou recentemente o magnata do setor imobiliário Tim Gurner no programa de TV australiano 60 Minutes.

Não é surpresa que a afirmação tenha causado revolta entre os jovens. Para piorar, Gurner provocou uma geração inteira ao colocar como vilão da poupança um dos lanches preferidos da Geração Y (os Millenials, que nasceram a partir dos anos 1980) norte-americanos: as avocado toasts. “Quando eu estava tentando comprar a minha primeira casa, eu não ficava comprando [torradas com] abacate por 19 dólares e quatro cafés por 4 dólares cada”, disse. 

Depois, ele chegou a admitir que recebeu um empréstimo de 34 mil dólares de seu avô para dar uma mãozinha nos negócios. 

A repercussão da entrevista na mídia mundial e nas redes sociais foi quase imediata.

Diversos veículos estrangeiros, como o New York Times, checaram se, de fato, seria possível comprar um imóvel atualmente com as economias de torradinhas gourmet, cafés caros e supostas viagens anuais à Europa. Spoiler: a resposta é não. É claro que cada centavo conta, mas, para resumir, o NYT avaliou que os Millenials gastam muito pouco a mais do que as outras gerações com refeições fora, além de serem a faixa etária que menos gasta com viagens. 

 

"Gastei todo o meu dinheiro de abacate pagando o aluguel do meu apartamento, ou talvez com o meu passe de ônibus. Eu sou uma péssima Millenial."

 

Um boletim divulgado no ano passado já indicou que o endividamento dos jovens norte-americanos no cartão de crédito caiu para o índice mais baixo desde 1989, quando os dados começaram a ser padronizados. No Brasil, uma pesquisa da B2, empresa de inteligência especializada em jovens, indica que pelo menos a intenção é a mesma: o cartão de débito é o meio mais usado pela faixa etária (51%), seguido por dinheiro (47%). Só depois vem o cartão de crédito, sendo que o pagamento à vista é usado por 18% dos jovens e, o parcelado, por 16%.

Portanto, é seguro assumir que os jovens não gostam muito da ideia de se comprometer com dívidas duradouras. Mas isso não significa que eles não tenham planos para o futuro. Apesar de as viagens serem o principal gasto das economias a curto prazo para 69% dos jovens, o imóvel é prioridade nos investimentos de longo prazo: 70% disseram que, em três anos, planejam antes de tudo poder investir em uma casa ou apartamento. “É o reflexo de uma geração insegura. São muitas possibilidades de escolha, e o jovem que aproveitar isso, mas também pode querer, lá na frente, ainda ter uma casa, um MBA, um emprego que traga estabilidade”, defende Viviane Rodriguez, sócia-diretora da B2.

E, no fim das contas, será que as prioridades também não mudaram de uma geração para a outra? “Nossa expectativa de felicidade aumentou muito: quero poder usufruir de várias opções. Se eu puder alugar, morar um pouquinho aqui, um pouquinho lá, melhor”, explica Eline Kullock, estudiosa da Geração Y e diretora da consultoria Stanton Chase. Ela defende que essas mudanças ajudam a satisfazer momentaneamente a sensação de que ‘a grama do vizinho é mais verde’.

Junto com as novas expectativas, cresce o número de possibilidades de escolha. Se o jovem pode gastar menos com um Uber, um Cabify, ou outro serviço quando precisa se deslocar, para que assumir a dívida da compra de um carro? Se existe a possibilidade de se hospedar com conforto pelo Airbnb em praticamente qualquer cidade do mundo, faz sentido se comprometer com os gastos e a dor de cabeça de manter uma casa na praia, por exemplo? 

“A cada hora surge uma nova moda de consumo. Os jovens preferem usufruir de algo naquele momento e depois poder vender, alugar, ou simplesmente ‘desalugar’ e pegar outro”, explica Eliane.

Claro, vale alertar que os gastos mudam de acordo com as classes sociais. Tirando as festas, as despesas com a faculdade e alguns outros itens, os perfis de consumo são diferentes. “Os jovens das classes A e B são mais voltados para os gastos com experiências – é mais normal para eles não ter um carro e andar de Uber. Já os da C e D não viveram a realidade de ter um carro na família, então têm esse apego em comprar um”, diz Viviane, com base na pesquisa da B2, que foi realizada em 2015 com mais de 5 mil jovens brasileiros de 18 a 29 anos, de todas as classes sociais, em faculdades de todas as regiões do País.

O panorama da pesquisa e a opinião das especialistas conclui: os pais não precisam ficar tão ansiosos assim com a suposta ‘irresponsabilidade financeira’ dos filhos. “Com tantas decisões por minuto, o papel da família é fazer com que o jovem tenha mais calma do que a sociedade pede”, defende Eline.

Viviane concorda: “Acho que, de modo geral, o jovem não é tão inconsequente como parece para as outras gerações. Ele é mais inexperiente, mas o mundo hoje dá muito mais possibilidade do que dava a gerações anteriores”.