Intérprete de Libras no julgamento de Lula diz que ficou assustada com repercussão na internet

Felipe Laurence* - O Estado de S.Paulo

Apesar disso, Dânnia Vasconcellos revela que os memes e piadas trouxeram boa visibilidade aos surdos

A intérprete de Libras Dânnia Vasconcellos foi uma das pessoas que atuaram durante o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

A intérprete de Libras Dânnia Vasconcellos foi uma das pessoas que atuaram durante o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Foto: Foto cedida por Dânnia Vasconcellos

Quem assistiu à sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou o habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última quarta-feira, 4, percebeu um detalhe interessante, além do importante tema sendo tratado na audiência: os três intérpretes de Libras trabalhando incessantemente no canto direito da tela durante as quase 12 horas que durou o julgamento.

Não demorou muito para vários memes e piadas envolvendo os intérpretes do STF surgirem nas redes sociais. Dânnia Vasconcellos e seus colegas de trabalho relatam que foi um dia intenso e de muita pressão. "Foi muito complicado porque é extremamente cansativo. Primeiro porque a gente já faz uma tradução de uma língua para outra, além de ter sido um tema que trouxe visibilidade para a gente já que toda a comunidade surda estava de olho querendo acompanhar o que estava acontecendo, então foi tudo muito tenso", disse a intérprete em entrevista para o E+.

"A nossa profissão exige um preparo psicológico muito forte porque a gente nunca sabe o que nos espera durante uma sessão de tradução, de manhã estava traduzindo uma aula de linguística na Universidade de Brasília (UnB)e à tarde fui para o STF. Então, a gente precisa de calma para não haver influência no discurso que estamos transmitindo", diz Dânnia, que foi para a profissão após aprender a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para ajudar uma tia, que é surda.

Desde outubro de 2017, o STF começou a disponibilizar tradução em sinais pela TV Justiça nas transmissões das sessões plenárias do tribunal, que acontecem às quartas e quintas-feiras "O STF realmente é um lugar diferente porque ele é muito específico por causa dos termos jurídicos. Como Libras é uma língua que só foi reconhecida em 2002, é tudo muito novo e não há sinais para todas as palavras da língua portuguesa. Então, o que a gente faz é ver a pauta do dia das sessões pelo site do tribunal e vamos atrás do vocabulário", explica Dânnia, ressaltando que o tribunal não dá assistência nessa pesquisa dos intérpretes e que o estudo dos temas e das pautas fica por conta deles.

Felipe Oliver, tradutor e intérprete de Libras do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e tradutor juramentado no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro complementa dizendo que, em situações jurídicas, o importante é ter acesso prévio ao que será discutido e conversar com as partes do processo. "A tradução é feita sempre por interpretação, então quando o tribunal vem me consultar para uma audiência é sempre bom conversar com as partes para entender o assunto e como transmitir para o surdo uma melhor interpretação daquilo que está sendo falado", conta. Ele ressalta que como não há sinais específicos para os termos jurídicos e em latim, vai de cada intérprete usar da sua experiência para passar aquilo do melhor jeito ao surdo.

"O importante é saber que Libras não é a língua portuguesa feita com as mãos, então a gente não interpreta cada letra com um sinal e sim dentro de um contexto. Nós estudamos as palavras chave no julgamento do HC do Lula, assistimos matéria, lemos entrevistas para entender o vocabulário e o tema para passar ao surdo a interpretação mais fiel ao discurso dos ministros por conta da importância da audiência", conta a intérprete.

Sessões longas. No dia do julgamento do HC a produção da TV Justiça já havia avisado aos intérpretes que a sessão, provavelmente, se arrastaria pela noite, o que ajudou na preparação física. "As pessoas pensam que é simples, mas a gente fica em pé no estúdio, com iluminação forte na cara, ar condicionado, além do cansaço físico e mental que são naturais da profissão. Fizemos muito trabalho de alongamento, ficamos sempre com água e alimentos à nossa disposição e, quando trocávamos de turno, sempre tentávamos relaxar para manter o foco", falou Dânnia.

Felipe diz que algumas conquistas da categoria, como o revezamento dos profissionais de 20 em 20 minutos garantiu uma melhor atuação dos intérpretes de Libras. "Diferente das línguas orais, o intérprete de Libras atua com todo o seu corpo, então o revezamento é importante para evitar um desgaste físico e mental dos intérpretes, além de lesões comuns à profissão como lesão por esforço repetitivo nas mãos, hérnias de disco por ficar muito tempo em pé e inflamações ou tendinite nos ombros pelos movimentos em ritmo intenso", explica.

Memes. Sobre a repercussão na internet com os memes e piadas, Dânnia conta que num primeiro momento ficou assustada. "Você fala pra si mesma 'meu Deus, o que o pessoal tá falando de mim e do meu trabalho?', mas depois vi que foi muito interessante porque trouxe uma visibilidade boa para nós e para a comunidade surda. Se tem um intérprete ali é porque existe um público para isso e quando as pessoas percebem isso também enxergam que o surdo existe e que ele não pode ficar à margem da sociedade", comenta. "A aceitação pelo público surdo da tradução nas sessões do STF tem sido extremamente boa, sempre que estou na UnB os alunos vêm falar comigo que finalmente podem acompanhar o que acontece no Judiciário, então toda essa repercussão é sensacional", comemorou a intérprete.

Veja abaixo alguns dos memes e piadas que fizeram sucesso nas redes sociais durante o julgamento.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais