Inclusão de pessoas com deficiência. Você está fazendo isso direito?

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

'A atitude ideal das pessoas em relação a quem tem deficiência é não ter pena dela, mas aceitar as diferenças', explica professora

Gustavo, às esquerda, é cego e Mariana, à direita, não tem a mão esquerda

Gustavo, às esquerda, é cego e Mariana, à direita, não tem a mão esquerda Foto: Acervo pessoal

Um dia desses, Gustavo estava em um bar com seus amigos e, quando decidiu que iria embora, alguém pediu para que ele não pegasse o Uber sozinho. Será que se ele não fosse uma pessoa com deficiência, um amigo o impediria de andar pela cidade sem um acompanhante? A questão é que Gustavo é cego.

Depois do episódio, ele decidiu desabafar no Facebook. "Desculpa frustrar suas expectativas. Mas eu não sou fofo, lindo e 'demais' por ter deficiência visual", escreveu o estudante de 21 anos. "Eu sou apenas eu, com meus defeitos, com minhas idiotices, com minhas qualidades. Portanto, não me superestime nem subestime." Gustavo disse aquilo que quer que as pessoas saibam sobre ele: "Eu sou um semelhante".

O preconceito com deficiências física, visual, auditiva, entre outras, é algo já naturalizado na sociedade, mas há um meio de contornar a situação, a inclusão. Neide de Aquino Noffs, diretora e professora da Faculdade de Educação da PUC-SP, explica que a inclusão reconhece a pluralidade de pessoas e seus direitos específicos, além de assegurar um atendimento não discriminatório a essas pessoas.

Incluir as pessoas com deficiência física na sociedade foi um processo, como explica a professora. Antes, o 'método' era a segregação, em que eles ficavam separados. Depois, passamos pela integração, em que tentávamos adaptar a pessoa ao ambiente. Agora, há a inclusão, na qual o ambiente deve ser adaptado para que eles façam parte da sociedade.

"Falta formação e informação", opina Neide. Gustavo, autor do post, concorda. Ele explica que sua intenção ao escrever sobre ser uma pessoa com deficiência no Facebook foi conscientizar as pessoas.

"Acho que o diálogo e a disseminação de informação são a melhor maneira [de lidar com a falta de conhecimento]", diz o jovem, que se sentiu muito desconfortável ao questionarem se ele poderia pegar o Uber sozinho.

Neide explica que a atitude ideal das pessoas em relação a quem tem deficiência é não ter pena dela, mas aceitar as diferenças. "É preciso entender que é 'só' uma deficiência". Gustavo reforça que, para ele, o ideal é sempre perguntar e não sentir vergonha.

O post de Gustavo não chegou a viralizar, mas ele ficou feliz com os 71 compartilhamentos e por ajudar outros a entenderem que quem tem deficiência não é nem 'coitado' nem 'super herói'. "Eu tenho muitos jovens no convívio social [...], acho crucial que eles saibam disso e ajudem nessa disseminação de informação", opina.

Gustavo faz exatamente as mesmas coisas que uma pessoa sem deficiência. "Minha vida é normal, igual de qualquer outro. Eu estudo, trabalho, vou para baladas, bares, faço tudo que quero, mas algumas coisas preciso adaptar", ele explica que usa o computador com um programa que lê para ele tudo que está na tela e não usa mouse, só atalhos do teclado. O mesmo com o celular.

Representatividade na internet. Mariana Torquato, 24 anos, não tem um parte do braço esquerdo e, incentivada por seus amigos, decidiu criar um canal no YouTube, o Vai Uma Mãozinha Ai.  

Na opinião da youtuber, inclusão tem a ver com a representatividade da pessoa com deficiência. "Querendo ou não, nós ainda nos baseamos muito no que vemos na televisão, capas de revista, e as pessoas com deficiência não estão incluídas nessa pauta", diz.

Foi a falta de representatividade que motivou Mariana a seguir em frente com seu canal. "Eu precisava falar sobre deficiência com alguém, precisava falar sobre as coisas que eu sentia", relembra. O canal começou a fazer sucesso e ela percebeu que, como poucas pessoas falam sobre o assunto, ela tinha muito a dizer e problematizações a fazer.

Mariana acredita que, para que haja uma mudança no cenário em relação às pessoas com deficiência, é preciso pensar mais a respeito disso, ter mais empatia. "Dizem que assistir ao meu canal faz as pessoas pensarem bastante sobre o assunto", recomenda.

Ter o canal fez com que Mariana mudasse a relação que tem consigo mesma. Ela recebe muitos feedbacks positivos e fica feliz em saber que ajuda pessoas a saírem da negação e passam a se amar do jeito que são.