Grafiteiro pinta flores para alterar anúncios de moda em Nova York

Laura M. Holson - The New York Times

Michael De Feo arranca publicidade de pontos de ônibus de Manhattan e as leva para casa de bicicleta

Michael De Feo em seu estúdio

Michael De Feo em seu estúdio Foto: Credit Michael Nagle/The New York Times

NOVA YORK - Em qualquer dia em Manhattan, pessoas em trânsito se deparam com Michael De Feo.

Com seu cabelo encaracolado preto e de óculos, ele pode ser visto arrancando anúncios de pontos de ônibus de toda a cidade, guardando-os em tubos de proteção e voltando de bicicleta para casa. Nada disso é legal, sem dúvida.

Contudo De Feo não é um ladrão comum. É um grafiteiro que, há mais de duas décadas, vem pintando características flores em paredes e prédios do mundo inteiro, principalmente em East Village, onde ganhou o apelido de "o Cara da Flor".

Ano passado, no entanto, De Feo, 43 anos, ganhou a chave de um coletivo de arte de guerrilha que permite aos artistas acessarem a publicidade nos pontos de ônibus para incentivar o diálogo público sobre as mensagens corporativas; o coletivo descreveu as chaves como "esculturas", dizendo que elas não foram feitas para uso.

 

A #BeauteLouboutin work of art. #AlohaLouboutin @theflowerguy

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Cartazes de marcas como Christian Dior e Chanel começaram a desaparecer; em seu estúdio, De Feo cobria os modelos com ramalhetes alegremente pintados e devolvia os anúncios antes que alguém notasse. As empresas de moda são avessas a deixar artistas de rua mexerem em suas campanhas - quem quer um bigode no rosto de Julia Roberts? De alguma forma, porém, os estilistas estão aceitando a abordagem colorida de De Feo.

Neste ano, a Echo criou uma linha de lenços e bolsas inspiradas nas pinturas florais do artista e, até o final do ano, vai oferecer suas flores pintadas em padrões antigos da empresa. A Neiman Marcus encomendou duas obras para a capa de seu livro e está discutindo uma possível parceria. No Instagram, a J. Crew deu sinal verde para um anúncio que o grafiteiro pintou em maio de 2015. E, mais recentemente, a Christian Louboutin usou seu trabalho em uma campanha na mídia social para seus esmaltes de cores tropicais.

Mesmo o mundo da arte está intrigado com suas imagens que mesclam arte de rua e a cultura da moda. Na semana passada, De Feo realizou uma exposição em Amsterdã com anúncios de revista pintados que arrancou das páginas da "Vogue" holandesa. E está expondo suas pinturas na Feira de Arte Urbana, em Paris. Executivos que trabalharam com o artista disseram que ele traz uma abordagem brilhante, muitas vezes extravagante, sobre a alta costura em que modelos retocados são a norma.

"O marketing se tornou tão precioso, tão perfeito, tão homogêneo. Qualquer um que quebre esses limites é notado, ainda mais se fizer algo bonito", disse Georgia Christensen, vice-presidente de criação da Neiman Marcus.

Um dos trabalhos de De Feo

Um dos trabalhos de De Feo Foto: Michael Nagle /The New York Times

A moda sempre adotou grafiteiros que acentuavam as marcas enquanto promoviam suas carreiras: Futura, Brian Donnelly (conhecido como KAWS) e Lady Aiko entre eles. Na parede dos fundos do seu estúdio, De Feo pendurou um anúncio de bolsa da Christian Dior que removera hora antes de um ponto de ônibus no centro da cidade. A esposa, Lia, olheira entusiasmada, o vira dias antes e batera uma fotografia. De Feo estudou a bolsa vermelho pirulito, sem dar bola ao rosto de uma sardenta Jennifer Lawrence abraçando o produto.

"O que faço é uma espécie de equilíbrio entre trabalhar com o anúncio de certa forma, mas sem me esquecer de combatê-lo e subvertê-lo", declarou. Às vezes, ele se diz atraído pelo modelo. Outras vezes, é a composição total. Neste caso, era a bolsa cor de cereja.

Cerca de uma dúzia de copos de papel cheios de tinta acrílica estavam dispostos em uma banqueta. Ele mergulhou o pincel em um copo de verde e esboçou uma flor na lapela da jaqueta branca de Jennifer. Pintou outro, usando azul, depois caramelo-claro até a atriz ser coberta por um buquê festivo.

"Eu não quero destruir o anúncio. Temos um diálogo melhor quando se aborda algo com gentileza ou extravagância."

De Feo colocou sua obra em pontos de ônibus de Manhattan, East Side e no distrito Meatpacking. A primeira foi um anúncio da Christian Dior com Natalie Portman recoberta com um ramalhete preto e rosa na Second Avenue; executivos da Christian Dior não responderam ao e-mail pedindo comentários. Ele o tirou, no entanto, porque a luz do ponto de ônibus não iluminava adequadamente a imagem à noite.

 

Jennifer Lawrence blooming in Amsterdam. #yeahwegotkeysforthat @jordanseiler @thegarageamsterdam

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"Tem de ser visto de longe, da traseira de um táxi", disse De Feo. Ele planejava levar o anúncio de bolsa recém-pintado para Amsterdã e pendurá-lo em um ponto de ônibus de lá. "Algumas das obras que coloco nas ruas terminam desaparecendo", contou. O artista supõe que os anúncios podem ter sido trocados por novos ou, talvez, os colecionadores estejam de olho nele e os levando para guardar.

Há quem defina a obra de De Feo como uma espécie de geleia cultural, isto é, uma tentativa de explorar as hipóteses do consumidor sobre mídia e materialismo por meio da arte de rua.

"A questão é interferir com a cultura corporativa", declarou Dan Witz, artista de rua tarimbado e amigo de De Feo. Segundo ele, isso inclui "usar o contexto ou formato para passar um recado".

Já as empresas sugerem que a arte de rua de De Feo seja mais benigna do que isso.

"A primeira reação é: 'Que horrível'", afirmou Steven Roberts, diretor executivo do Echo Design Group, a respeito de artistas que manipulam anúncios. Já De Feo "não desrespeita a publicidade, ele a embeleza para melhorar".

Roberts acrescentou: "Todo mundo consegue se identificar com ele. Ele está dizendo: 'Não leve tudo tão a sério'".

 

Spotted: (cc: @theflowerguy) #regram

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Georgia concordou. "Existe uma civilidade embora ele esteja infringindo a lei", ela disse.

De Feo cresceu em Rye, Nova York, e frequentou a Faculdade de Artes Visuais em Manhattan, onde se formou em 1995 em design gráfico. O artista começou a pintar nas ruas em 1993 e, um ano mais tarde, gravou sua primeira flor mural na lateral de um prédio na East 23rd Street.

A partir dali, ele se expandiu internacionalmente, com pinturas públicas em Amsterdã, Buenos Aires, Hong Kong e Paris.

Para se sustentar enquanto investia na arte das ruas, foi professor da escola de ensino médio Westhill em Stamford, Connecticut. Era um professor popular de cerâmica, Photoshop, desenho e outras atividades criativas, mas, em 2013, largou o emprego de 15 anos para dedicar mais tempo à arte.

"Eu andava na corda bamba quando era professor. Nós temos o Google e as crianças de hoje em dia pesquisam sobre os professores. Também nunca fui preso." Mas todo mundo estava encantado. "Alguns pais não gostavam disso."

Quando indagado sobre o que sua arte floral em pontos de ônibus diz a respeito da cultura norte-americana, De Feo ficou desconcertado.

"Não sei", ele respondeu, olhando seu anúncio recém-pintado. "Essa é uma mensagem em meio a muitas."

De Feo logo pensou em alguma coisa. A maioria das pessoas não se parece com celebridades cujas rugas são apagadas enquanto o visual é retocado pelo Photoshop.

"Essa não é a vida real. E essas não são flores reais."