Entenda a 'body neutrality': aceitar o próprio corpo é mais realista do que amá-lo

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Especialista explica que é necessário focar no equilíbrio e aprender a ouvir o que o corpo pede

Para Andreza Carla de Souza Lopes, mestre em neurociências e comportamento pela USP, a palavra chave é equilíbrio

Para Andreza Carla de Souza Lopes, mestre em neurociências e comportamento pela USP, a palavra chave é equilíbrio Foto: Unsplash/Pixabay

Frases como "comece uma revolução: ame seu próprio corpo" vêm se difundindo nas redes sociais como resposta à pressão de se encaixar no padrão de beleza a que estamos acostumados. Mas o que acontece quando a busca pelo amor às 'imperfeições' também se torna uma obsessão?

Uma nova 'onda' conhecida como body neutrality (neutralidade corporal, em tradução literal) questiona esse tipo de abordagem, que pretende ser positiva, mas pode fazer mal a algumas pessoas. 

A ideia central do movimento é que, antes de impor sobre si mesmo a obrigação de amar cada 'imperfeição' do corpo, é preciso simplesmente aceitá-las. Sem pressão, sem neuroses, sem excessos. "Eu sou um ativista da 'positividade gorda' - e eu não amo o meu corpo", escreveu Caleb Luna, estudante de PhD em antropologia e colaborador do site Everyday Feminism com textos baseados em suas experiências como "um trabalhador gordo, moreno e membro da comunidade LGBTQ". 

Caleb não foi o primeiro nem o único a falar do assunto na internet. Aliás, a questão costuma ser mais presente entre as mulheres, pela pressão maior em relação ao corpo. A blogueira Maddy Moon, por exemplo, acabou 'assustando' alguns seguidores com um vídeo intitulado, em maiúsculas, I don't love my body (eu não amo meu corpo). Maddy já passou por períodos de distúrbios alimentares e hoje usa seu blog para ajudar outras mulheres a se aceitarem.  "Eu sempre falo em positividade corporal, sou super a favor de aceitar e apreciar seu corpo do jeito que é - e ele vale muito - mas eu não quero que você se estresse com essa obsessão pelo seu corpo, pelas suas curvas. Isso é pedir demais para quem passou 20, 30, 40 anos odiando o próprio corpo", justifica.

Andreza Carla de Souza Lopes, mestre em neurociências e comportamento pela Universidade de São Paulo (USP), acredita que a melhor abordagem em relação à autoimagem é baseada no equilíbrio. "Isso só se consegue a partir do momento que tem equilíbrio mental, uma relação saudável para que eu possa lidar com as imposições da cultura da sociedade."

A onda de body neutrality prega que a obsessão com o corpo é prejudicial mesmo quando é 'positiva', já que não deixa de ser uma obsessão. Apesar de não usar o termo, Maddy Moon ecoa as ideias do movimento. "Eu não quero que você fique obcecada com o seu corpo, obcecada com suas curvas, porque aí talvez seja a mesma coisa do que quando você estava obcecada por ser magra. Então não fique tão apegada com qualquer necessidade de estar em um extremo ou outro desse espectro", diz em um dos vídeos.

Já Andreza, que estuda transtornos alimentares, explica que é essencial ouvir seu próprio corpo. Aceitá-lo como ele é seria um primeiro passo antes de ser possível amá-lo, e cuidar dele com saúde ajudaria nessa jornada. "Muitas vezes só precisamos de uma alimentação saudável, nem que seja um pão na chapa, um café com leite e uma fruta no café da manhã. Isso é uma relação saudável com o corpo - saber escutar do que ele precisa", defende. "Quando a pessoa começa a ter essa relação saudável, com um equilíbrio mental, ela começa a se perceber, aceitar seu corpo e cuidar dele. Eu vou manter uma relação saudável com o meu corpo me jogando no fast food? Não, eu vou querer me alimentar direito, com aquilo que me faz bem".