Emma Morano, antiga pessoa mais velha do mundo, era um modelo de simplicidade

Elisabetta Povoledo - The New York Times

Os poucos pertences que deixou não ocupavam muito espaço no apartamento minúsculo de dois cômodos, propriedade da Igreja

A sra. Morano na sua casa, em Verbania, Itália, em 2015. Na época, ela era a pessoa mais velha da Europa.

A sra. Morano na sua casa, em Verbania, Itália, em 2015. Na época, ela era a pessoa mais velha da Europa. Foto: Alessandro Grassani para The New York Times

Verbania, Itália – Da última vez que Emma Morano saiu de seu apartamento, estava com 102 anos de idade. Ficou famosa no fim da vida, depois que completou 110. No ano passado, foi considerada a pessoa mais velha do mundo. Tinha fãs de todas as partes do planeta. A prefeita da cidade em que morava a agradeceu pela atenção que acabou chamando para a região.

Emma, a última pessoa registrada como tendo nascido no século XIX, morreu tranquilamente, em quinze de abril, aos 117 anos, 137 dias, 16 horas e alguns minutos.

Os poucos pertences que deixou, acumulados ao longo de mais décadas do que certamente eu e você vamos viver, não ocupavam muito espaço no apartamento minúsculo de dois cômodos, propriedade da Igreja, onde passou os últimos 27 anos de vida.

O pequeno quarto de Emma Morano

O pequeno quarto de Emma Morano Foto: CreditGianni Cipriano para The New York Times

Aqueles que se deixam levar pelo consumismo talvez tenham dificuldade em entendê-la.

"Nós temos coisas demais, distrações demais; recebemos coisas em excesso, informações também; é por isso que é difícil para uma pessoa como Emma se destacar", constatou o padre Giuseppe Masseroni, 91 anos, no enterro da idosa, em 17 de abril.

"Sua simplicidade é referência, ainda que totalmente fora de compasso com a realidade", completou.

Ao lado da cama, tinha fotos dos pais, cinco irmãs e três irmãos, além de algumas imagens religiosas. Dentro da gaveta do criado-mudo, um creme anti-idade, daqueles baratinhos, que passava toda noite antes de dormir.

Uma das irmãs da sra. Morano morreu logo antes de completar 100 anos; a outra viveu até os 102.

Uma das irmãs da sra. Morano morreu logo antes de completar 100 anos; a outra viveu até os 102. Foto: Gianni Cipriano para The New York Times

Por questões de saúde, Emma se mudou, ainda adolescente, para Verbania, uma cidadezinha às margens do Lago Maggiore, no Piemonte, que acabou se tornando cenário permanente das fotos que registraram sua vida inteira. Em 2015, quando o New York Times a entrevistou, ela disse: "O médico me mandou mudar de ares e continuo por aqui".

Seu pai, Giovanni, trabalhava em uma fundição na aldeia vizinha, Villadossola, até que, um dia, ficou cego. Sua mãe, Matilde, fazia chinelos empilhando camadas de tecido, que cortava no molde de uma forma de pé. Apesar das dificuldades, ou por causa delas, a família instilou uma grande força de caráter em Emma e seus irmãos.

"Todos eram muito determinados", conta a sobrinha, Rosemarie Santoni.

Ela morava sozinha, rodeada de objetos com valor sentimental. fotos e vestígios de uma vida longa.

Ela morava sozinha, rodeada de objetos com valor sentimental. fotos e vestígios de uma vida longa. Foto: Gianni Cipriano para The New York Times

Quando jovem, saía às escondidas para dançar com as irmãs. A própria Emma contou como era: "Minhas irmãs e eu adorávamos dançar; saíamos escondido para o salão de baile e dali a pouco vinha nossa mãe atrás de nós, com a vassoura na mão."

Sua longevidade foi motivo de muita especulação entre pesquisadores e fãs. Será que o clima ameno da região do lago pode ter ajudado? Ou será que eram os três ovos crus que consumiu, todo dia, durante quase meio século?

Um pote de uvas com grappa (bebida alcoólica italiana) e sálvia preparado pela sra. Morano.

Um pote de uvas com grappa (bebida alcoólica italiana) e sálvia preparado pela sra. Morano. Foto: Gianni Cipriano para The New York Times

Ou foi o casamento infeliz, seguido da separação, em 1938, que fez com que nunca mais pensasse em se casar de novo?

"Emma não tolerou a humilhação de se submeter a homem nenhum", disse Masseroni, também conhecido como Don Giuseppe, na cerimônia do funeral.

Ela também descreveu a situação: "Nunca quis ser dominada por ninguém."

Era devota, usando seus rosários durante décadas. Nos últimos anos, porém, teve que abrir mão de todos porque as sobrinhas, suas principais cuidadoras, tinham medo que se enforcasse com eles. Assim, pendurava todos ao lado da cama, perto da foto do único filho, o bebê que viveu de janeiro a agosto de 1937.

A foto foi enterrada com ela, segundo seu próprio desejo.

Gostava de relógios e tinha vários. "Adorava ouvir o mecanismo e os carrilhões, principalmente dos que pareciam o Big Ben de Londres", relata Rosemari.

Emma trabalhou até os 75 anos e tinha muito orgulho de ter condições de pagar por tudo o que possuía. Depois de se separar, pediu ao marceneiro local que lhe fizesse móveis novos para o quarto.

"Ela fazia questão de dizer para todo mundo que tinha mandado fazer e tinha pagado sozinha", relembra a sobrinha.

Emma não saiu de casa por vários anos. Durante um tempo, teve uma gata, Lola, e tentou manter um pombo como animal de estimação, além de alimentar outros pássaros, até começar a ter problemas com os vizinhos.

Cozinhou para si mesma até os 112 anos – geralmente macarrão, ao qual acrescentava um pouquinho de carne moída. Até os 115 anos não precisou de nenhum cuidador em tempo integral e ainda arrumava a mesa para si, na mesinha que tinha na cozinha minúscula.

"Tinha muito orgulho de sua casa", comenta a outra sobrinha, Maria Antonietta Sala.

Quando as visitas chegavam para vê-la com crianças, na residência antiga, Emma espalhava folhas de jornal pelo chão para não sujar.

Depois de ultrapassar a barreira dos 110 anos, sua fama passou a crescer a cada dia; os certificados que reconheciam sua celebridade se multiplicavam. Foi homenageada por várias organizações, presidentes italianos e escolas primárias. A empresa de gás local a honrou como a cliente mais antiga.

Nos últimos anos, preferia usar vestido com um colete ou xale por cima, às vezes ambos. Era assim que recebia quase todos os visitantes, inclusive gente de várias partes do mundo. Alguns mantiveram contato, como o deficiente visual que aparecia todos os anos, no Natal e na Páscoa.

Um look típico da sra. Morano

Um look típico da sra. Morano Foto: Gianni Cipriano para The New York Times

Uma mulher que compareceu ao funeral contou a Maria que colecionava artigos de jornal sobre Emma. Aliás, no dia do enterro, enquanto o caixão era abaixado, ela chegou a gritar: "Conto com você para me garantir uma vida tão longa quanto a sua!".

Emma sempre cuidou da aparência; ia regularmente ao cabeleireiro quando ainda saía, fazendo questão de se manter impecável por causa das muitas pessoas que recebia.

O túmulo da família, em primeiro plano, no centro, com flores e uma estátua. 

O túmulo da família, em primeiro plano, no centro, com flores e uma estátua.  Foto: CreditGianni Cipriano para The New York Times

Rosemarie conta que sempre era educada e paciente com todos, mas se a visita se prolongava demais, ela se virava para a sobrinha e perguntava, no dialeto local: "Eles não vão embora, não?".

Emma foi enterrada no cemitério local, no jazigo da família. No funeral, Silvia Marchionini, prefeita de Verbania, a agradeceu por tornar a cidade famosa.

"Somos imensamente agradecidos. Não sabemos se é verdade ou não que viver às margens do lago estimula a longevidade; é bom pensar que sim, sem dúvida. Verbania sempre lhe será grata. Temos muito orgulho."

Verbania, a cidade à beira do rio, onde a sra. Morano viveu na maior parte de sua vida.

Verbania, a cidade à beira do rio, onde a sra. Morano viveu na maior parte de sua vida. Foto: Gianni Cipriano para The New York Times