'Ele começou a me falar sobre sexo tântrico, como era interessante', relata aluna

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

Professor conhecido por assediar alunas chegou a abordar a mãe de uma delas

Alunas e ex-alunas relatam assédios sofridos por professores e funcionários das universidades.

Alunas e ex-alunas relatam assédios sofridos por professores e funcionários das universidades. Foto: Aidan Meyer_Stocksnap

Andreia (nome fictício) já tinha a ideia de que, quando chegasse no segundo semestre do curso de Administração da ESPM-SP, teria de lidar com um professor conhecido por assediar alunas. Quem não correspondesse, relata que era prejudicado na matéria. “E eu pensei que com certeza ele não ia me escolher. Começou a aula, eu adorava a aula dele, participava, sentava na frente. Um dia eu estava em casa, no início do semestre ainda, e ele me chamou no inbox [no Facebook]”, relembra.

“Ele começou a conversar comigo, primeiro assuntos super triviais, tipo: 'o que você gosta de fazer?', 'o que sua família faz?', se eu namorava, se eu tinha irmãos. Assuntos que você pensa 'tudo bem'. E eu conversei com ele”, afirma. No entanto, com o tempo, os assuntos começaram a ficar mais estranhos. “Ele falou que tinha uma parceira e que ela apresentou ele ao mundo tântrico.”

Apesar de achar estranho, Andreia temia que, se não respondesse, o professor prejudicaria suas notas. “Pensei que precisava dar bola pra ele para passar de semestre. Eu respondia, às vezes demorava, às vezes nem respondia. Quando eu não respondia, ele me chamava ‘você está aí? Você está online!’”

Um dia, o professor mandou um link para ela: “era um curso para aprender a fazer sexo tântrico, que segundo ele foi onde ele aprendeu a fazer com essa médica, com quem ele tinha tido um relacionamento, mas tinha acabado. Eu fiquei super assustada.”

“Que intimidade esse cara tem para me mandar isso?”, questionou. “Ele começou a me falar sobre sexo tântrico, como era interessante, como ele conseguia segurar o sexo por muito tempo, como tinha lugares no corpo dele que ele não conhecia antes desse curso. E eu estava muito assustada.”

O limite chegou já no fim do semestre, quando a mãe de Andreia perguntou se ela conhecia o tal professor. “Ele foi falar com minha mãe, que ele gostava muito de mim, que eu era muito interessante, que ele sabia um pouco da minha família e minha família parecia ser muito interessante, que ele queria conhecer um pouco mais sobre a minha mãe”, relata.

Depois do episódio, Andreia percebeu que tinha sido ‘trocada’ por outra aluna. “Ele não me prejudicava nas aulas, mas ele me ignorava”, afirma.

Andreia preferiu não recorrer a ninguém da faculdade. O professor em questão foi mandado embora da instituição, depois de muitas alunas reclamarem dele. “Na época em que ele foi demitido eu até cheguei a falar com o diretor da parte de Administração, e ele disse que a ESPM não podia comentar o caso.”

Posicionamento. Em nota, a ESPM-SP afirma que todos os casos de assédio, quando reportados, são enviados à ouvidoria da instituição. Leia a nota na íntegra:

“A ESPM esclarece que todo e qualquer relato de assédio é imediatamente enviado à Ouvidoria da instituição, que conta com um Ombudsman ligado diretamente à presidência e com total autonomia para apurar e, se comprovado o indício, enviar o caso ao Conselho de Ética para que sejam tomadas as devidas providências. 

A direção da ESPM informa ainda que repudia veementemente qualquer tentativa de assédio e, se comprovada tal conduta, assim como informado no Código de Ética, a pessoa — professor, funcionário ou aluno — está passível de exclusão da escola.”