Distraído demais? Tente a monotarefa

VERENA VON PFETTEN - THE NEW YORK TIMES

'Nossos eletrônicos e tudo aquilo que temos que verificar de vez em quando não foram criados para nos permitir fazer uma coisa por vez'

Foto: Andy Rash

Pare o que está fazendo. Quer dizer, continue lendo. Pare com todas as outras coisas que estiver fazendo.

Abaixe a música. Desligue a TV. Ignore aquele torpedo. E aproveite para deixar o telefone de lado de uma vez. (A menos que esteja lendo no celular. Aí, não).

Basta ler. Pronto, você agora está aplicando a monotarefa.

Talvez não pareça ser grande coisa; afinal, a ideia de fazer uma coisa por vez não é nova.

De fato, a prática da multitarefa, presente nos currículos anêmicos que se vê em todo lugar, vem sendo criticada de uns anos para cá. Um estudo de 2014, publicado no Journal of Experimental Psychology, descobriu que interrupções mínimas, coisa de dois a três segundos - menos que o tempo necessário para dar uma espiada nos emails e voltar para este texto - são suficientes para dobrar o número de erros dos participantes incumbidos de cumprir uma determinada função.

Uma pesquisa anterior da Universidade de Stanford revelou que quem se identifica como "altamente capaz de cumprir multitarefas em diferentes meios", na verdade se distrai mais que aqueles que limitam seus afazeres.

Ou seja, em linguagem leiga: quem tenta fazer mais, realiza menos.

Porém a monotarefa, também conhecida como tarefa única, não é só uma questão de cumprir objetivos.

Ao contrário da "atenção plena" - que se baseia na consciência emocional - a monotarefa é o termo do século 21 para o que o seu professor de inglês do ensino médio chamava apenas de "prestar atenção".

"É a habilidade do alfabetismo digital. Nossos eletrônicos e tudo aquilo que temos que verificar de vez em quando não foram criados para nos permitir fazer uma coisa por vez", afirma Manoush Zomorodi, apresentadora e editora do podcast "Note to Self", da WNYC Studios, que há pouco tempo apresentou uma série interativa chamada Infomagical, que trata do excesso de informação.

Ela prefere usar o termo 'tarefa única'. "'Monotarefa' dá a impressão de ser uma coisa chata. Talvez porque a palavra seja parecida com 'monótono'."

Para Kelly McGonigal, autora de "The Willpower Instinct", é preciso praticar para ser monotarefa. "É uma habilidade importante, uma forma de autoconsciência, e não limitação cognitiva."

É uma boa notícia para quem admite ter essa qualidade.

"Quando ia fazer entrevista de emprego, o pessoal meio que esperava ou queria ouvir de mim que era 'ótimo de multitarefa'; só que não sou. E essa minha incapacidade era vista como algo negativo. Agora posso simplesmente dizer, 'Sou monotarefa'", conta Jon Pack, fotógrafo de 42 anos do Brooklyn.

E a forma como trabalhamos pode ter efeitos cuja duração vai muito além do fim do expediente.

Por mais que as pessoas queiram acreditar no contrário, o ser humano tem uma fonte neural limitada que é atingida toda vez que pulamos de uma tarefa para outra - o que, especialmente para aqueles que trabalham on-line, pode acontecer até 400 vezes ao dia segundo um estudo feito este ano pela Universidade da Califórnia em Irvine. "É por isso que você se sente esgotado no fim do dia", diz Manoush.

Um bom indicador de que você exagerou na troca de tarefas até chegar ao estupor é ficar rolando a página do Facebook no fim da noite, sem nada ver, ou, no caso de Manoush, ficar escolhendo sofás no Pinterest. "O mais triste é que não chego nem perto de decidir qual eu quero."

A monotarefa também pode ajudar a tornar o trabalho mais prazeroso.

"Eu consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo - e faço, é claro; é meio essencial hoje em dia. Mas prefiro me dedicar a uma só. Se fico fuçando no telefone, na minha caixa postal ou dando uma espiada em vários sites, o trabalho dá a impressão de sair muito mais truncado. Quando presto atenção e progrido rápido, acaba sendo muito bom", explica a escritora Hayley Phelan, de 28 anos, por email.

Ela não está imaginando coisas. "Praticamente qualquer experiência melhora quando você se dedica 100% a ela. A atenção nada mais é que uma forma de seu cérebro saber se a atividade é interessante e se vale a pena", resume Kelly McGonigal.

É por isso que aqueles programas de TV durante os quais ficamos tuitando parecem cansativos e os livros que pegamos, deixamos de lado e pegamos de novo parecem não terminar nunca. Quanto mais nos permitimos distrair de uma atividade específica, mais sentimos a necessidade de nos distrair. Prestar atenção dá lucro.

É por isso que, segundo Kelly McGonigal, a capacidade de se dedicar a uma tarefa só pode ser inestimável em situações sociais. "As pesquisas mostram que só o fato de deixar o telefone na mesa é o suficiente para reduzir a empatia e o clima bom entre duas pessoas que estão conversando", diz ela.

Vinte e cinco mil pessoas participaram do projeto Infomagical de Manoush, que começou com um desafio da realização de uma missão única. Depois de concluída, a grande maioria dos participantes concordou que a monotarefa era a principal característica que gostariam de manter depois do curso.

Quem tinha filho pequeno achou mais difícil segui-la, por razões óbvias, bem como aqueles cuja profissão lhes permitia menor controle sobre o próprio tempo. Em ambos os casos, o negócio é aplicar a tarefa única onde der: nas conversas com os filhos, na leitura de um livro antes de dormir, no jantar ou no drinque com os amigos.

Mesmo quem goza de maior flexibilidade pode se ver rendendo mais se conseguir se concentrar melhor. Nick Pandolfi, que trabalha no Google, uma vez viajou para a Suécia no que descreveu como "esforço extremo" de fazer uma coisa de cada vez.

"Eu tinha que fazer os trabalhos do teste de admissão da Faculdade de Administração, mas não estava conseguindo porque ficava sassaricando para lá e para cá. Simplesmente não me sentia inspirado. Depois de passar uns dias caminhando no Ártico, sozinho, matei tudo em questão de dias", conta.

Viagens transcontinentais à parte, Manoush diz que o importante é encontrar maneiras próprias de praticar. "Comece se dando uma manhã por semana para trabalhar nisso e relembrar o que é fazer uma coisa de cada vez", ensina.

Tanto Nick como Hayley usam o exercício para ajudá-los. "Se preciso terminar um projeto grande e não quero me distrair com mensagens recebidas, nem as tranqueiras da internet, subo na esteira", conta ele. Já ela faz questão de correr ao ar livre toda semana.

A monotarefa pode ser simples a ponto de se resumir a uma conversa.

"Trabalhe no prestar atenção, no ouvir as pessoas. Largue tudo o que tiver nas mãos e se dedique exclusivamente à pessoa com quem está falando. Isso significa olhar para ela, ouvi-la, ter o corpo voltado para ela", destrincha Kelly McGonigal.

Então a monotarefa já é um movimento? "Ainda não, mas acho que vai ser tornar um", responde Manoush.

Quer dizer, se houver um número suficiente de pessoas para prestar atenção.