Dia das Crianças: em vez de brinquedos, pais presenteiam filhos com livros

Jonathas Cotrim, especial para o Estadão - O Estado de S.Paulo

Independentemente da idade, especialistas alertam que prática da leitura pode ser desenvolvida desde cedo

Hábito de leitura deve ser estimulado desde cedo.

Hábito de leitura deve ser estimulado desde cedo. Foto: Pixarbay

No período que antecede o Dia das Crianças, o comércio fica aquecido com a data e fabricantes de brinquedos 'abrem o sorriso' com a expectativa de aumento nas vendas. No entanto, Alguns pais preferem dar outro tipo de presente: livros.

A professora belo-horizontina Rachel Furieri avisa que o pequeno Victor, de 2 anos, não vai ganhar brinquedos neste ano. “Conto histórias para o Victor desde que ele era bebê ainda, e ele tem vários livrinhos, mesmo não conseguindo ler nem compreender nada ainda, pois acredito que o gosto por livros começa desde pequenininho, em ver as figuras e ouvir histórias”, afirma.

A ideia de presentear os pequenos com livros desde cedo tem base científica. “As crianças podem e devem ganhar livros desde o seu nascimento. Nos primeiros meses de vida as imagens com bastante contraste chamam mais a atenção do bebê, pois sua visão ainda está em desenvolvimento. Com o passar dos meses e anos pode-se investir em livros com mais conteúdo textual, aumentando gradualmente o texto em cada página. A capacidade de memorizar a história aumenta e a criança depende menos das figuras para compreender o conteúdo do que é lido”, alerta Anna Carolina Muller Queiroz, psicóloga e doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento na USP.

Já a doutora em Psicologia, Luciana Dadico, ressalta a importância de se presentear livros em papel, em vez dos digitais. “É um cenário no qual tudo o que parece moderno e divertido é associado ao digital, em contraposição aos livros e materiais em papel - logo associados à escola e todas as chatices depositadas ali. Pesquisas na área têm mostrado que os dispositivos digitais não substituem os livros. Trata-se de materiais diferentes. Ao ler apenas livros digitais, o aproveitamento de nossa leitura tende a ser reduzido”, explica.

O comércio de livros neste período do ano registra um crescimento expressivo. Em 2016, na semana do Dia das Crianças, as vendas tiveram um aumento de 10,9% no volume de livros e de 7% nos valores arrecadados, em relação a uma semana antes da data. Os dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), indicam ainda que, só no ano passado, o comércio de livros arrecadou R$ 28,6 milhões em todo o Brasil.

Mas mesmo com a preferência pela leitura, o mercado de brinquedos continuará sendo importante. A expectativa para o setor é de fechar o ano com arrecadação de R$ 9 bilhões, sendo que o Dia das Crianças é responsável por 35% desse valor.

Enquanto alguns pais darão preferência para as histórias no papel, existe alguns que, por terem feito isso em outros anos, preferiram dar brinquedos neste ano. “Eu tento balancear a quantidade de livros e a de brinquedos, e eu reparei que tem mais livros que brinquedos, então optamos por brinquedos esse ano. Sempre demos o objeto livro, com muitas imagens, e até mesmo para usar no banho. O livro é um outro tipo de brinquedo que tem o propósito de contar histórias”, conta o professor de artes de Brasília, William Quintal, pai de duas crianças, uma de seis e outra de três anos.

Mesmo que a preferência seja dada para um desses presentes, não deve existir hierarquia entre brinquedos e livros. “O que deve ser sempre levado em consideração é o tipo de livro e o tipo de brinquedo que será dado à criança. Os brinquedos que permitem que a criança seja livre para brincar de maneiras diversas, usando a imaginação, são os mais interessantes para o desenvolvimento motor, cognitivo, social e afetivo. Os livros também são fundamentais ao desenvolvimento infantil, pois além de desenvolver o que já foi mencionado anteriormente, estimulam a imaginação, permitem que a criança desenvolva o raciocínio lógico, além de entrar em contato com os conteúdos educativos que esses livros podem trazer. O próprio livro e a leitura se tornam uma brincadeira se forem bem trabalhados”, finaliza a psicóloga Anna Queiroz.