Como o carnaval brasileiro chegou ao que é hoje

André Carlos Zorzi - O Estado de S.Paulo

Todos aproveitamos o período de festas, mas o quanto sabemos sobre suas influências e origens?

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. Foto: Luiz Eduardo Perez/EFE

A maior parte dos brasileiros enxerga o carnaval como um período de festa, alegria e exageros. Porém, quantas vezes você já parou para pensar nas origens da festividade como conhecemos hoje, com desfiles no sambódromo, bloquinhos, e todo o resto?

Entramos em contato com Alberto Ikeda, pesquisador de música e cultura popular brasileira, professor colaborador do programa de pós-graduação da ECA-USP e aposentado pelo Instituto de Artes da Unesp, que nos explicou sobre a origem de diversos pontos-chave do carnaval no País.

 

Desfiles

"No sentido de carnaval organizado em desfile, o século 19 é muito claro. Começam a surgir clubes e sociedades carnavalescos no Rio de Janeiro, em que as pessoas da elite se juntavam para uma espécie de desfile com carros alegóricos. O que mudou é que hoje em dia não há mais banda, e sim a bateria da escola de samba, por influência dos negros", conta Ikeda. Por volta de 1870, ainda surgem os chamados ranchos carnavalescos, semelhantes, porém mais populares, com membros da classe média.

A disputa entre as agremiações, como conhecemos hoje, em que jurados analisam diversos aspectos dos desfiles, como harmonia, evolução, comissão de frente e enredo, porém, é algo mais recente. "Não existia formalmente um concurso de 'melhor carnaval', mas uma competitividade, sem dúvida, na medida em que, quando surgia uma sociedade carnavalesca, criava-se outra querendo mostrar uma brincadeira mais interessante, organizada e bonita." 

"O carnaval que a gente tem hoje começa ao final da década de 1920, quando surge uma escola de samba no Rio chamada Deixa Falar, e logo em seguida, em 1929, a Mangueira. A partir de 1933, há grupos suficientes para começar a ter uma espécie de competição, com o desfile das escolas de samba, que contam predominantemente com a presença negra", complementa.

Como àquela época o Rio de Janeiro era a capital do País, acabava sendo referência cultural, o que ajudou a espalhar o costume para diversas cidades. "Mas, no Brasil, carnaval não é só escola de samba. É muito mais do que isso", lembra Ikeda, citando exemplos de outras cidades que contam com festividades desde muito tempo atrás, como Recife e Salvador, por exemplo, cada uma com suas peculiaridades.

 

Música

Um dos pontos altos do carnaval são as marchinhas. Sua origem vem da Europa, justamente nas antigas marchas, expressões musicais ligadas ao deslocamento de pessoas, utilizadas em ocasiões militares e também em procissões religiosas. Quando as melodias se tornaram bem-humoradas, da forma como conhecemos no carnaval, passaram a ser conhecidas pelo seu diminutivo, as marchinhas.

Da influência africana, por sua vez, vem o samba-enredo, como conhecemos hoje, que utiliza outros tipos de instrumentos em sua musicalidade, como tambores e percussões típicas.

"A marchinha começa a se proliferar no Brasil em 1920, com incrível força até 1960. O samba-enredo começa pela década de 1930, e foi sua valorização que fez com que as marchinhas perdessem espaço", relata Ikeda, destacando que, durante o populismo da Era Vargas, as grandes referências carnavalescas eram tomadas justamente com base no carnaval ligado aos negros.

Curiosamente, antes de 1910, não eram tocadas apenas músicas carnavalescas durante as festas, sendo possível encontrar bailes de carnaval ao som de valsas, tangos, quadrilhas, entre outros ritmos. "Hoje em dia há uma retomada nessa coisa de maior liberdade sonora. A gente vê festas carnavalescas até com música rave, eletrônica, ou sertaneja universitária", conta.

 

Blocos de Carnaval

Alberto relata que, em 1991, havia menos de 40 blocos de carnaval na capital paulista. Em 2017, por sua vez, são esperados quase 500. "Houve uma explosão nos últimos quinze anos, é um momento de grande mudança. A retomada dos blocos de rua é uma contraposição aos desfiles do chamado 'carnaval confinado', com ingresso, transmissão, tudo organizado".

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. Foto: Hélvio Romero/Estadão

Período imperial

Durante a primeira metade do século 19, já começava-se a esboçar um clima carnavalesco mais próximo ao que vivemos hoje.

Havia, por exemplo, uma prática de origem portuguesa chamada 'entrudo', em que as pessoas de classes mais populares saíam às ruas para festejar com brincadeiras, como jogar água nos outros e pregar peças. "No entrudo, perdia-se essa noção de hierarquia, e escravos também participavam e faziam algazarra", complementa Ikeda.

A elite, por sua vez, não participava do entrudo: "Por volta de 1840, no Rio de Janeiro, começa o chamado carnaval burguês, em que havia desfile de máscaras e bailes carnavalescos, tomando como modelo o carnaval de Veneza. Apenas a elite comemorava esse tipo de carnaval, mais organizado, pois era preciso pagar para comprar máscaras importadas, músicas...".

 

Representatividade

Hoje em dia, é possível ver diversos grupos marginalizados se expressando durante o período do Carnaval, como LGBT, negros e mulheres, por exemplo.

Apesar de ainda vermos casos em que as pessoas se utilizem de técnicas como blackface, ou se fantasiem representando gays ou transexuais de forma depreciativa, há relatos que indicam que o período do carnaval chegou a representar um espaço de expressão para diversas minorias.

"Como o espírito carnavalesco sempre foi de liberalidade, os grupos marginalizados tiveram maior oportunidade de se manifestar. Historicamente, os grupos negros, marginalizados até hoje, tiveram muito mais oportunidades para se manifestar nos períodos carnavalescos, inclusive escravos", relata Ikeda. "Tem blocos hoje em dia que são basicamente um momento de manifestação de grupos gays. Também há alguns em que há somente a presença de mulheres, por exemplo."

 

Origem religiosa

As festividades relativas ao carnaval remetem a períodos anteriores ao surgimento do cristianismo, tendo sito adotado como uma data religiosa apenas séculos depois, com a propagação do catolicismo pela Europa, a partir do século 4.

Desta forma, celebrações parecidas com o carnaval, que ainda não tinha esse nome, e que eram estritamente religiosas, ocorriam apenas nas civilizações mais antigas, em cultos dionisíacos, ou seja, relacionados a Dionísio, deus do vinho, alegria e sexualidade, e que homenageavam deuses da natureza, clamando por sucesso em colheitas e procriação de animais, por exemplo.