Como é entrar no banheiro errado

Meredith Russo* - The New York Times

'Fui ficando tão mal que simplesmente deixei de ir ao banheiro no local de trabalho. Desenvolvi uma infecção urinária. Parei de tomar água antes e durante o expediente'

Não existe ninguém mais submisso que uma mulher recém-saída da transição

Não existe ninguém mais submisso que uma mulher recém-saída da transição Foto: Pixabay

Sou uma transmulher, o que quer dizer que me identifico mais com o sexo feminino que com aquele que está em minha certidão de nascimento. Fiz a transição total em 2013 quando trabalhava num call center: um dia entrei como homem e no outro já era mulher. Tudo ia indo bem. Meus colegas aceitaram com naturalidade e os clientes me tomavam por mulher, pela voz. Mas então uma de minhas chefes disse que precisávamos conversar.

Ela queria falar de banheiros. 

Perguntou se eu fizera "a cirurgia" (falar de seus genitais com um superior no trabalho não é exatamente uma festa). Respondi que não. "Então você terá de usar o banheiro dos homens até que faça. Não podemos nos arriscar a um processo."

Fui ao banheiro masculino, onde esperei vagar uma cabine. Cheguei a pensar em chutar o balde e usar o mictório mesmo, levantando a saia e mostrando o dedo do meio para qualquer homem que viesse me zoar. Mas não existe ninguém mais submisso que uma mulher recém-saída da transição. 

O homem que saiu da cabine me olhou como se eu fosse uma jarra de leite derramado. Depois que entrei, esperei trancada até o banheiro ficar vazio de novo, mas quando estava lavando as mãos outro cara entrou. Olhou-me longamente e veio direto para o mictório ao lado da pia, bem perto de mim, sem nunca desviar o olhar. 

Quanto aos encarregados da limpeza de banheiros, como há muita rotatividade entre eles parecia que uma nova equipe assumia a cada duas semanas. Quando me viam, os novos encarregados achavam que haviam entrado por engano no banheiro feminino. Alguns insistiam que eu estava no lugar errado - até entenderem o que eu era. Aí, ficavam furiosos. 

Fui ficando tão mal que simplesmente deixei de ir ao banheiro no local de trabalho. Desenvolvi uma infecção urinária. Parei de tomar água antes e durante o expediente. 

Isso aconteceu no Tennessee, onde passei a maior parte da vida. A lei do Estado não me proíbe de usar o banheiro feminino - embora não por falta de tentativa dos políticos. Em 2012, o senador estadual Bo Watson, republicano, representante do condado onde nasci e ainda vivo, apresentou um projeto de lei sobre "assédio em banheiro" que multava em 50 dólares o trans que usasse o banheiro "errado" (logo depois ele retirou o apoio ao projeto, alegando que tinha assuntos mais urgentes para tratar). Mais recentemente, a deputada estadual Susan Lynn, também republicana, entrou com outro projeto parecido, estabelecendo que estudantes de colégios e universidades públicos usassem os banheiros condizentes com o gênero constante de sua certidão de nascimento. O projeto foi retirado em abril, um mês antes de o governo Obama determinar às escolas que deixassem os estudantes usar os banheiros escolhidos de acordo com sua identidade de gênero.

Fosse qual fosse a lei, eu temia que meu empregador me demitisse se desobedecesse. A lei federal de direitos civis protege trabalhadores transgêneros de demissão por sua identidade de gênero, mas na época eu não sabia disso. 

Leis semelhantes sobre o uso de banheiro passaram em outros Estados, notadamente Carolina do Norte e Mississippi. Muitos dos que as apoiam dizem não odiar pessoas trans; sua preocupação, argumentam, é que homens se finjam de trans para poder ir a banheiros femininos e atacar mulheres sem que elas possam reclamar de sua presença. Outros apoiadores desse tipo de lei admitem que fariam exatamente isso (o que, se me perguntam, diz mais sobre eles do que o que diriam as mulheres trans). A verdade, no entanto, é que essa situação não ocorre, pelo menos não com relevância estatística. 

Um contrato para um livro me permitiu deixar o emprego para escrever em tempo integral. Ninguém pode me assediar por usar meu próprio banheiro. E, de muitas maneiras, a vida tem sido mais fácil para mim que para outras trans: sou branca e passo por mulher usando maquilagem. Também nunca fui estuprada ou atacada, o que é comum com pessoas trans. 

Isso não quer dizer que me sinta à vontade quando tenho de usar um banheiro público. O medo está ali - de que alguém se sinta ofendido, fique com raiva e me ataque; de que tenha de sair de um prédio comercial; ou de que seja acusada de comportamento impróprio, presa e posta numa cadeia masculina. 

É o que eu gostaria que os apoiadores dessas leis entendessem: vivemos muito mais apavoradas com vocês do que vocês conosco.

* Meredith Russo é autora do romance para adultos jovens If I Was Your Girl (Se eu fosse sua namorada)

Tradução de Roberto Muniz