Artistas usam a voz como arma na luta para desconstruir padrões de gênero

Rafael Gonzaga - Especial para o E+

Músicos brasileiros aquecem o debate sobre a pluralidade de identidades de gênero

Terrorista de gênero: é assim que MC Linn da Quebrada se define. A cantora é uma das representantes de uma cena de artistas que, por meio da música, desconstroem o pensamento de que a sociedade seja dividida entre masculino e feminino. Com representantes em nichos como o rap, o funk, a MPB e a soul music, esses artistas vêm lotando shows e chamando atenção para o debate do que é gênero graças à exposição de suas identidades - trans, travestis, não-binárias, fluídas - e a letras engajadas em promover a conscientização sobre diferentes formas de se identificar. 

Assim como a funkeira MC Linn, nomes como As Bahias e a Cozinha Mineira, Liniker, Jaloo, Rico Dalasam e Johnny Hooker usam a música para abrir o leque de expressão e gênero. Linn, por exemplo, usa suas composições para tecer críticas ácidas ao machismo e à LGBTfobia. Para ela, a visibilidade que vem recebendo atualmente é algo de extrema importância. “Seria inocente da nossa parte achar que somos pioneiras nesse tipo de discurso. Acho que o que estamos fazendo é construir um tipo de linguagem que possibilita propagar informação. Com a internet, foi possível estabelecer conexões com pessoas que não estavam necessariamente próximas do nosso discurso. Com isso, a gente conseguiu se fortalecer e conquistar a grande mídia, um espaço que antes não nos era permitido”, diz.

Representante da soul music, Liniker é um dos expoentes desta cena. Mesclando elementos comumente designados como masculino ou feminino em seu figurino, Liniker rejeita os rótulos de gênero. A cantora (ou o cantor) explodiu com sua banda, os Caramelows, no fim de 2015 na internet e em menos de uma semana um dos primeiros vídeos postados no Facebook atingiu a marca de um milhão de visualizações. Em outubro, abocanhou o prêmio de Artista Revelação dado pelo jurí especial do Prêmio Multishow. 

“Cada pessoa tem um tipo de representação diferente. Eu me expresso desse jeito e fico muito contente de ver que, em algum lugar, pessoas se sentem espelhadas no que eu faço, no que eu sou, na minha personalidade. Isso acontece quando eu sou verdadeira comigo quando eu me empodero e quando eu passo meus questionamentos para a frente”, afirma.

Em outro ponto desse debate estão Raquel Virgínia e Assucena Assucena, vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. Apesar de se identificarem com o gênero feminino, as duas carregam uma expressiva carga de representatividade por serem mulheres transexuais nos vocais de um conjunto musical que vem se destacando. No último ano, o primeiro álbum das Bahias, Mulher, foi lançado após uma gestação de praticamente três anos. Viajando pelo Brasil todo com o trabalho, elas chegaram a fazer 18 shows só no mês de maio. O grupo, inclusive, era um dos concorrentes na categoria Revelação do Prêmio Multishow, vencido por Liniker.

Raquel conta que a responsabilidade de ser vista como uma referência para outras mulheres trans é algo com o qual ela lida da forma mais saudável possível. “A minha militância não é uma opressão para mim, ela está na minha vida justamente para me livrar das opressões. Eu sempre falaria sobre essa questão, o que eu faço é o que eu faria sendo famosa ou não. É bom que as pessoas vejam que mulheres trans são pessoas normais, que podem ser cantoras, que podem gerir suas carreiras. É muito importante que isso aconteça nesse momento. As pessoas precisam ter um entendimento de que pessoas trans podem ser o que elas quiserem”, diz.

Apesar de se identificarem como cisgêneros, Johnny Hooker e Rico Dalasam são mais dois nomes que atuam na desconstrução do que é masculino e feminino. Johnny, que se tornou conhecido após ter as músicas em trilhas sonoras de filmes e novelas, se apresenta sempre com indumentárias pouco convencionais e se diz feliz em presenciar essa cena. “Eu lembro de ter lido uma socióloga falar que, nos próximos anos, as linhas entre gêneros se tornariam cada vez mais tênues e eu estou muito feliz de estar vivo para experimentar esse momento na música. A gente já teve isso lá atrás, com Gal, Bethânia, Caetano, que também questionavam essa coisa da expressão sexual. O que é inédito para mim é ver no Brasil um inconsciente coletivo para tantos artistas se mostrarem dessa forma”, avalia.

Para Rico Dalasam, primeiro rapper gay a conseguir destaque no País, a questão da proximidade entre público e artistas faz com que a presença deles se torne algo cada vez mais natural. “É questão de fazer parte do imaginário das pessoas, mas não do imaginário marginal e sim do que está perto. A gente está nos lugares que todo mundo assiste, não é mais algo específico para uma galera. E ser visto é se infiltrar no imaginário das pessoas. Hoje ela viu Rico Dalasam, no outro dia ela viu Linn, no outro viu Liniker. Ela vai vendo e tudo isso vai se consolidando na cabeça dela como uma possibilidade”, explica.

Se por um lado a necessidade de construir essa figura no imaginário das pessoas é forte, por outro a desconstrução é tanta que até falar em um movimento único pode soar estranho para esses artistas. O termo ‘cena queer’, muitas vezes utilizado para se referir a esses cantores de forma coletiva, é algo que MC Linn, por exemplo, torce o nariz em um primeiro momento pela apropriação de terminologias estrangeiras que, segundo ela, não refletem particularidades nacionais. E Johnny Hooker faz coro ao criticar essa necessidade taxonômica em detrimento à provocação gerada pela dúvida. “David Bowie em Ziggy Stardust era alienígena, não era nem ali, nem aqui, mas era tudo ao mesmo tempo. Eu acho muito mais interessante lidar com essa questão assim do que colocar as pessoas nas gavetinhas. A mídia fez muito isso no último ano, mas o trabalho dessa galera é muito mais afrontar, questionar e, principalmente, fazer as pessoas se perguntarem quem elas são”, diz.

Linha do tempo. Para o sociólogo Richard Miskolci, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade da UFSCar, a cena destes artistas é uma versão atualizada da relação entre música e comportamento. O pesquisador diz que não foi por acaso que entre a década de 1960 e 1970, em meio à urgência da Revolução Sexual e da contracultura, essa relação emergiu e se disseminou. “Da dança de Elvis Presley passando pela androginia de David Bowie ou Patti Smith até Secos & Molhados, música e comportamento se uniram em questionamentos sobre as fronteiras de gênero e as expressões da sexualidade. Alguns definiam essa ‘tendência’ de ‘gender fuck’, na época em que homens hippies deixaram o cabelo crescer e emergia a moda ‘unisex’”, explica.

Miskolci explica que essa vertente sofreu um refluxo a partir de meados da década de 1980 por razões políticas, pela crise da Aids e pela ascensão da cultura do corpo e de um visual mainstream com gêneros demarcados. “Esses antecedentes precisam ser evocados para se compreender a atualidade. A cena queer atual não surge em um vácuo cultural e histórico, antes reage a um período de expressões culturais conformistas com relação a gênero e sexualidade assim como o faz reatualizando e se inserindo em uma ‘tradição’”, diz.

Segundo o sociólogo, contudo, é preciso tomar cuidado: ao mesmo tempo que a relação entre música, performance e comportamento pode ser cenário para experimentação, ela pode ser absorvida pelas lógicas de mercado. “Enquanto a música pop e suas figuras das décadas de 1960 e 1970 se inseriam na cultura de massas lançando modelos e modas que se disseminavam pela sociedade como um todo, hoje a segmentação cultural e de mercado tende a alocar cada um em um estilo ou linha musical com impacto menos geral e disseminado.  É preciso avaliar se o antigo ‘gender fuck’ não virou segmento comercial, um nicho mercadológico de nossos dias”, conta.