Aplicativo oferece táxis conduzidos por mulheres apenas para clientes mulheres

Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

'O assédio é uma coisa que, infelizmente, sempre vai existir. Um app como o meu é a solução de um problema', diz o fundador do Femitaxi

Aplicativo de táxi focado em público feminino inclui apenas taxistas mulheres.

Aplicativo de táxi focado em público feminino inclui apenas taxistas mulheres. Foto: REUTERS/Carlo Allegri

Num momento em que muito se discute o direito da mulher de ser respeitada e o fim do assédio sexual, surge uma proposta um tanto polêmica: um aplicativo de táxi apenas para clientes mulheres com motoristas mulheres, o Femitaxi.

A ideia surgiu há dois anos, conta o fundador Charles-Henry Calfat Salem: "Eu tinha umas amigas que conversavam comigo sobre motoristas [homens] que tinham comportamentos inadequados, eu ouvi isso várias vezes. Não era a maioria, mas era muito frequente. Aí eu pensei e falei para elas: imagina se a gente fizesse um aplicativo só de taxista mulher para as mulheres? E todas com quem eu falei adoraram a ideia."

Como na época ele não tinha muito conhecimento na área da tecnologia, acabou deixando a ideia meio de lado. Porém, neste ano, quando viu os conflitos entre taxistas e motoristas particulares se intensificarem, resolveu aproveitar a oportunidade: "Decidi lançar o Femitaxi e entrar nesse ramo já com o público segmentado, específico, que são as mulheres", explicou Salem.

Segundo pesquisa realizada pela 99 Táxis com 60 mil mulheres, 56,5% delas se sentem mais seguras em pegar táxis conduzidos por mulheres, muito por conta do medo do assédio. Em São Paulo, a quantidade de taxistas do sexo femino é de 8.100, o que representa menos de 10% do número de taxistas na cidade, segundo o Departamento de Transportes da Prefeitura.

No site do serviço, entre as propostas, lê-se: "Pais, namorados, amigas, podem ficar tranquilos, com o FemiTaxi elas estão em boas mãos." Mas a ideia de que mulheres devem optar por motoristas do mesmo sexo pode dar a entender que são elas quem têm de se defender e fugir do assédio, em vez de os homens mudarem suas atitudes.

Salem então diz que sua ideia é, na verdade, uma solução para o problema do assédio. "É uma questão de educação que o homem tem que respeitar a mulher igualmente, já que a gente é todo mundo igual. Mas eu comparo [o aplicativo] com o carro blindado: não seria melhor acabar com a violência em vez de blindar o carro? É o mesmo pensamento. O assédio é uma coisa que, infelizmente, sempre vai existir, mas com o tempo, com o combate de alguns grupos de mulheres e de alguns homens, essas desigualdades vão ser reduzidas. Mas tá demorando muito tempo. Um aplicativo como o meu é a solução de um problema. Sou empresário, então, quando vejo um problema, acho uma solução. Se 56% das mulheres preferem taxistas mulheres, por que não atender a essa demanda?", explica o fundador.

Transportes segmentados para as mulheres com a justificativa de prevenir o abuso e o assédio já foram discutidas antes e criaram bastante polêmica. Em 2014, a Comissão de Transportes e Comunicações da Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou um projeto de vagão exclusivo para mulheres nos trens e metrôs. No fim das contas, a lei não foi sancionada e o vagão nunca existiu, mas muitas mulheres se manifestaram contra a ideia. Neste ano, a Câmara Municipal de Belo Horizonte propôs a mesma coisa, causando revolta novamente por indicar que as mulheres devem ser separadas dos homens para que não haja assédio.

Contudo, ainda é cedo para dizer se o aplicativo terá sucesso entre as mulheres, mas, entre as motoristas, parece promissor. O Femitaxi começou a funcionar oficialmente na última quinta-feira, 1º de dezembro, em São Paulo e na região metropolitana, com cem motoristas, e já planeja se expandir para outras capitais. Um grupo de taxistas de Belo Horizonte, Minas Gerais, mostrou tanto interesse no aplicativo que será o próximo local a receber o serviço. "Elas conseguiram juntar 50 taxistas num grupo. Então entramos em contato com elas, dissemos que a segunda cidade será BH. Era para ser Rio de Janeiro mas, com a empolgação delas, mudamos e na segunda semana de janeiro estreamos lá", disse Charles-Henry.

O Femitaxi está disponível para celulares Android e iOS e trabalha apenas com taxistas. Uma das promessas que o aplicativo fez para as taxistas associadas foi justamente que não vai cadastrar motoristas particulares. Ao baixar o aplicativo pela primeira vez, a usuária tem R$ 15 de desconto. O valor das corridas é pré-estabelecido no aplicativo ao definir o ponto de partida e o destino.