Algoritmo promete identificar orientação sexual com apenas uma foto do rosto

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Pesquisadores de Stanford que desenvolveram a ferramenta estão no meio de um grande debate ético

Críticos à pesquisa ressaltam que as fotos analisadas são de um site de relacionamentos, e, portanto, podem ser editadas e não representar quem as pessoas costumam ser no dia a dia

Críticos à pesquisa ressaltam que as fotos analisadas são de um site de relacionamentos, e, portanto, podem ser editadas e não representar quem as pessoas costumam ser no dia a dia Foto: Pixabay/tookapic

Pesquisadores da universidade norte-americana de Stanford afirmam ter desenvolvido um algoritmo capaz de identificar, com até 91% de precisão, se uma pessoa é hetero ou homossexual com base em apenas uma foto do rosto.

Michal Kosinski e Yilun Wang, responsáveis pelo estudo, usaram informações e mais de 35 mil imagens de um site de relacionamentos para criar um software capaz de diferenciar um rosto gay de um rosto hétero. Os pesquisadores explicam que a inteligência artificial é capaz de identificar traços sutis na estrutura facial que passam despercebidos aos nossos olhos.

Os resultados causaram furor ao serem divulgados na mídia, inicialmente pela revista The Economist. Quando apresentado com uma foto de um homem gay e uma de um homem hétero, a ferramenta foi capaz de distinguir a orientação de cada um deles em 81% dos casos. Com cinco imagens de cada, a taxa de acerto subiu para 91%. Já nas fotos de mulheres, o algoritmo acertou 74% das vezes com apenas uma imagem de uma lésbica e outra de uma heterossexual. Com cinco fotos de cada, a precisão foi de 83%.

Foi possível identificar, de acordo com os pesquisadores, que homossexuais costumam ter marcas de gênero menos expressivas. Os homens que se declararam gays tinham a mandíbula em geral mais estreita, narizes mais longos e testas maiores do que os héteros. Mulheres lésbicas tinham a mandíbula mais larga e a testa menor do que as outras. 

No entanto, uma das primeiras críticas ao estudo foi em relação à amostragem. Apenas pessoas brancas foram incluídas – pois os traços raciais seriam uma grande interferência, de acordo com os pesquisadores – e o fato de todas as fotos terem sido tiradas de um site de relacionamentos também poderia influenciar os resultados. 

O professor Benedict Jones, que administra o Laboratório de Pesquisa de Rostos da Universidade de Glasgow, na Escócia, ressaltou à BBC que imagens postadas nesses espaços costumam ser reflexo da forma como as pessoas querem ser representadas. Pense bem: nas suas redes sociais, as fotos representam suas expressões do dia a dia ou são uma curadoria cuidadosa dos melhores ângulos?  Muitas fotos podem, inclusive, ter sido editadas para se encaixar em padrões estéticos. 

Além dos questionamentos em relação à metodologia, entidades de direitos LGBT demonstraram preocupação com o uso do software. Lucas Paoli Itaborahy, que já participou da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas em Genebra e foi pesquisador da International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association (ILGA), considera a ferramenta perigosa. “Eu, como ativista e pesquisador, acredito que [a orientação sexual] possa ter influência genética. Porém, determinar através de um estudo e criar um mecanismo é um prato cheio para perseguições”, pondera Itaborahy, hoje gerente de projetos da Micro Rainbow International.

Governos de países que perseguem homossexuais ou empresas com recrutadores homofóbicos, por exemplo, poderiam tomar decisões perigosas com o software em mãos. “Se você puder começar a categorizar as pessoas com base na aparência, depois identificá-las e fazer coisas horríveis a elas, isso será muito ruim”, disse ao jornal The Guardian Nick Rule, professor de psicologia da Universidade de Toronto, que já publicou um estudo sobre a ‘ciência do gaydar’

Kosinski respondeu também ao The Guardian que o objetivo do estudo era exatamente mostrar a que ponto a inteligência artificial já chegou e incitar que sejam criadas regulamentações e proteções para possíveis aplicações perigosas dessa tecnologia. “Uma das minhas obrigações como cientista é que, se eu sei que algo pode potencialmente proteger as pessoas de riscos, eu devo publicar”, afirmou ao jornal. “Rejeitar os resultados porque você não concorda com eles em um nível ideológico pode prejudicar exatamente as pessoas com as quais você se importa”, continuou o pesquisador. Ele ainda esclareceu que o software não foi tornado público.

Itaborahy pondera que a sexualidade é um campo muito subjetivo. Ele reitera que, atualmente, é cada vez mais difícil fazer a diferenciação entre um gay e um hétero, muito por conta da moda e do número de homens heterossexuais que demonstram sua vaidade sem receio. Para ele, a diferenciação nem deveria ser o centro das atenções. “Idealmente, ninguém deveria se preocupar se uma pessoa é hétero ou não. É um campo íntimo, que diz respeito a cada indivíduo, e ninguém deveria se importar com quem o outro ama ou se relaciona”, reflete.