Visual novo só com ajustes

Bete Hoppe - O Estado de S.Paulo

A decoradora Bia Pimenta Camargo transforma ambientes reposicionando móveis e trocando tecidos

Castiçais de prata, mesa Império, pesos antigos de balança. Basta perder o olhar pelos móveis e objetos desse sobrado do Jardim Europa para perceber que o passado é relevante. "Hoje, ninguém tem apego; as casas não têm identidade", diz a decoradora Maria Beatriz (Bia) Pimenta Camargo. "Aqui, não, reconheço cada peça... Ou ganhei de presente de casamento, herdei da família ou trouxe de viagem." Isso tudo mais as peças que arrematou em leilões, antiquários e feiras de antiguidades. O acervo de Bia já foi inclusive mais numeroso. "Minha casa estava ficando entulhada, por isso abri o Depósito São Martinho", diz, referindo-se à loja de artigos decorativos, alguns deles vintage.

No trabalho, Bia pratica a arte exercitada em sua residência, a pocket decoration. Traduzindo: ela muda o visual de um ambiente apenas reposicionando peças. E garante o novo layout em um só dia. "Claro que, se tiver de trocar tecidos e pintar paredes, vai demorar um pouco mais", avisa. Mas é um jeito de decorar "sem gastar uma fortuna".

De uma tradicional família paulistana, ela cresceu cercada de arte. O pai, o advogado e banqueiro Mário Pimenta Camargo (morta em 1996), possuía uma das mais afamadas coleções privadas de porcelanas, quadros, prataria, móveis e livros antigos do País, e que já pertenceu a instituições artísticas, como o Masp, a Fundação Bienal de São Paulo e o MoMA de Nova York. A mãe, Maria Beatriz, especialista em arte brasileira, ainda hoje está ligada à Fundação Maria Luísa e Oscar Americano.

Na própria casa, contudo, Bia tem poucas telas, como um Chico Coelho na parede de tijolos aparentes da saleta de TV, adquirido em Paraty, e um Burle Marx na sala de estar, presente do ex-marido. "São poucos quadros por causa da falta de paredes internas", justifica a decoradora. Resultado da pequena reforma que fez há 18 anos, quando comprou o imóvel construído nos anos 50 e projetado pelo arquiteto modernista Gregori Warchavchik. "Apenas fechei a varanda com portas de vidro para usar como sala de jantar, e ampliei as aberturas entre as salas", conta.

Nos ambientes integrados, destacam-se poucos mas bons móveis, sobretudo de madeira. Na sala de jantar, por exemplo, uma grande mesa maciça pernambucana sobre o tapete de mais de 80 anos, herança de família. Uma travessa de faiança, usada como bandeja, e um par de castiçais de prata dão glamour ao móvel. Porém, o mais interessante nesse espaço - além das gravuras de fauna e flora de Debret - se encontra abrigado num armário suspenso: a coleção de miniaturas. Há bibelôs de prata e de porcelana, inclusive de Limoges e de Sèvres, como potes, vasos, jogo de chá e relógio.

Outras coleções ficam expostas no estar. Sobre as mesas espalham-se inúmeros modelos de caixinhas, de pedra, osso, couro, madeira e porcelana. E nas estantes, porcelanas, como a xícara com flores e borboletas da Companhia das Índias e a manteigueira que pertenceu ao conde do Pinhal.

A decoração muda conforme a ?fase? de Bia. As cortinas entre as estantes, por exemplo, agora são azuis (da Casa & Cia), enquanto os sofás aparecem encapados de listrado anil e vermelho. Ela mesma patinou de verde o antigo guarda-louça da sala de almoço, cheio de peças de porcelana herdadas da avó Alzira. "Sou mais para o simples e bom. Gosto de apreciar o que é singelo", afirma Bia.